Dez mulheres muito influentes no design no Brasil

 “Em um momento em que o mundo está mais híbrido, a mulher está cada vez mais à frente de diversos segmentos da sociedade: na arte, na medicina e até na presidência… Não teria porque também não estar à frente do design nacional!”, defende Heloísa Crocco, designer do Crocco Studio Design.

Aproveitando a comemoração ao Dia Internacional da Mulher, no último dia 08, o Casa.com.br elegeu dez mulheres muito influentes do Design no Brasil.

Confira!

 

Adélia Borges, a contadora da história do Design

Adélia Borges não faz design, mas é uma das vozes mais influentes do segmento no Brasil.

Jornalista formada pela USP, entrou em contato com o assunto em 1972, quando fez uma reportagem especial sobre projeto urbano para o Estado de São Paulo. O tema nunca mais saiu de seus afetos, mas só em 1980 ela mergulhou por inteiro no mundo do design, trabalhando para a revista Design & Interiores. Lá entrou em contato com projeto de embalagens, produtos, comunicação visual…

“No começo, as pessoas diziam: como vocês fazem uma revista de design se não existe design no Brasil?”, conta Adélia. “E existia muito! O que não existia era comunicação sobre o design”.

Talvez por isso, ela tenha dedicado os anos seguintes a contar histórias sobre design. Primeiro vieram as reportagens, depois curadorias de exposições, ensino, palestras e mais de dez livros – o último deles Design mais artesanato: o caminho brasileiro. Entre 2003 e 2007, dirigiu o Museu da Casa Brasileira.

“O design pelo design não me apaixona”, ela nos disse por email. “O poder do design de melhorar a vida das pessoas – não só de meia dúzia, mas de camadas cada vez maiores da população que recentemente passaram a ter maior contato com produtos e serviços bem projetados – é o viés que me interessa”.

Se você passar por São Paulo até julho deste ano, pode conhecer a última exposição que Adélia curou: Design da Periferia, no Pavilhão das Culturas Brasileiras do Parque do Ibirapuera.

Baba Vacaro, uma designer em seu melhor momento

Na certidão de nascimento, a paulistana atende por Christiane Babadopulos, mas, desde os 4 anos, é conhecida como Baba, devido ao seu sobrenome grego.

No universo do design, o sobrenome Vacaro, do marido, complementa sua assinatura. Formada em Desenho Industrial pela FAAP, Baba Vacaro despontou criando produtos de iluminação na Dominici, empresa na qual é hoje diretora de criação.

No auge de sua carreira, também assume o mesmo cargo na Dpot (especializada em mobiliário) e na St. James (que fabrica objetos de prata e aço inox). Qual o momento mais marcante de sua trajetória profissional? “Para mim, o melhor momento sempre é o que estou vivendo”, afirma. E alguém ainda tem alguma dúvida?

Os móveis à mão de Cláudia Moreira Salles

Cláudia Moreira Salles formou-se desenho industrial em 1978 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo na década de 1980 para criar móveis para a fábrica Escriba.

Designer iniciante, Cláudia recebia encomendas de parente e amigos pedindo móveis artesanais. E foi acompanhando a execução desses móveis que a jovem aprendeu técnicas de marcenaria e apaixonou-se pela madeira. O relacionamento ficou sério e, com o tempo, Cláudia largou o design industrial.

Passou a criar móveis produzidos à mão, vendidos em espaços que atendiam criadores independentes. Hoje a designer tem o próprio estúdio, onde produz para lojas como Firma Casa, Etel, Dpot e Casa 21. Suas peças de linhas simples e equilibradas já ganharam quatro exposições individuais – por exemplo, na Casa França Brasil (1998) e o Museu da Casa Brasileira, em 2005. Estão à venda na Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Portugal e Suíça.

Esther Schattan, a moveleira da Ornare

“Um profissional que trabalha com design carece ter um conhecimento aprofundado de sua área sem deixar de ter uma percepção sobre o todo. Necessita de um contato diário com o humano para sentir as necessidades cotidianas de quem está ao seu redor, entender como é a realidade do seu cliente” é a tese de Esther Schattan, Engenheira Química por formação e sócia-diretora da maior grife de móveis do Brasil, a Ornare.

