Das pranchetas paranaenses sai a diversão de astros do cinema

Triciclo desenvolvido em Curitiba é sucesso nos EUA e cai nas graças de Brad Pitt.

Araújo e Trentini: até 40 quilômetros por hora, sem esforço.
Curitiba A foto do astro hollywoodiano Brad Pitt sobre um triciclo de alumínio já rodou as revistas de cinema e fofoca americanas. Jennifer Aniston, mulher do galã e estrela do seriado Friends, também foi fotografada, em 2003, usando o mesmo veículo. Desde então, o trikke, nome oficial do equipamento, virou mania nos Estados Unidos e em alguns países da Europa. O que poucos sabem é que o projeto do triciclo, que faz sucesso por não precisar de motor, pedal ou exigir muito esforço físico, foi feito aqui, em Curitiba.

Enviar um trikke de presente a celebridades foi uma das estratégias do paranaense Gildo Beleski Júnior, 39 anos, para tornar famosa sua invenção. Deu certo. No ano passado, a empresa, com matriz na Califórnia (EUA), faturou USs 5,5 milhões com a venda do triciclo e espera quadruplicar o rendimento em 2004, com estimativa de faturamento bruto anual de USs 22 milhões. Mas o mérito do triciclo não se deve apenas à adesão dos famosos. É a concepção do projeto que cativa esportistas, crianças e curiosos. Tanto que a revista Time, de 18 de novembro de 2002, classificou o trikke como uma das dez melhores invenções do ano.
O segredo está na forma em que o veículo se movimenta. Ele se parece com um patinete, mas sobre três rodas. Não é preciso colocar o pé no chão ou pegar impulso para fazer o equipamento andar. Basta movimentar o corpo e alcançar velocidade de até 40 quilômetros por hora.

O projeto foi resultado da frustração de não conseguir andar de skate, brinca o engenheiro mecânico Luiz Osório Trentini, 45 anos, um dos sócios da empresa. Ele e Beleski Júnior trabalhavam juntos no Tecpar, em Curitiba, quando inventaram o triciclo. Da idéia ao produto final foram dois anos de rabiscos e projetos.

Tataravô

O primeiro triciclo, hoje chamado de tataravô do trikke, era feito de aço e aro de bicicleta. Chamávamos de skatenete papa-léguas, lembra Trentini. A primeira produção, em uma fábrica de São José dos Pinhais, foi de 50 unidades. Os primeiros triciclos foram distribuídos em uma campanha do governo do estado para incentivo de coleta de nota fiscal. A outra parte da produção foi vendida para a Lacta, que dava o veículo como brinde em uma promoção de chocolate. Não sobrou nenhum do primeiro modelo, lamenta.

Os dois inventores desistiram durante alguns anos da idéia até que, em 1999, Beleski Júnior, ex-estudante de Física, resolveu largar tudo e tentar a sorte nos Estados Unidos. Em Santa Mônica, na Califórnia, ele conheceu John Simpson, 41 anos, que se encantou pelo triciclo. O americano gostou tanto que resolveu apostar na invenção do paranaense. Juntos e com capital próprio, eles montaram a Trikke Tech.

Beleski Júnior e Simpson comandam a matriz da empresa nos Estados Unidos. Os outros sócios, Trentini e o físico Luciano Araújo, 37 anos, são responsáveis pelo desenvolvimento dos projetos, na filial em Curitiba.

A empresa cresce em alta velocidade. Em 2001, primeiro ano de atuação, produziu apenas mil triciclos e, no ano seguinte, 8 mil unidades. Em 2003, a produção saltou para 110 mil trikkes. Segundo Beleski Júnior, em 2004 a Trikke espera produzir 275 mil triciclos.

A produção, terceirizada, é feita por duas fábricas na China (uma de patinetes e outra de equipamentos para bicicletas). Os produtos hoje existem sete modelos no mercado são vendidos nos Estados Unidos, Japão e em alguns países da Europa.

A empresa pretende lançar o trikke no mercado brasileiro no próximo verão. Acho que os brasileiros estão mais interessados em fitness e atividades saudáveis ao ar livre, analisa Beleski Júnior. Segundo ele, os brasileiros adotam uma novidade mais facilmente se antes ela se torna popular nos Estados Unidos. Temos que fazer pegar fogo por aqui primeiro. Foi por isso que resolvi começar aqui na Califórnia, onde as novas tendências em esportes radicais acontecem, explica.

Razões

A demora também, diz, é por conta do preconceito e falta de espaço adequado nas ruas e calçadas do Brasil. A falta de respeito no trânsito é um problema, pois temos que compartilhar espaços com automóveis. Para Luciano Araújo, outro fator que impediu a entrada do trikke no mercado brasileiro é o alto custo do produto. Segundo o físico, o país ainda não tem tecnologia necessária para produzir o triciclo de alumínio. Falta matéria-prima, diz. O preço do triciclo varia de USs 150 a USs 200.

EMPREENDIMENTO

Sócios inauguram um centro de pesquisa em Pinhais. Além de projetos para a Trikke, dupla desenvolve pesquisa para outras empresas
 

Curitiba A dupla responsável pela Trikke Tech no Brasil, Luciano Araújo e Luiz Osório Trentini, abriu uma nova empresa, no começo deste ano, com o intuito de criar um centro de pesquisa e desenvolvimento tecnológico no Paraná. A sede da Trikke Research Development fica em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, em um terreno afastado e arborizado. Procuramos um lugar calmo e silencioso para conseguirmos criar em paz, diz Trentini, entusiasmado com as novas idéias.

Os pesquisadores contam que, além de aprimorar o projeto do triciclo, pretendem fazer trabalhos para outras empresas. Cerca de 20 estudos já estão em andamento. Um dos trabalhos desenvolvidos por eles, que já contrataram três ajudantes, é o trikke elétrico. O projeto, elaborado em parceria com o Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná (Cefet-PR), ainda está em fase inicial e deve ser concluído até o fim deste ano. Outra novidade será o snowtrikke, desenvolvido para se locomover na neve. Ideal para quem não tem muita habilidade com os esquis, conta Trentini.

O centro de desenvolvimento tecnológico é uma iniciativa na qual apostamos muito, diz Beleski Júnior. Segundo ele, a criatividade dos pesquisadores brasileiros, além da ligação com os sócios e amigos de infância, motivou a empresa a manter uma sede no Paraná. A filial brasileira é um bom motivo para eu voltar sempre a Curitiba, diz ele, que mora na Califórnia há quatro anos.

Audrey Possebom – Gazeta do Povo

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