A voz do papa

Submetemos Celta, EcoSport, Fox e Palio ao mais renomado crítico de design do mundo. O que será que ele achou desses nossos carros?

A voz do papa
Submetemos Celta, EcoSport, Fox e Palio ao mais renomado crítico de design do mundo. O que será que ele achou desses nossos carros?

A primeira impressão desses novos modelos brasileiros é de quatro pequenas caixas vermelhas, com lanternas agradáveis e brilhantes. As minúsculas rodas, com pneus menores que o necessário, não enchem a abertura dos seus pára-lamas. Faltam-lhes adereços e detalhes e sua relação desfavorável entre altura e largura remete aos ultra-econômicos carros japoneses da classe kei, como são chamados os subcompactos. Uma análise mais profunda mostra que um trabalho sério foi desenvolvido pelas quatro companhias, mas os resultados finais foram comprometidos pelo interesse de reduzir custos.

Manter custos sob controle é importante, claro. Assim como fazer carros com apelo visual para estimular compradores potenciais a escolherem um projeto em vez de outro. E nesse aspecto os quatro carros são deficientes. Não sou e nunca fui um defensor de cromados inúteis e brilhos supérfluos. Mas aprecio manifestações de criatividade, num esforço para delinear e descrever as formas de um carro. Minha primeira reação a esses carros foi pensar que alguém esperto, com noção de forma e um fino pincel próprio para definir linhas, poderia transformar a banalidade em brilhantismo, apenas enfatizando as partes mais atraentes e, se não escondendo, ao menos amenizando as áreas que são menos bem resolvidas.

Parto do pressuposto que os quatro carros são projetos excelentes, de alta qualidade e iguais no desempenho mecânico e na confiabilidade (uma suposição perfeitamente razoável, considerando o desempenho passado das fábricas brasileiras). A partir disso, posso fazer escolhas pessoais. Para meu próprio uso, eu estaria mais inclinado a escolher o VW Fox por sua frente dinâmica e sua promessa de agilidade. Mas ele não é o mais bem projetado dos quatro. Tal honra pertence ao Ford EcoSport. Esse miniutilitário esportivo não é o tipo de carro que eu escolheria para meu uso, mas posso facilmente ver que seus designers compreenderam melhor como superar as limitações do custo. Detalhes como a guarnição preta em torno das aberturas das rodas e a pintura preta entre as janelas laterais nas colunas traseiras fazem do EcoSport um carro com aparência de classe mundial.

O VW Fox, embora pareça um tanto insosso e tenha algumas peças desajeitadas, parece ser um segundo lugar digno nessa comparação. Tem um sólido ? e talvez simples ? conceito. Com rodas maiores seria um carro atraente em qualquer lugar do mundo. O Chevrolet Celta é, como observo mais adiante, um carro grande em escala inferior, sem compensar esse efeito. É bem desenhado, mas mal dimensionado. Entretanto, ele parece mais desejável que o monótono Fiat Palio. Eu teria dito ?mortalmente monótono? não fosse o fato de que há uma ligeira sugestão de fantasia e personalidade em seus faróis irregulares. Mas isso não é suficiente para elevá-lo na hierarquia e ele permanece no fundo deste grupo, embora possa ser competente como um projeto mecânico, como um carro de fato.

Os carros feitos no Brasil são respeitados por sua qualidade. Mas até que o inato bom senso e a maravilhosa imaginação de seus designers possam ser liberados e aplicados aos carros que o mundo inteiro queira, projetos como os deste quarteto serão ignorados fora do mercado local. O EcoSport poderia encontrar um mercado nos Estados Unidos ou na Europa, mas os outros três ainda são carros de mercados em desenvolvimento, que não podem almejar um lugar mundo afora.

Fonte: Revista Quatro Rodas – Abril de 2004.

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