“Cada um de nós um dia será deficiente”, afirma o filósofo e especialista em design Francesqui Aragall

 

Fonte: Diário Catarinense

 

Referência mundial em Design for All, tema central da V Bienal Brasileira de Design que será realizada em Florianópolis, Aragall explicou ao DC os princípios básicos deste segmento que avança cada vez mais, no mundo todo, visando a facilitar a vida da população e o crescimento da economia.Diário Catarinense — O que é design for all? Onde surgiu e como foi denominado?Francesqui Aragall — Design for All é fazer o design de maneira que todo mundo seja incluído, tanto idosos quanto pessoas com limitações, indivíduos de gêneros diversos, crianças, pessoas adultas. Ele contempla produtos, serviços e edifícios. Quanto ao seu surgimento, diria que é um pouco complicado explicar. Porque na América começou nos anos 1990, chamado de design universal. Enquanto isso, na Inglaterra chamam de design inclusivo. Agora já existe um consenso de que os termos são equivalentes. A primeira vez que eu utilizei o termo foi em 1995.DC — Poderias citar exemplos práticos do design for all? Como ele se aplica, por exemplo, na vida de uma pessoa com limitações físicas?Aragall — Um exemplo prático seriam os ônibus com plataformas rebaixadas para permitir o acesso dos deficientes físicos. Com elas, todo mundo pode ter acesso ao transporte. Isto se o seu funcionamento estiver correto, claro. Outro exemplo comum são aquelas passarelas que existem em praias. Elas foram criadas para que as pessoas de cadeiras de rodas e com carrinhos de bebês pudessem chegar à praia. Outro exemplo seria o controle remoto da televisão, que foi inventado inicialmente para que as pessoas acamadas em hospitais pudessem mudar o canal da TV. Agora, o controle remoto está na casa de todo mundo e se não o tivéssemos, praticamente não teríamos televisão. Porque não é lógico mudar o canal manualmente. Acharíamos isto um absurdo. Isto é a prova de que o importante é que hoje a gente pense em design para pessoas com necessidades especiais. Em geral, podemos dizer que as condições de vida das pessoas com deficiências e necessidades especiais são piores do que as do resto da população. É o caso também dos edifícios residenciais que muitas vezes tem interfones e que, quase sempre, são ruins para pessoas muito baixas e surdas. O ideal seria um interfone com videocâmera.DC — Como o senhor diria que está o mundo no que diz respeito à aplicabilidade do design for all? Como analisa o Brasil neste cenário? Quem está à frente? Como está Florianópolis?Aragall — O país  mais evoluído é o Japão. América do Norte e Europa também têm mais facilidade de acesso. Estes estão mais ou menos bem. Mas o resto do mundo está mal. Já há um avanço, mas precisamos investir mais em sustentabilidade, favorecer os pedestres para que ganhem espaço. E quando se faz tudo isso, quando se coloca em prática o design para as pessoas em geral, também se deve pensar no quesito econômico, que acaba sendo favorecido quando se agrega toda a população. Aqui em Florianópolis mesmo, dá para ver que existem ruas e regiões, economicamente mais preparadas e, consequentemente, mais ativas. Visitei a cidade, o Centro, as praias, o Mercado Público, e posso dizer que Florianópolis é um caso à parte, pois é uma metrópole na natureza. Digamos que tenho um pouco da sensação de que os cidadãos de Florianópolis não aproveitam as possibilidades estratégicas que existem na cidade.DC — Quais seriam essas possibilidades estratégicas que poderiam ser melhor aproveitadas?Aragall — Dá para ver que alguns já aproveitam, passeiam, correm, fazem exercício, mas a população continua sofrendo nos engarrafamentos de carros. Pode ser que eu esteja tendo uma avaliação errada porque cheguei aqui em meio a uma greve do transporte público, mas ainda assim posso dizer que os cidadãos daqui poderiam usar menos o carro. Florianópolis não é uma ilha fácil para se andar de bicicleta, mas seria uma ilha ideal para se andar de bicicleta elétrica.DC — Como o design for all pode beneficiar a economia de uma cidade, de um país, de uma empresa. Como ele torna tudo mais competitivo?Aragall — No caso da minha cidade, Barcelona, o design for all foi o elemento estratégico mais importante para trazer o turismo. Porque quando se tem ruas ordenadas, calçadas planas e limpas, vias iluminadas, transmitimos aos turistas a sensação de que eles estão confortáveis. Além disso, a orientação acessível também facilita. Por outro lado, focando ainda mais na questão econômica, diria que fazer os produtos sob a lógica do design for all também faz com que estes produtos possam ser adquiridos e serem úteis para uma maior parcela da população.DC — O senhor acha que a tendência é que as pessoas comecem a aproveitar mais este tipo de design aqui no Brasil?Aragall — Aqui em Florianópolis, por exemplo, já se nota uma maior força de vontade. Existem rampas para deficientes, ruas com ciclovias e passarelas para pedestres. Porém, isto não quer dizer que tudo isto seja bem feito. Mas a ideia é que devemos expandir esta visão, de que o design não pode ser projetado apenas para pessoas “normais”. O mundo não é assim. Cada um de nós um dia será deficiente. Teremos uma idade avançada e exigiremos mais cuidados. Portanto, temos que pensar mais à frente. Pensar que se hoje, talvez, eu não precise das coisas diferenciadas, um dia virei a precisar. E se houver essa preocupação hoje, o amanhã será mais fácil para todos.

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