A essência do design brasileiro em Milão

Nos últimos anos, o projeto Brazil S/A se confirmou como um dos eventos mais aguardados durante o Fuorisalone, que acontece paralelamente ao Salão do Móvel, onde jovens emergentes e reconhecidos designers levam à Milão a verdadeira essência do design brasileiro.

Este ano,  o design brasileiro chega à Milão com a exclusiva mostra Brazil S/A OFF, uma coletânea de peças históricas que fizeram grande sucesso nas últimas edições do Brazil S/A e obras inéditas de aproximadamente 15 brasileiros.

Ronald Sasson, Sergio Matos, Juliano Guidi, Henrique Steyer, Ines Schertel, PAX.ARQ, Regis Padilha, Lourena Genovez, Fix Design, Adriana Lohmann, Artistartesão, estudiobola, Marcelo Bilac, Alê Jordão e os artistas Luiz Martins e Branco são alguns dos nomes que irão mostrar suas criações icônicas e inéditas, no prestigioso hotel Bianca Maria Palace Hotel, a poucos metros da Duomo, de 17 a 21 de abril das 10h às 20h e dia 22 das 10h às 18h.

A nova geração de designers conseguiu combinar artesanato, tecnologia e sustentabilidade. O resultado: peças e objetos dinâmicos e divertidos que interpretam a arte e cultura do povo brasileiro. E é, exatamente, com esse espírito que a Mostra Brazil S/A OFF expõe uma coletânea de peças das edições passadas e lançamentos com o objetivo de homenagear a criatividade brasileira.

Retrospectiva, sucesso Brazil S/A  

Premiados designers se revezam na retrospectiva de sucesso das 8 edições do Brazil S/A com suas peças icônicas.

O eclético paulistano Alê Jordão traz, mais uma vez à Milão, a sua exclusiva cadeira Mickey (2012), ícone de sua carreira e única peça em exibição. Feita em aço e formas do famoso personagem da Disney, a obra foi desenvolvida sob o olhar atento do artista que trabalha o design conceito em suas criações.

Ale Jordao - Mickey Chair - Brazil SA 2012

Ale Jordao – Mickey Chair – Brazil SA 2012

A Mesa Espelho, das arquitetas Camila Fix e Flávia Pagotti Silva, apresentada em 2012, foi criada a partir do estudo de reflexos e da ilusão de ótica e seu efeito na percepção de um produto. Projetada em madeira maciça com acabamentos em espelho, a peça é perfeita para decorar ambientes espaçosos.

A luminária de mesa/chão Hoop Lamp, design de Daniel Simonini e Niccolò Adolini, – Adolini+Simonini – da Martinelli Luce, foi um dos grandes sucessos na edição do Brazil S/A de 2013.  A peça é uma homenagem a Angelo Mangiarotti, ao reinterpretar a mesa Eros, concebida pelo mestre italiano nos anos 1970. Um objeto pensado como “take away” com um sistema de luzes LED de última geração.

O curitibano Ronald Sasson retorna ao Fuorisalone com a sua poltrona Zózimo (2015) dedicada ao jornalista e colunista social brasileiro Zózimo do Amaral. A peça mescla o glamour escultural e a elegância do cobre e do latão. Outra peça em destaque é o banco Doop (2015) premiado no IF Design Award 2015, Brasil Design 2015 e German Design Award Nominee 2016. Produzido em nogueira, sem a utilização de um único prego ou estrutura metálica, o móvel foi concebido de forma artesanal em chapas multilaminadas de madeira.

Ronald Sasson - Doop - Brazil SA 2015

Ronald Sasson – Doop – Brazil SA 2015

A partir de resíduos de madeira nobre, o paranaense Juliano Guidi cria peças exclusivas de grande beleza e alta durabilidade. O designer aproveita as formas naturais dos troncos para conceber suas peças como é o caso do banco “escultura” Story apresentado em 2015.

Da flora à fauna. A arquiteta gaúcha Ines Schertel fez carreira em São Paulo até que um dia resolver voltar às origens. Deixou a metrópole e voltou para a sua serra riograndense. No seu rebanho de ovelhas, em São Francisco de Paula, RS, viu uma enorme potencialidade na lã dos animais. A matéria-prima virou fonte de inspiração e material para a criação de peças exclusivas de feltro rústico como os banquinhos Faceiro e Bugio (2015)  que Ines Schertel apresenta novamente na mostra Brazil S/A OFF.

