autor
Luis Emiliano Costa Avendaño
Graduado em Desenho Industrial pela Pontifícia Universidad Católica de Valparaiso - Chile, Mestre pele Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - FAU/USP, professor de graduação do Centro Universitário Belas Artes, Faculdades Oswaldo Cruz - FAITER e Universidade Bandeirantes, professor de pós-graduação dos curso de Gestão do Design (Belas Artes) e Gestão em Light Design (SENAI), membro fundador da Associação dos Designers de Produto - ADP. Consultor de Design.
O Design e o Designer Competitivos: uma necessidade de mercado
Postado em 07/10/2011        comentarios (0)

 O design e o designer em especial estão passando por um momento de amadurecimento que implica no reconhecimento de um novo pensar deste ofício. Desde o início da construção da profissão no Brasil, nos idos anos 1950, em que estava profundamente enraizada na fundamentação vinda das escolas de design da Bauhaus e Ulm, já passamos por um processo de emancipação muito bem defendido por posturas de designers competentes tanto nas suas análises teóricas como na prática da profissão – neste último caso este fato pode ser observado pelo reconhecimento da competência através dos diversos prêmios nacionais e internacionais[1] e pela vasta produção bibliográfica destes últimos dez anos.

Mas isto não é suficiente para colocar o design/designer num patamar de reconhecimento de mercado, que ainda o percebe como um ser estético e não como componente essencial para o sucesso de uma empresa. A empresa, independente do seu porte, acredita que o designer, com raras exceções, existe para dar um valor estético que em tese redundaria em aumento das vendas, sem perceber que o valor do design vai além do belo e da funcionalidade – e esta análise acaba prejudicando o próprio designer, que fica desvalorizado como profissional.

No Brasil, o design como negócio ainda não se estruturou – o próprio designer perde espaço para outros agentes, já que não consegue pensar estrategicamente seu próprio oficio e menos a necessidade do cliente – o designer em particular, em especial o recém-formado ou com pouca experiência de mercado, tende a se colocar como projetista de ideias, mas não como estrategista, e esta dificuldade nasce não necessariamente da postura do próprio designer com todas suas deficiências cognitivas de base, mas do próprio ensino do design onde o aluno acaba saindo da faculdade sem uma formação empresarial e de gestão que lhe permita não só se colocar como um ente competitivo (endomarketing), mas principalmente como um solucionador de negócios da empresa.

Esta deficiência precisa ser corrigida com urgência em virtude das mudanças de mercado pelas quais o Brasil está passando nestes últimos anos, que acaba mostrando as carências de mão de obra competitiva para solucionar problemas, deixando espaço para a inovação advinda de outros mercados e não gerando a própria inteligência. Viramos países produtores e não geradores de marcas e de inovação. Em parte, a questão da inovação no Brasil tem mudado para melhor, seja no âmbito das tecnologias ou em outras áreas do conhecimento – mas no momento de gerar novas experiências ao consumidor final, área de atuação do designer, esta inovação ainda está engatinhando.

A articulação destas novas estratégias de pensamento começa pelo próprio ensino do design. É necessário estruturar uma grade que inclua:

 ? PENSAR O DESIGN – através de disciplinas teóricas que permitam que o aluno raciocine seu papel e ofício no ato de ser designer, e principalmente que aprenda a compreender-se como ser humano e como componente social – o aluno deve pensar o design através da observação. Disciplinas básicas: Antropologia (conhecer as tribos, grupos sociais, movimentos sociais etc.), Filosofia (conhecer o eu e o outro), Sociologia (conhecer a sociedade), História da Arte e do Design Contemporâneo, História do Design Brasileiro (a procura de uma linguagem brasileira), Linguagens do Design.

? PRATICAR O DESIGN – indo além da prática simples da modelagem em ateliês, o aluno deveria se integrar mais na prática produtiva de suas ideias. Para que isto aconteça, as Instituições de Ensino Superior (IES) deveriam gerar convênios com entidades que possuem laboratórios de experimentação de processos, seja gráfico ou de produto. Disciplinas básicas: Observação e Criatividade, Metodologia de Projeto, Projeto do Objeto, Projeto Gráfico, Inovação e Tendências, Desenho de Observação, Desenho Técnico, Computação Gráfica (ensinar a criar com a ferramenta), Materiais e Processos (teoria e prática em campo), Ergonomia (de interfaces de produto, gráfico e conforto ambiental).

? GERENCIAR O DESIGN – necessariamente deverá passar por uma compreensão das disciplinas que gravitam em torno da gestão (marketing, sociologia, antropologia, entre outras). O aluno deve praticar a gestão através da montagem de casos reais, e esta prática pode ser iniciada no próprio TCC, que deveria ser uma oportunidade de negócios, do inicio de um empreendedorismo, e não ser mais um TCC que fica nas prateleiras das IES. O aluno graduado tem dificuldade para gerar um diálogo estratégico com a empresa – seu cliente. Disciplinas básicas: Gestão do Design, Marketing, Empreendedorismo e Endomarketing, Gerenciamento de projetos através de Softwares.

