O Design e o Designer Competitivos: uma necessidade de mercado
Postado em 07/10/2011
comentarios (0)O design e o designer em especial estão passando por um momento de amadurecimento que implica no reconhecimento de um novo pensar deste ofício. Desde o início da construção da profissão no Brasil, nos idos anos 1950, em que estava profundamente enraizada na fundamentação vinda das escolas de design da Bauhaus e Ulm, já passamos por um processo de emancipação muito bem defendido por posturas de designers competentes tanto nas suas análises teóricas como na prática da profissão – neste último caso este fato pode ser observado pelo reconhecimento da competência através dos diversos prêmios nacionais e internacionais[1] e pela vasta produção bibliográfica destes últimos dez anos. Mas isto não é suficiente para colocar o design/designer num patamar de reconhecimento de mercado, que ainda o percebe como um ser estético e não como componente essencial para o sucesso de uma empresa. A empresa, independente do seu porte, acredita que o designer, com raras exceções, existe para dar um valor estético que em tese redundaria em aumento das vendas, sem perceber que o valor do design vai além do belo e da funcionalidade – e esta análise acaba prejudicando o próprio designer, que fica desvalorizado como profissional. No Brasil, o design como negócio ainda não se estruturou – o próprio designer perde espaço para outros agentes, já que não consegue pensar estrategicamente seu próprio oficio e menos a necessidade do cliente – o designer em particular, em especial o recém-formado ou com pouca experiência de mercado, tende a se colocar como projetista de ideias, mas não como estrategista, e esta dificuldade nasce não necessariamente da postura do próprio designer com todas suas deficiências cognitivas de base, mas do próprio ensino do design onde o aluno acaba saindo da faculdade sem uma formação empresarial e de gestão que lhe permita não só se colocar como um ente competitivo (endomarketing), mas principalmente como um solucionador de negócios da empresa. Esta deficiência precisa ser corrigida com urgência em virtude das mudanças de mercado pelas quais o Brasil está passando nestes últimos anos, que acaba mostrando as carências de mão de obra competitiva para solucionar problemas, deixando espaço para a inovação advinda de outros mercados e não gerando a própria inteligência. Viramos países produtores e não geradores de marcas e de inovação. Em parte, a questão da inovação no Brasil tem mudado para melhor, seja no âmbito das tecnologias ou em outras áreas do conhecimento – mas no momento de gerar novas experiências ao consumidor final, área de atuação do designer, esta inovação ainda está engatinhando. A articulação destas novas estratégias de pensamento começa pelo próprio ensino do design. É necessário estruturar uma grade que inclua: ? PENSAR O DESIGN – através de disciplinas teóricas que permitam que o aluno raciocine seu papel e ofício no ato de ser designer, e principalmente que aprenda a compreender-se como ser humano e como componente social – o aluno deve pensar o design através da observação. Disciplinas básicas: Antropologia (conhecer as tribos, grupos sociais, movimentos sociais etc.), Filosofia (conhecer o eu e o outro), Sociologia (conhecer a sociedade), História da Arte e do Design Contemporâneo, História do Design Brasileiro (a procura de uma linguagem brasileira), Linguagens do Design. ? PRATICAR O DESIGN – indo além da prática simples da modelagem em ateliês, o aluno deveria se integrar mais na prática produtiva de suas ideias. Para que isto aconteça, as Instituições de Ensino Superior (IES) deveriam gerar convênios com entidades que possuem laboratórios de experimentação de processos, seja gráfico ou de produto. Disciplinas básicas: Observação e Criatividade, Metodologia de Projeto, Projeto do Objeto, Projeto Gráfico, Inovação e Tendências, Desenho de Observação, Desenho Técnico, Computação Gráfica (ensinar a criar com a ferramenta), Materiais e Processos (teoria e prática em campo), Ergonomia (de interfaces de produto, gráfico e conforto ambiental). ? GERENCIAR O DESIGN – necessariamente deverá passar por uma compreensão das disciplinas que gravitam em torno da gestão (marketing, sociologia, antropologia, entre outras). O aluno deve praticar a gestão através da montagem