Ines Schertel - Faceiro - Brazil SA 2015

Ines Schertel – Faceiro – Brazil SA 2015

A criatividade é um dos pontos fortes do design nacional e se reflete nos objetos desenhados pelo estúdio da dupla PAX.ARQ que com o seu banco Bombo” (2015) demonstra que reciclar também é arte. Placas reaproveitadas, de diversas geometrias, sobras da indústria de móveis, compõem o banco que, por sua vez, não possui estrutura interna. A engenhosidade está exatamente na junção desses elementos. Uma vez unidos, garantem a resistência da peça.

PAX.ARQ Bombo Pinus - Brazil SA 2015

PAX.ARQ Bombo Pinus – Brazil SA 2015

A poltrona Louis Henrique, um trocadilho com o nome do rei Louis XVI e Henrique, é uma  releitura da clássica Luis XVI.  A versão do brasileiro Henrique Steyer, apresentada há dois anos, em 2016, traz o toque criativo e infantil do designer. Os apliques circulares no encosto remetem às orelhas do famoso rato de Walt Disney: Mickey Mouse.

Simples e elegante. Assim é a linha de linha de poltronas e pufes Mexerica (2016) do estudiobola. Além do desenho original, as peças se destacam pelo conforto. Revestimento em couro natural e tecidos leves e pesados (lonas) em algodão

A designer Lourena Genovez volta à Milão com o sua cômoda Bar Flora Brasileira (2016).  A peça – moldura chanfrada e portas em MDF – chama a atenção pelo design com sua base diferenciada e abertura das portas descentralizada. O seu interior é revestido com uma poética, feminina e romântica imagem da Flora Brasileira,  reprodução de uma das pinturas da artista plástica francesa, Dominique Jardy, radicada no Rio de Janeiro desde 1985.

A flora é a fonte de inspiração do designer Sergio Matos que traz novamente ao Fuorisalone a sua Cadeira Morototó  (2017), nome da árvore que verdeja imponente na Floresta Amazônica brasileira. Do desenho elíptico da semente foi colhido o traço reproduzido em tríade na robusta estrutura de aço. Traduz a conexão dos frutos que pendem em cachos das copas e que roçam o céu em um movimento suave. A trama artesanal – que reveste a peça – revela o vaivém hipnótico da corda naval, compõe texturas, destaca a volumetria e guarda o calor de mãos hábeis em atar poesia.

Sergio Matos - Poltrona Morocoto - Brazil SA 2017

Sergio Matos – Poltrona Morocoto – Brazil SA 2017

Artistartesão volta ao Fuorisalone com o super colorido e divertido banquinho Arau (2017). A peça – um brinquedo/escultura – tem a forma de uma arara e é revestida em chita.  Um ótima opção de decoração para o quarto da garotada.

 Novidades Fuorisalone 2018

Bullet, de Alê Jordão, chega à Milão depois de ter conquistado prêmios na França e no Brasil. Mais uma vez, o artista usa a sua criatividade e materiais reciclados para fazer “arte”. Dessa vez, ele construiu uma cadeira em aço inox, usando vidro blindado – para compor o assento e encosto – trincado por tiros.

Ale Jordao - Poltrona Bullet - Brazil SA

Ale Jordao – Poltrona Bullet – Brazil SA

Ronald Sasson, que venceu o LIT Lighting Design Awards, em Tóquio, este ano, revela, em primeira mão, a sua luminária Meridiana (18 cm x 18,5 cm), uma sobreposição de círculos, bronze fosco e vidro leitoso. Elegância e funcionalidade para qualquer ambiente.

