2º Fórum Internacional Cidades Amigas do Design debate as transformações urbanas

Fonte Prefeitura Municipal de Curitiba

De que maneira o design pode contribuir para a transformação dos cenários urbanos? Este questionamento foi o tema central dos debates do 2º Fórum Internacional Cidades Amigas do Design (FICAD). Realizado no Museu Oscar Niemeyer, o evento reuniu especialistas da América do Sul, com representantes da Argentina, Brasil, Chile e Colômbia.

O colombiano Jorge Montaña, professor e consultor internacional em design participativo, trouxe a questão da mobilidade em Bogotá como o maior exemplo de transformação urbana na cidade. Como uma população atual de 8 milhões de pessoas – o que corresponde a 16,7% de todos os habitantes da Colômbia –, a cidade viveu o caos no trânsito até 1994. Além da desorganização viária, do excesso de veículos particulares e do transporte coletivo sucateado, havia ainda o total desrespeito aos pedestres e ciclistas e muita agressividade entre os próprios motoristas.

A transformação começou atacando o aspecto comportamental. Com o mote “os colombianos têm mais medo do ridículo do que do castigo”, a prefeitura colocou atores vestidos de palhaços nos principais cruzamentos. Com gestos engraçados e espalhafatosos, os palhaços denunciavam a invasão dos carros sobre as faixas de pedestres e outras infrações. A população se manifestou de forma positiva e a campanha ganhou também o apoio da imprensa. Para não passar ridículo, os motoristas de Bogotá mudaram seu comportamento no trânsito.

Depois disso, Bogotá adotou o sistema BRT, copiado de Curitiba. Com 117 km de largos e exclusivos corredores de ônibus, o transporte coletivo se tornou uma opção mais rápida e segura de deslocamento diário para 2,4 milhões de passageiros: enquanto os veículos de passeio levam em média duas horas para se deslocar da periferia ao centro da cidade, os ônibus passaram a fazer o mesmo percurso em 45 minutos.

A transformação seguinte veio pela adoção massiva de estruturas cicloviárias, com a implantação de 392 km de vias para bicicletas. “O uso da bicicleta foi associado ao triunfo e à alegria. Muita gente protestou, o sistema precisou de correções, mas a ciclomobilidade venceu e hoje é responsável por 600 mil viagens diárias, com 50% da população fazendo uso desse meio de transporte com segurança em Bogotá”, testemunha Jorge Montaña, que destaca também a ampliação dos passeios para pedestres como parte da campanha humanização do espaço urbano.

Design e planejamento

O chileno Cristian Montegu Ravinet, que também é professor universitário e preside a Associação Chile de Design, falou sobre o design como instrumento de planejamento urbano de cidades. Ao traçar um quadro das dificuldades enfrentadas nos grandes centros, Cristian Montegu apontou: aumento da pobreza, acidificação dos oceanos, poluição do ar causada pela crescente emissão de CO2, esgotamento dos recursos naturais, aumento da demanda por água, maior contaminação do solo pelo uso de pesticidas. “Administrar e reverter esses problemas tem de fazer parte da agenda dos grandes centros urbanos. Quando agredimos o planeta, agredimos também a nossa própria saúde”, alerta o professor.

Para ele, as cidades do futuro serão plataformas que permitirão intercâmbios de múltiplas redes de transações. Esse novo ambiente também será formado por novos valores que começam a se revelar: a busca por serviços criativos que mudem o comportamento das pessoas; estabeleçam conexões entre comunidades e entre ofertas e demandas; criem plataformas e serviços digitais; fomentem a co-criação.

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Jorge Montaña

“As cidades do futuro precisam ser pensadas como startups. Da mesma forma, as organizações empresariais deverão atuar de maneira sistêmica, colaborativa e estabelecendo pontes de contato. Tudo de acordo com o conceito do Service Design, no qual se estabelece o design da organização, com suporte e valorização da cultura”, aponta Cristian Montegu Ravinet que diz ainda que, para que tudo isso aconteça, será preciso que os países adotem políticas públicas voltadas ao design de serviços.

Já o professor e especialista Marco Aurélio Lobo, que atua há mais de 15 anos com políticas públicas de design, apontou as características culturais e comportamentais do povo brasileiro como vantagens na adoção de projetos e serviços de design. “A mistura étnica nos trouxe habilidade inata para lidar com as cores, com a música, com o design de superfície e com situações que tenham a diversidade como tema. Além disso, existem a alegria e o gosto pelas festas que têm íntima relação com a vontade de viver do brasileiro”.

Na opinião de Marco Lobo, os projetos de design urbano precisam ser inclusivos e nascer das necessidades e desejos das comunidades. “Sem o envolvimento dos cidadãos, os projetos não prosperam. O design nos centros urbanos deve ser somatório, nunca eliminatório. Isso não funciona e até pode gerar desprezo por parte da população, resultando em falta de cuidado e até depredações”, alerta. Segundo o professor Lobo, a máxima que definia o design como “forma e função” deve ser esquecida. “Agora a forma deve levar à materialização do sonho dos moradores dos bairros e das cidades. É assim que teremos de enfrentar os desafios do futuro”, conclui.

O  argentino Enrique Avogadro, subsecretário de Economia Criativa de Buenos Aires, responde pelo Centro Metropolitano de Design (CMD) e lidera programas de apoio a empreendedores. Ele disse em sua palestra que a economia criativa é responsável por 9% da economia da cidade e garante 140 mil postos de trabalho. “Estamos num nível em que a economia criativa já influencia toda a cadeia da economia tradicional. É competitiva em âmbito internacional e emprega pessoas jovens e qualificadas”, descreve.

De acordo com Enrique Avogadro, a economia criativa é um fenômeno urbano cada vez mais forte. No entanto, o setor financeiro ainda não reconhece, ou não dá o devido valor a este segmento. “Os bancos emprestam dinheiro com facilidade para empresas tradicionais, ao passo que projetos culturais, por exemplo, encontram muitas restrições de crédito”, analisa.

Avaliação 

Realizado pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), o evento integra a programação da Semana D, realizada numa parceria entre o Centro Brasil Design e a ProDesign>pr – Associação das Empresas e Profissionais de Design do Paraná.  “Foi um debate muito importante. Sabemos que o futuro está nas cidades que, cada vez mais concentram as populações dos países. Por isso, precisamos aliar o design e o planejamento urbano em busca de cidades mais humanas, sustentáveis e criativas”, avalia a arquiteta Ariadne Mattei Manzi, presidente em exercício do Ippuc.

Na opinião de Túlio Filho, presidente da ProDesign>pr, apesar das dificuldades encontradas pela categoria, que ainda não obteve o reconhecimento da profissão em âmbito federal, a realização do fórum e da quinta edição consecutiva da Semana D representam a consolidação do design. “Transformamos problemas em soluções, contribuímos para o enriquecimento do país e vamos seguir avançando”. Para Letícia Castro, que dirige o Centro Brasil Design, os eventos reafirmam a importância da profissão. “O design transforma cenários e representa um grande potencial em momentos de crise, como este que enfrentamos hoje no país. Estamos felizes porque a sociedade brasileira, a classe empresarial e as instituições fazem esse reconhecimento de maneira cada vez mais ampla”, comemora.