Em paralelo a estes três focos do ensino do design, as IES deveriam dar apoio prático que complemente as atividades normais do currículo através de cursos livres, como: Softwares Gráficos (ensinar o software), Fotografia (aprender a prática do observar), Modelagem (aprender o espaço tridimensional), entre outras.

Percebo, como acadêmico, que o aluno é criativo, mas suas ótimas ideias de produtos e projetos gráficos são esquecidas nos intramuros das escolas de design, que poderiam alavancar a competitividade da indústria brasileira, mas, às vezes, por falta de vontade ou por falta de apoio, ficam só na intenção – chegamos ao ponto de que os próprios prêmios de design, em especial os primeiros lugares, não são inseridos no mercado, e o interessante é que as próprias indústrias incentivam a criação deste prêmios (o que é muito louvável), mas as mesmas, poucas vezes, viabilizam o próprio prêmio concedido.

À procura de uma excelência
Dias atrás li numa publicação semanal brasileira de grande circulação um ponto de vista sobre o significado da excelência dentro da construção de uma orquestra sinfônica em São Paulo, que em virtude desta procura de ser uma das melhores orquestras de referência no mundo, o novo diretor teve que demitir quase que um terço dos componentes da orquestra, devido ao conformismo com as antigas estruturas – os demitidos não gostavam do risco, há muitos anos faziam o mesmo, estavam acomodados, era necessário mudar ou mudar-se – vários entenderam que não é possível parar no tempo, era necessário perseguir a perfeição, ser o melhor.

Esta leitura me fez refletir sobre a excelência no ensino do design brasileiro e a primeira pergunta que me veio à mente é: qual é a escola de design do Brasil que pode ser considerada como referência em excelência? Qual seria a escola onde todos gostariam de estudar independente do investimento econômico? Não achei uma resposta. Ainda que haja várias escolas de qualidade no Brasil, dificilmente poderiam ser reconhecidas no mundo como referência. Lá fora, temos o Politécnico de Milão (Itália), o Royal College of Art – RCA (Inglaterra), o Instituto Europeu de Design - IED (Itália), o Pratt Institute (Estados Unidos) entre outras, todas ‘sonho de consumo’ dos alunos e recém-graduados das nossas escolas de design.

A seguir, apresento uma lista apresentada pelo Bloomberg/Businessweek[2] com as melhores escolas de design no mundo, conforme critérios relacionados a cenários de negócios (Design Thinking / Management Design).

Segundo a Bloomberg, as universidades estão tentando manter-se através da promoção do ensino que oferece suporte a uma abordagem interdisciplinar para resolver problemas. Apresentam os programas, oferecidos em escolas de negócios e de faculdades de design (por vezes em conjunto por ambos), um instantâneo atual do nascente movimento de ensinar o pensamento do design e da inovação para uma nova geração de líderes empresariais globais. As escolas estão listadas em ordem alfabética:

ENTIDADES DE ENSINO

CIDADE - PAÍS

Art Center College of Design 

Pasadena, Califórnia / USA

California College of the Arts

San Francisco, Califórnia / USA

Carnegie Mellon University

Pittsburgh, Pasadena / USA

Case Western Reserve University

Cleveland, Ohio / USA

Chiba University

Chiba, Japão

China Central Academy of Fine Arts

Beijing, China

Cranfield University/University of the Arts London

Cranfield, U.K., London, U.K.

Delft University of Technology

Delft, Holanda

Domus Academy

Milan, Itália

University of Art and Design Helsinki

Helsinki, Finlândia

Hong Kong Polytechnic University

Hong Kong, China

Illinois Institute of Technology

Chicago, Illinois / USA

Imperial College/Design London

London, U.K

Korea Advanced Institute of Science and Technology

Daejeon, Coréia

National Institute of Design

Ahmedabad, Índia

Northwestern University

Evanston, Illinois / USA

Pontifícia Universidade Católica do Paraná

Paraná, Brasil

Pratt Institute

New York, N.Y. / USA

Royal College of Art/Imperial College London

London, U.K.

Savannah College of Art and Design

Savannah, Ga. / USA

School of Visual Arts

New York, N.Y. / USA

Shih Chien University

Taipei, Taiwan / China Nacionalista

Stanford University

Stanford, Califórnia / USA

Suffolk University

Boston, Mass. / USA

Umeå University

Umeå, Suíça

University of Califórnia Berkeley

Berkeley, Califórnia / USA

University of Cincinnati

Cincinnati, Ohio / USA

University of Gothenburg

Gothenburg, Suíça

University of Toronto

Toronto, Ontário, Canadá

Com relação às escolas de design analisadas pelos critérios dos seus programas  de estudo[3] as melhores do mundo são:

ENTIDADE DE ENSINO

CIDADE - PAÍS

Arizona State University, College of Design

Tempe, Arizona. USA

Art Center College of Design

Pasadena, Califórnia. USA

Babson College

Babson Park, Mass. USA

Bainbridge Graduate Institute

Bainbridge Island, Wash. USA

California College of the Arts

San Francisco. USA

Carnegie Mellon University

Pittsburgh, Pa. USA

Central Saint Martins College of Art & Design

Londres, Inglaterra

Cleveland Institute of Art

Cleveland, Ohio. USA

College for Creative Studies

Detroit, Michigan. USA

Dartmouth College, Thayer School of Engineering

Hanover, N.H. USA

Delft University of Technology

Delft, Holanda

Design Academy Eindhoven

Eindhoven, Holanda

Domus Academy

Milan, Itália

ENSCI Les Ateliers

Paris, França

ESDI Brasil

Rio de Janeiro, Brasil

George Brown College

Toronto, Ont. Canadá

Georgia Institute of Technology

Atlanta, Ga. USA

Harvard Business School

Boston, Mass. USA

Hochschule Pforzheim

Pforzheim, Alemanha

Hong Kong Polytechnic University

Hong Kong, China

Hongik University College of Design

Seoul, Coréia do Sul

Illinois Institute of Technology's Institute of Design

Chicago, Ill.  USA

Indian Institute of Technology, Industrial Design Centre

Mumbai, Índia

Köln International School of Design

Cologne, Alemanha

Kaos Pilot International

Aarhus, Dinamarca

Keio University

Tokyo, Japão

Korea Advanced Institute of Science and Technology

Daejeon, Coréia do Sul

London College of Communication

London, Inglaterra

Massachusetts Institute of Technology

Cambridge, Mass.  USA

Musashino Art University

Tokyo, Japão

National Cheng Kung University

Tainan, Taiwan

National Institute of Design

Ahmedabad, Índia

North Carolina State University College of Design

Raleigh, N.C. USA

Northwestern University's Kellogg and McCormick Schools

Evanston, Ill.  USA

NYU Interactive Telecommunications Program

New York, N.Y.  USA

Oslo National Academy of the Arts (KHIO)

Oslo, Noruega

Parsons The New School for Design

New York, N.Y. USA

Polytechnic University of Milan

Milan, Itália

Pratt Institute

Brooklyn, N.Y. USA

Rensselaer Polytechnic Institute

Troy, N.Y.  USA

Rhode Island School of Design (RISD)

Providence, R.I. USA

Rochester Institute of Technology

Rochester, N.Y. USA

Royal College of Art

London, Inglaterra

San Jose State University, School of Art & Design*

San Jose, Calif.  USA

Shih Chien University

Taipei, Taiwan

Stanford University: Hasso Plattner Institute of Design, and the Product Design Engineering Program

Palo Alto, Calif. USA

Strate Collège

Paris, França

Tongji University

Shanghai, China

Tsinghua University

Beijing, China

U. of Cincinnati, Design, Architecture, Art & Planning Program

Cincinnati, Ohio. USA

U. of Illinois, Chicago

Chicago, Ill. USA

U. of Michigan, Integrated Product Development Program

Ann Arbor, Mich. USA

U. of Toronto, Rotman School of Management

Toronto, Ont. Canadá

U.C-Berkeley, Haas School of Business

Berkeley, Calif. USA

UCLA Design Media Arts department

Los Angeles, Calif. USA

UMEA Institute of Design

Umea, Suécia

University of Art & Design Helsinki

Helsinki, Finlândia

University of Oxford, Saïd Business School

Oxford, Inglaterra

Virginia Commonwealth University Adcenter

Richmond, Va. USA

Zollverein School of Management and Design

Essen, Alemanha

Pelo mapa, é possível ver onde fica esta última listagem de excelência:

Pelas duas listas é possível perceber que somente duas entidades de ensino brasileiras se encaixam dentro dos critérios de excelência da Bloomberg/Businessweek: a Pontifícia Universidade Católica do Paraná e a Escola de Desenho Industrial do Rio de Janeiro.

Podemos até criticar os critérios de análise desta competitividade, mas seria interessante que esta leitura não nos levasse a uma análise nacionalista da situação, pelo contrário: mostra-se que devemos melhorar muito mais para que outras universidades, tão excelentes como as mencionadas, aparecessem nesta lista e em outras. Para isto, seria interessante desenvolver critérios de excelência, independente da visão do MEC, que levem em conta a proposta qualitativa global do ensino.

A procura de excelência nas escolas de design no Brasil deve começar não só para mudar as atitudes dos docentes e discentes, mas principalmente das próprias instituições de ensino, que devem deixar de ver o aluno como ‘cliente’ – paradigma que precisa ser quebrado para que a excelência tenha sentido.

Por Prof. Me. Luis Emiliano Costa Avendaño


Referências
[1] iF Product Design Award 2011, o Brasil teve seu melhor resultado dos últimos anos, com 23 produtos premiados, o que mostra o potencial de produção do país.