Ronald Sasson - Meridiana - Brazil SA

Ronald Sasson – Meridiana – Brazil SA

Curvas, leveza e a presença da “mão” do artesão, sempre foram características brasileiras da arquitetura e no design. A leveza, típica no design e arquitetura modernista dos anos 60, estão presentes na estrutura da cadeira Luisa, de Flavio Borsato e Maurício Lamosa, do estudiobola. A peça é feita em madeira maciça freijó em tom natural e acabamento raiado das arestas que aumenta a durabilidade e conforto do mobiliário. Tapeçaria em couro natural liso e tecidos leves e pesados (lonas) em algodão.

estudiobola sedie Luisa - Brazil SA

estudiobola sedie Luisa – Brazil SA

Um dos infinitos benefícios da lã é ser natural, renovável, biodegradável e completamente sustentável. Ines Schertel reforça a sua paixão pela “slow design” com o banquinho Violeta, lançamento no Fuorisalone 2018. A designer usou da sua matéria prima preferida, a lã, para compor um confortável assento com 5 dúzias de flores e folhas em feltro que posteriormente foram tingidas. Os pés são em em madeira Tauari pintados na cor preta.

Ines Schertel - sgabello Violeta - Brazil SA

Ines Schertel – sgabello Violeta – Brazil SA

Henrique Steyer revela ao público internacional a luminária suspensa Monkey Chandelier inspirada no icônico banco macaco Prego, animal da fauna brasileira ameaçado de extinção. A peça – em metal e banhada a ouro – é imponente e divertida e pode ser realizada nos mais diferentes acabamentos e cores metalizadas.

A arte e os ofícios do curtume impregnam de identidade regional o conceito da Poltrona Arreio, do designer Sergio Matos. As barrigueiras idealizadas para atar a sela ao corpo do cavalo e garimpadas na feira livre de Campina Grande (Paraíba) ganham evidência como matéria-prima. O aço que estrutura a peça recebe o contorno afivelado de dez cintas de couro.

Sergio Matos - Poltrona Arreio Brazil SA

Sergio Matos – Poltrona Arreio Brazil SA

O designer brasiliense Marcelo Bilac apresenta em Milão a poltrona Boomerang, uma homenagem ao filho que, no ano passado, completou 10 anos. “A ideia foi utilizar um elemento de diversão, então veio o insight do Boomerang”, conta o designer.  Os metais e parafusos cumprem a função estrutural com uma roupagem industrial que é finalizada com assento em couro preto, que valoriza as formas e conferem conforto à peça.

Marcelo Bilac - Poltrona Bumerang - Marcelo Bilac - Brazil SA

Marcelo Bilac – Poltrona Bumerang – Marcelo Bilac – Brazil SA

As luminárias da coleção “Flower Power”, da designer Adriana Lohmann,  são realizadas manualmente com fitas microperfuradas e metalizadas de Terylene que se sobrepõem e dão vida a uma flor luminosa. A peça está disponível em vários tamanhos nas versões: suspensa, de mesa e de chão.

Adriana  Lohmann Flower lampada Power Brazil SA

Adriana Lohmann Flower lampada Power Brazil SA

Artistartesão  promove a arte brasileira na Itália levando uma visão do Brasil totalmente original e inovadora que vai além do estereótipo tradicional brasileiro. Durante o Fuorisalone 2018 será apresentada a coleção Boi Vermelho, uma edição limitada de cadeiras madeira e revestidas em tecido, realizadas artesanalmente.

O alagoano Nascido Jadielson dos Santos Lima, mais conhecido Branco, trabalhou desde a infância na lavoura, e com o sonho de progredir no sul e conhecer a mãe, se mudou aos 15 anos para São Paulo. Autodidata, o artista não possuía qualquer conhecimento e teoria de história da arte mas suas obras refletem o seu universo mental que se manifesta tanto por figuras reconhecíveis quanto inventadas, formas abstratas, grafismos à Miró.  E não sendo um “popular”, Branco não é tampouco “primitivo”, naif, ingênuo, rótulos que pressupõem características temáticas e formais determinadas, assim como a intenção de fazer arte, a consciência de sua própria inserção no circuito da produção – e, com frequência, edulcoração e amaneiramentos no estilo.

Luiz Martins se autodefine um arqueólogo urbano e admite manter uma intensa conexão com a cultura primitiva brasileira. Suas obras revelam essa ligação através de símbolos indígenas reelaborados. O artista – que prefere ser chamado de escultor, desenhista e gravador e pintor – adora vagar pelas periferias das cidades brasileiras em busca de materiais que tragam consigo histórias para que ele transponha em seus trabalhos.