Beleza áspera

Fonte : Priscila L. Farias para o Estadão

Caminhando pelas ruas da cidade, somos cercados por eles. Forjados em metal, incrustados nos granitos imponentes que revestem as fachadas dos edifícios do centro histórico. Dourados como o ouro doado para o bem de São Paulo. Traçados com a régua, o compasso e os esquadros dos engenheiros e arquitetos modernistas. Mas também acidentais e acidentados, na fronteira da legalidade, inscritos na madrugada, com os espirros calculados de tampinhas customizadas ou com rolinhos selvagens, tinta pingando nos ombros do colega que deu suporte.

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Eles são as letras e números que marcam, demarcam e conduzem o fluxo urbano. Informam o nome do edifício, o tipo de comércio e os algarismos que correspondem a sua posição na rua. Indicam que aquele é (ou era) o lugar de colocar as cartas, o leite, o pão. Anunciam o menu do dia, e o que está em oferta. Não nos deixam esquecer qual é a empresa que mandou fundir aquele hidrante, ou aquela tampa de bueiro. Organizam o tráfego, dizendo para que lado está um certo bairro e onde é possível parar. Às vezes nos contam os nomes daqueles que projetaram ou construíram os edifícios, e em que ano. Ou quem são os proprietários, suas iniciais entrelaçadas em complexos monogramas nos topos das fachadas. Alguns são como fantasmas, marcas de letras que pertenceram a estabelecimentos que não existem mais, a prédios que mudaram de nome, ou que talvez tenham sido simplesmente vendidas para algum ferro-velho. Outros estão de passagem: transitam pelas ruas em camisetas, carrocerias de ônibus e lameiras de caminhões. Outros, ainda, comunicam simplesmente aquilo que são: monumentos em homenagem ao próprio alfabeto.

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Esse conjunto de letras, números e sinais presentes no espaço público constitui a paisagem tipográfica da cidade. É um conjunto vasto e complexo, como a própria metrópole. Tem características que variam de bairro para bairro, e até de rua para rua. Essas características contribuem para a percepção de certo sentido de lugar, que, ao se tornar parte da memória coletiva, influencia a constituição de uma identidade local.

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J. R. D’Elboux captura esses elementos registrando sua textura, valorizando suas qualidades materiais e sua relação com o espaço construído, chamando a atenção para detalhes que costumam passar despercebidos por quem circula pela cidade. Um olhar treinado e apurado por sua formação em arquitetura (graduação, mestrado e doutorado recém-iniciado sobre a tipografia arquitetônica art déco de São Paulo) e anos de experiência profissional no departamento de arte de agências de propaganda. Hoje, aos 52 anos, ele é diretor de criação da Y&R.

Seu foco são os elementos mais perenes, associados à linguagem arquitetônica dos edifícios. Esses elementos de tipografia arquitetônica costumam ser preservados, juntamente com as construções às quais estão fisicamente associados. Ainda assim, é possível perceber neles as marcas da passagem do tempo: uma letra que está faltando, grafites que os atropelam ou competem por atenção, camadas de fuligem e tinta que se sobrepõem e eventualmente começam a descamar. Essas marcas nos lembram que, se quisermos preservar algo da memória gráfica da cidade, enquanto parte de sua imagem e identidade, precisamos desenvolver estratégias para conservar não apenas as grandes estruturas construídas, mas também os elementos tipográficos presentes em seu espaço público. Mas também conferem às letras retratadas por D’Elboux uma beleza robusta, incansável e áspera, que tem muito a ver com a cidade de São Paulo.

PRISCILA L. FARIAS É DESIGNER GRÁFICA E PROFESSORA DA FACULDADE DE ARQUITETURA

Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,beleza-aspera,1136258,0.htm

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