A trajetória profissional da moveleira se confunde com os caminhos trilhados pela própria Ornare, empresa que fundou em 1986 ao lado de seu recém-marido Murillo Schattan. Ao lado do companheiro, Esther viu a grife – que, inicialmente, fabricava apenas móveis de cozinha – ganhar respeito junto aos clientes na década de 1990 e decidiu abrir o leque de produtos fabricados: escritórios, salas, banheiros…

Diversos ambientes passaram a ser contemplados com os móveis da marca, que já atendia a todos os estados do país e começava a chamar a atenção dos vizinhos. A ascensão não parou por aí. Na década seguinte, a grife abriu uma filial nos Estados Unidos para atender, além dessa nação, países como Canadá, México e os do Caribe.

Qual o ponto de virada da carreira de Esther? “Não acredito que exista um momento único, mas que o meu sucesso e o da Ornare foram resultado de um processo contínuo: cada fato resultou em um seguinte. Na vida, nada acontece de forma isolada: cada vitória é fruto de fatos anteriores. Se houve um momento chave em minha vida foi quando me casei com o Murillo e decidimos abrir a empresa. Todo o resto foi fruto de nosso trabalho diário”, a profissional finaliza.

Do sítio para o Brasil,Etel Carmona

Tudo começou na garagem de um sítio no interior de São Paulo. Lá, Etel Carmona dedicava horas a reformar seus móveis de madeira. O talento para marcenaria foi descoberto pelo designer Fúlvio Nanni, que decidiu comercializar móveis criados por Etel em sua loja, ainda na década de 1980.

As peças fizeram sucessso, e desde então, Etel insiste em um mesmo tema: produzir artesanalmente móveis de design brasileiro com madeira nacional. Com essa meta, virou empresária. Passou a dirigir a confecção de peças projetados por designers prestigiados – a primeira deles, Cláudia Moreira Salles; depois vieram Lia Siqueira, Isay Weinfeld e muitos outros. Etel abriu loja própria e reeditou a mobília criada por arquitetos modernistas famosos – seu portfólio inclui Oswaldo Bratke, Gregory Warchavichk e o ateliê Branco Preto.

Hoje, a empresária possui marcenarias no Acre e em São Paulo. Além disso, administra uma floresta certificada em Xapuri (AC). Etel comercializa suas peças no Brasil e em cidades-chave do design mundial, como Nova York, Zurique, Londres. E é uma das poucas brasileiras que pode se gabar de ter vendido móveis para o francês Philippe Stark.

Depois de 30 realizações, Etel ainda tem um sonho profissional: editar móveis de Sérgio Rodrigues. Que ninguém duvide de que ela é capaz.

Francesca Alzati, a aprendiz de Niemeyer

No alto dos seus 30 anos, Francesca Alzati assumiu a responsabilidade pelos produtos, pela imagem e pela identidade da By Kamy, a principal grife de tapetes do Brasil. Para dar conta do desafio, a experiência adquirida em anos de trabalho e estudos foi fundamental. E background não lhe faltou já que Francesca começou cedo no mundo das artes.

Aos 14 anos, mudou-se para a Itália para estudar na Academia Belas Artes e iniciou uma trajetória acadêmica de cerca de 12 anos. Concluiu os estudos e começou a trabalhar no escritório do renomado arquiteto e designer brasileiro Ruy Ohtake, período no qual conheceu profissionais como Oscar Niemeyer.

“Muitos momentos marcantes de minha carreira estão relacionados com as pessoas com que trabalhei. Com meu pai, executivo que me colocou em contato com grandes designers; com Ohtake e sua mãe, que me fizeram compreender a dinâmica da arquitetura brasileira; com Oscar Niemeyer, que me ensinou que junto com projetos arquitetônicos andam a ética, a simplicidade e a genialidade”, afirma a profissional.

Formada em Arquitetura, Francesca precisou se distanciar de sua especialidade ao começar a trabalhar na By Kamy. “Larguei a arquitetura, que era a minha paixão, mas entrei em um mundo desconhecido pelo qual me apaixonei instantaneamente. Na By Kamy, encontrei um terreno fértil para exercer minha criatividade e realizar o belo”, conclui.

