Entrevista com Lidia Goldenstein: ‘O design alavanca tudo’

As comparações feitas pela consultoria americana iSuppli sempre provocam sobressaltos. Uma delas mostrou que os componentes do iPad 2 custam US$ 370. A Apple vende o tablet por US$ 700. Entre esses dois valores há custos de produção, logística e impostos. Mas a justificativa para tamanha diferença pode ser resumida em duas palavras: design e inovação. Elas distinguem um amontoado de peças do mais bem-sucedido aparelho eletrônico do momento. São também o tema preferido da paulistana Lidia Goldenstein, uma das organizadoras da exposição Design São Paulo, visitada por 10 mil pessoas no mês passado no Parque do Ibirapuera. Ex-professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Lidia diz que é preciso dar novo alcance para a definição de estratégias de desenvolvimento para o Brasil. “Elas têm de incluir políticas agressivas de incentivo a novos setores, como a moda, os games e o design. Eles são tão importantes na atualidade como a siderurgia ou a mineração foram no passado.”

 

FOLHAPRESS 
1. Quanto o design pode valorizar um produto?_Para ter uma ideia, basta comparar o custo de um pequeno pedaço de tecido com o preço final de um biquíni de grife. A diferença é imensa. Podemos ir mais longe. Alguns designers transformam peças corriqueiras do cotidiano em obras de arte. E elas são caríssimas. Isso está acontecendo em todo o mundo com os móveis brasileiros com estilo dos anos 50. Eles estão muito valorizados. Uma cadeira de madeira criada por Joaquim Tenreiro, por exemplo, é vendida por US$ 250 mil. Esta é a cotação definida em catálogos internacionais. No Brasil, uma poltrona do Sergio Rodrigues, outro designer renomado, é vendida por R$ 40 mil. O céu é o limite para o valor que o design pode agregar a um produto.

2. As empresas estão mais atentas a isso?_O investimento das empresas é um indicador. O presidente de uma montadora me disse que o design representa 30% do desenvolvimento de um carro novo. Ele é o item de maior peso na produção. A indústria suporta uma despesa tão alta porque sabe que o resultado faz grande diferença para o consumidor. O design se transformou numa ferramenta estratégica para o desenvolvimento. Ele é um fator relevante para aumentar a competitividade de um negócio. É por isso que muitos países promovem políticas agressivas de fomento ao design.

3. Quais países estão nessa lista?_A China é o caso mais notório. A economia criativa e a sustentabilidade estão no topo da sua estratégia de desenvolvimento. Essa prioridade está definida no plano quinquenal. Os chineses querem superar a história do “made in China” para ingressar na fase do “design by China”. Querem agregar valor. E isso já está acontecendo em várias áreas. A Coreia do Sul passou por um processo semelhante e recentemente criou um centro imenso dedicado ao design. O mesmo ocorre na Espanha. Em Barcelona, foi montado um polo, um hub, para conectar todos os setores da economia ao design.

4. A senhora diz que alguns economistas ficam com pena quando sabem que seu foco de estudos é a economia criativa. Por que eles estão errados?_Eles olham com piedade e pensam: “Coitada”. Na verdade, é uma brincadeira. Digo isso de forma caricata. Mas poucas pessoas, economistas inclusive, perceberam a importância da economia criativa. Os grupos ligados a políticas culturais também são arredios. Eles temem ser engolidos pelo mercado.

5. Por que a economia criativa é importante?_As áreas que compõem a economia criativa estão na liderança da geração de empregos qualificados, principalmente para jovens, e na captação de investimentos. Elas incluem segmentos como a produção de software, o design, a propaganda, a televisão e os jogos digitais. Os games estão transformando um número imenso de atividades. Seu impacto se espalha desde a educação até diversas mídias, como o celular e a internet.

6. A definição de economia criativa parece equivocada. Em tese, toda a economia deveria ser criativa. Por que olhar somente para alguns setores?_Isso é verdade. Mas a ideia é destacar a relevância de atividades econômicas essenciais, geralmente confundidas com formas de entretenimento ou manifestações culturais. A produção de filmes de animação é um ótimo exemplo. No Canadá, ela existe há décadas. Sempre foi muito respeitada. Ao observar esse segmento, queremos destacar que ele gera entre 200 mil e 300 mil empregos e exporta US$ 5 bilhões por ano. Por isso, recebe grande incentivo do governo canadense. Temos de tratar esta área como um polo de criação de postos de trabalho e de renda. Ela precisa ser alvo de políticas proativas e ter estratégias adequadas de crescimento. A novidade é a maneira como olhamos para essa indústria.

7. Por que a economia criativa pode ser especialmente importante no Brasil?_O momento é oportuno para esse tipo de discussão. Atualmente, ficou muito barato importar, e a indústria nacional começa a ter problemas. Não devemos fechar a economia, nem queremos baixar os salários. O design é uma forma de aumentar a competitividade sem adotar medidas desse tipo. Alguns anos atrás, a indústria de calçados passou por um problema assim. Ela prosperou, mas reproduzindo modelos de calçados trazidos por americanos, com numeração e tudo o mais. Lembro de ter lido vários artigos sobre a necessidade de investimentos em design. O empresariado não se mexeu, e os chineses avançaram sobre o mercado nacional. Isso só começou a mudar recentemente.

8. O design tem grande peso na economia criativa?_Ele é o mínimo denominador comum de todos os setores. Permeia tudo. Serve como uma alavanca para todos os outros, porque tem influência direta sobre o valor de qualquer produto. Está no cinema, nos games, nos softwares.

9. O Brasil tem vocação para algum campo do design?_A moda brasileira é um exemplo. Tem sido reconhecida mundialmente. A São Paulo Fashion Week é um dos cinco principais eventos do tipo no mundo. Nessa área temos um problema: exportamos pouco. Mas isso não tem a ver com a qualidade dos produtos. Está muito mais relacionado a impostos, problemas de distribuição e a uma série de dificuldades no processo produtivo. Ainda temos que caminhar muito no Brasil. Há pouco tempo, uma instituição como o BNDES nem sequer tinha instrumentos para financiar setores da economia criativa. Esse tipo de vazio mostra como a discussão sobre esses setores é relevante.

10. O governo está preocupado em atrair para o Brasil empresas como a Foxconn, a chinesa que fabrica os produtos da Apple. Essa estratégia é correta?_Não precisa ser desprezada, mas é insuficiente. No passado, quando uma indústria siderúrgica chegava a um país, produzia impactos de longo prazo. Com uma montadora de produtos eletrônicos a situação é diferente. Esse tipo de fábrica pode ser considerado “transportável”. Muda de país como mudamos de roupa. Toda a nossa lógica de desenvolvimento ainda está voltada para tijolos e máquinas. Temos de voltá-la para a criatividade e novas tecnologias.

 

*Por Carlos Rydlewski – Entrevista publicada em 01/07/2011 na Época NEGÓCIOS