de casos reais, e esta prática pode ser iniciada no próprio TCC, que deveria ser uma oportunidade de negócios, do inicio de um empreendedorismo, e não ser mais um TCC que fica nas prateleiras das IES. O aluno graduado tem dificuldade para gerar um diálogo estratégico com a empresa – seu cliente. Disciplinas básicas: Gestão do Design, Marketing, Empreendedorismo e Endomarketing, Gerenciamento de projetos através de Softwares. Em paralelo a estes três focos do ensino do design, as IES deveriam dar apoio prático que complemente as atividades normais do currículo através de cursos livres, como: Softwares Gráficos (ensinar o software), Fotografia (aprender a prática do observar), Modelagem (aprender o espaço tridimensional), entre outras. Percebo, como acadêmico, que o aluno é criativo, mas suas ótimas ideias de produtos e projetos gráficos são esquecidas nos intramuros das escolas de design, que poderiam alavancar a competitividade da indústria brasileira, mas, às vezes, por falta de vontade ou por falta de apoio, ficam só na intenção – chegamos ao ponto de que os próprios prêmios de design, em especial os primeiros lugares, não são inseridos no mercado, e o interessante é que as próprias indústrias incentivam a criação deste prêmios (o que é muito louvável), mas as mesmas, poucas vezes, viabilizam o próprio prêmio concedido. À procura de uma excelência Esta leitura me fez refletir sobre a excelência no ensino do design brasileiro e a primeira pergunta que me veio à mente é: qual é a escola de design do Brasil que pode ser considerada como referência em excelência? Qual seria a escola onde todos gostariam de estudar independente do investimento econômico? Não achei uma resposta. Ainda que haja várias escolas de qualidade no Brasil, dificilmente poderiam ser reconhecidas no mundo como referência. Lá fora, temos o Politécnico de Milão (Itália), o Royal College of Art – RCA (Inglaterra), o Instituto Europeu de Design - IED (Itália), o Pratt Institute (Estados Unidos) entre outras, todas ‘sonho de consumo’ dos alunos e recém-graduados das nossas escolas de design. A seguir, apresento uma lista apresentada pelo Bloomberg/Businessweek[2] com as melhores escolas de design no mundo, conforme critérios relacionados a cenários de negócios (Design Thinking / Management Design). Segundo a Bloomberg, as universidades estão tentando manter-se através da promoção do ensino que oferece suporte a uma abordagem interdisciplinar para resolver problemas. Apresentam os programas, oferecidos em escolas de negócios e de faculdades de design (por vezes em conjunto por ambos), um instantâneo atual do nascente movimento de ensinar o pensamento do design e da inovação para uma nova geração de líderes empresariais globais. As escolas estão listadas em ordem alfabética:
Com relação às escolas de design analisadas pelos critérios dos seus programas de estudo[3] as melhores do mundo são:
Pelo mapa, é possível ver onde fica esta última listagem de excelência: Pelas duas listas é possível perceber que somente duas entidades de ensino brasileiras se encaixam dentro dos critérios de excelência da Bloomberg/Businessweek: a Pontifícia Universidade Católica do Paraná e a Escola de Desenho Industrial do Rio de Janeiro. Podemos até criticar os critérios de análise desta competitividade, mas seria interessante que esta leitura não nos levasse a uma análise nacionalista da situação, pelo contrário: mostra-se que devemos melhorar muito mais para que outras universidades, tão excelentes como as mencionadas, aparecessem nesta lista e em outras. Para isto, seria interessante desenvolver critérios de excelência, independente da visão do MEC, que levem em conta a proposta qualitativa global do ensino. A procura de excelência nas escolas de design no Brasil deve começar não só para mudar as atitudes dos docentes e discentes, mas principalmente das próprias instituições de ensino, que devem deixar de ver o aluno como ‘cliente’ – paradigma que precisa ser quebrado para que a excelência tenha sentido. Por Prof. Me. Luis Emiliano Costa Avendaño Referências
[1] iF Product Design Award 2011, o Brasil teve seu melhor resultado dos últimos anos, com 23 produtos premiados, o que mostra o potencial de produção do país.
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19/05/2012
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