Bauhaus em itinerância

 

MARIA HIRSZMAN, O Estado de S. Paulo

Primeira e mais importante exposição do ano Brasil-Alemanha, a mostraBauhaus.Foto.Filme apresenta a partir do próximo dia 17, no Sesc Pinheiros – e vai até 4 de agosto –, um perfil diferente da escola alemã que se tornou um dos ícones maiores da arte do século 20.

Normalmente admirada pelas profundas transformações que ousou promover nos campos do design e da arquitetura ao longo de sua curta e intensa existência – entre 1919 e 1933 –, a Bauhaus também deixou marcas profundas, porém bem menos conhecidas, nas áreas de fotografia e cinema.

Mesmo que essas técnicas tenham tido pouca influência direta no dia a dia da escola – a fotografia passou a fazer parte da grade curricular apenas em 1929 e o cinema jamais integrou os núcleos de estudo –, é indiscutível o papel central que desempenharam como lugar de experimentação e elemento de disseminação dos projetos e ambições bauhausianos.

Como o próprio nome da mostra indica, ela é composta por dois núcleos estanques, porém interconectados. No bloco da fotografia, o espectador tem a possibilidade de ver um conjunto denso e diversificado de produções, que pendem ora para o campo documental, ora para a pura experimentação plástica.

São quatro recortes: Faces, Arquitetura e Produtos, Bauhaus Vive e também uma seleção de trabalhos feitos ao longo das oficinas de foto ministradas pelo alemão Walter Peterhans (1897-1960).

Além das especificidades de cada bloco, essas imagens compõem um conjunto coerente, no qual se percebe uma grande sintonia com aspectos importantes da arte e da fotografia de vanguarda, como a exploração de efeitos desestruturadores de montagem, bem como experimentações de enquadramento e iluminação tipicamente associadas a movimentos como o construtivismo e o surrealismo.

Realizar a seleção para a mostra Bauhaus.Foto.Filme não foi tarefa fácil, já que as cerca de 100 imagens são uma espécie de extrato sucinto de um acervo de cerca de 40 mil fotos, pertencentes ao Arquivo Bauhaus – Museu de Design em Berlim, a principal coleção de obras da escola alemã do mundo. Muitas delas são bastante conhecidas e já participaram de diversas exposições internacionais, mas outras parecem saídas de álbuns de família.

São registros de cunho até pitoresco e trazem com certo frescor imagens de como viviam. Dão a perceber o caráter festivo e idealista. Afinal, como sintetiza a curadora do núcleo de fotografia, Anja Guttenberger, predominava ali o “senso de coletividade, juventude e oposição às convenções burguesas”.

Por intermédio das fotos também é possível conhecer ou revisitar algumas das mais importantes criações desenvolvidas na escola, que se tornaram sinônimo do design moderno, como os móveis de aço tubular, de Marcel Breuer ou a cadeira Barcelona.

No caso da mostra de filmes, o ineditismo tem maior peso. Alfons Hug, diretor do Instituto Goethe do Rio e idealizador da exposição, conta que esse material, selecionado por um trio de curadores – Christian Hiller, Philipp Oswalt e Thomas Tode – só havia sido exibido anteriormente na própria cidade de Dessau, para onde a escola foi transferida em 1925 e que hoje abriga a fundação que leva seu nome.

Os curadores afirmam ter procurado preservar o espírito experimental da Bauhaus, explorando diversas dimensões da linguagem cinematográfica, mostrando momentos em que ela aparece associada a outros meios (como teatro, música, mecânica), eliminando fronteiras entre as disciplinas e investigando diferentes gêneros (animação, documentário, ensaio artístico…). Nem mesmo o critério cronológico foi um fator limitador, já que algumas das obras existiram somente como projeto nos anos 20 e 30 e ganharam corpo apenas em edições póstumas, como Composição I e II, de Werner Graeff, discípulo dileto do holandês Theo van Doesburg, fundador da De Stijl, que também lecionou na Bauhaus.

Isso se reflete inclusive no formato adotado para a mostra que, em vez de seguir a tradicional lógica de exibição sucessiva de filmes, foi pensada como uma exposição de videoarte contemporânea. A maior parte dos 22 títulos selecionados será projetada sobre dez telas semicirculares recobertas por uma tela microperfurada que deixa vazar a luz e cria um ambiente imersivo. É evidente a alusão feita por esse modelo expográfico à forma como a luz e a trama é tratada em Um Jogo de Luz: Preto – Branco – Cinza, do criador russo e professor da Bauhaus, Lazlo Moholy-Nagy, um dos destaques da seleção.

A opção por privilegiar fotos e filmes foi, segundo Hug, imprescindível para o projeto de itinerância da mostra, que após seu término em São Paulo, em agosto, deve seguir para outras capitais brasileiras. A dificuldade em conseguir que as instituições emprestem por meses a fio exemplares dos clássicos de design da Bauhaus, além dos custos de transporte e seguro, tornariam o projeto inviável. Essa opção, no entanto, permitiu trazer a público um lado mais humano, menos conhecido, da vida da Bauhaus, e ao mesmo tempo fugiu da forte tendência de mitificação de algumas figuras e criações de maior destaque, por meio de um forte processo de fetichização museológica.