Design nacional ultrapassa fronteiras e ganha reconhecimento no exterior

Uma frase chama a atenção de qualquer brasileiro que caminhe pela Cockspur Street, em Londres: “Changing Business Through Design” (que em português significa “Mudando negócios através do design”). A frase está estampada na fachada da embaixada brasileira na capital britânica. No entanto, o que pode parecer curioso para qualquer um que vive deste lado do Atlântico, hoje não é nada demais para os que vivem lá, garante Ellen Kiss, diretora da Associação Brasileira de Empresas de Design (Abedesign).

Coordenadora da missão de empresários que ficará em Londres até o dia 12 de outubro, Ellen conta que o mercado internacional nunca esteve tão aberto ao design brasileiro. “Já existe espaço para a criatividade do Brasil. O que buscamos hoje é uma maior representatividade. É um trabalho de longo prazo. Não é como exportar commodities ou itens standard”, explica a executiva.

Para ilustrar a penetração dos criativos brasileiros no exterior, Anna Carolina Maccarone, gerente executiva da Abedesign, lembra que o país é um dos maiores premiados do setor no festival Cannes Lions. “Lá fora, eles têm a percepção de que o produto brasileiro é bom”, afirma Anna Carolina.

O mercado nacional movimenta atualmente US$ 500 milhões, destaca a Abedesign. No entanto, cifras tão grandes ainda não garantem nem a regulamentação do setor.

De acordo com dados do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), são mais de 800 empresas legalizadas atuando no país. Este número se multiplica se forem contados todos os profissionais que trabalham como freelancers, ou autônomos. “É dessa forma como começamos aqui”, lamenta Anna Carolina.

Para Londres, por meio de uma parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), órgão ligado ao Itamaraty e ao Ministério do Desenvolvimento, 13 empresários foram enviados para conquistar clientes e fazer novos negócios.

Alguns resultados já apareceram. Diretores do Global Design Forum garantiram à comitiva tupiniquim que uma edição do evento será feita no início do próximo ano no Brasil. “No curto prazo, é o que podemos esperar. Resultados financeiros acontecem em um ou dois anos depois destes encontros”, diz Ellen Kiss, uma das palestrantes da última edição do fórum.

Rafael Prado, gestor de projetos da Apex, indica que há R$ 3,5 milhões disponíveis para trabalhar o mercado internacional. A parte fornecida pelo governo chega próxima a R$ 2 milhões desse montante. “Estamos trabalhando sobre um tripé: inovação, criatividade e sustentabilidade”, indica Prado.

Mariana Hardy, diretora de criação da agência Hardy Design, espera que, com uma recuperação da economia brasileira perante o mercado global, aumente a demanda pelos criativos tupiniquins. “O Brasil mudou de patamar no cenário global. Finalmente fazemos parte do jogo. Quando a economia cresce, o design vem a reboque”, conta Mariana. “Nosso maior mercado no exterior são empresas que querem explorar o mercado consumidor brasileiro e precisam de parcerias para trabalhá-lo”, complementa.

Ela diz também que, apesar do reconhecimento internacional da criatividade brasileira, os profissionais daqui estão atrás dos estrangeiros. “É um ramo relativamente novo no país. As escolas são mais recentes. O conceito de design como parte da estratégia de negócios ainda está se desenvolvendo no Brasil. E mesmo assim, já temos qualidade internacional”, anima-se a empresária.

Grandes eventos

Alguns vícios no mercado brasileiro ainda causam constrangimentos ao setor do design, diz Anna Carolina Maccarone. Segundo a diretora executiva da Abedesign, a falta de reconhecimento dos profissionais nacionais tira oportunidades de trabalho, como a criação do logotipo da Copa do Mundo 2014. A conta foi vencida por uma agência de publicidade. “Diferentemente do que aconteceu com os Jogos Olímpicos 2016, o processo não foi transparente e houve favorecimento a uma empresa que não possui o design como expertise. Não raras são as críticas ao logotipo”, afirma Anna Carolina.

Tão logo foi divulgada a imagem que ilustrará todos os produtos relativos ao evento, em 2010, críticas surgiram. A última reclamação refere-se à escolha do Tatu-bola como mascote oficial. Os argumentos criticam a ideia de que o animal foi escolhido mais em virtude da presença da palavra bola em seu nome do que sua capacidade em representar o povo brasileiro.

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