Heloisa Crocco, a artista da natureza

Vinda de trabalhos artísticos com fibra e após diversas viagens pela América Latina (que influenciaram muitíssimo seu trabalho), Heloisa Crocco, responsável pelo Crocco Studio Design, dedica-se hoje a uma obra que se inspira diretamente na natureza.

Em contato com a madeira e através dos nós que ela apresenta, a artista desenvolve uma técnica chamada Topomorfose e suas possibilidades de aplicação em diferentes suportes, como objetos utilitários e painéis.

A ideia é imprimir em objetos cotidianos traços característicos de superfícies madeiriças. Com esse trabalho, Heloisa obteve, entre outros, o Prêmio de Design, do Museu da Casa Brasileira, em 1994, e o do Salão Nacional de Arte do Museu da Pampulha, em 2000.

Maria Helena Estrada, a crítica do design

Ela não é designer, pelo contrário, está do outro lado da bancada, avaliando o desempenho dos profissionais que se dedicam a essa atividade. Maria Helena Estrada é crítica de design, jornalista, editora da renomada revista ARC Design e curadora da Casa Brasil, uma das maiores feiras de design e negócios do país.

No evento e na publicação, sua linha condutora é a mesma: guiar-se por caminhos autorais, jamais trilhados por outros profissionais e que passem longe de cópias. Um diferencial e tanto. “Meu conselho para os jovens designers profissionais que estão no início da carreira é estudar, pensar e agir de acordo com a própria cabeça. Cópias são um atestado de incompetência”, ela defende.

Como jornalista, é respeitada pelo rigor conceitual de seu trabalho e por apresentar ao mercado produtos e serviços novos e de qualidade. Como curadora, colocou a Casa Brasil entre os principais eventos de design do país. “Em relação às diferenças entre designers homens e mulheres, não vejo muitas: competência e criatividade não estão ligadas a gênero”, finaliza.

Sandra Bork, produtos maravilhosos para momentos especiais

Em 1986, Sandra Bork começou a visitar o Salão do Móvel de Milão com o marido Hélio. Eles queriam apreciar o bom desenho das peças, mas a paixão virou negócio quando o casal resolveu abrir no Brasil uma loja com design italiano de alto padrão, a Montenapoleone.

Os dois aproveitaram a abertura das exportações trazida pelo governo Collor e trouxeram a primeira carga a chegar da Itália para cá – móveis de design. Os consumidores do luxo no país adoraram, a loja criou raízes e o casal foi aproveitando as oportunidades para trazer cada vez mais marcas estrangeiras para o país. Desde então, abriram mais quatro lojas exclusivas de marcas: Bang Olsen, Kartell, Cassina e Poltrona Frau.

Advogada de formação, Sandra trabalha escolhendo os móveis e parceiros para as cinco lojas. Ela sente que é ousado abrir tantas lojas de produtos importados. Mas paixão é paixão: “A gente trabalha com um produto maravilhoso. E, quando a pessoa vem comprar moveis, ele está num momento bom – casando, mudando, sempre num astral resolvido”.

Sonia Diniz e um pedacinho da Itália em São Paulo

Herdeira do grupo Pão de Açúcar, uma das maiores redes varejistas do país, Sonia Diniz deixou o comércio de massa em 1994, quando abriu a Firma Casa, uma loja representando marcas italianas como Edra e Zanotta. Foi o terceiro endereço de design aberto na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, a rua que viraria o principal eixo de decoração de luxo em São Paulo.

Desde o início, Sonia confia em seu feeling para descobrir designers promissores que lhe enviam seus trabalhos. Foi lá, por exemplo, um dos primeiros pontos de venda do design autoral do irmãos Fernando e Humberto Campana, que hoje expõem pelo mundo.

Em 2002, Sonia desejou inovar e abriu a Conceito: Firma Casa. O espaço comercializa o design-arte, com peças exclusivas ou de pequena tiragem. Sonia considera o reconhecimento sua maior conquista: em 2007, o jornal New York Times a chamou de “matriarca da cena local de design” em São Paulo.