Experiência interativa e design elaborado levam games para galerias de arte

 

Diante do apelo do grupo, uma menina se arrisca a passar no emaranhado de elásticos e luzes. Esbarrar nos fios, e não o contrário, é o objetivo do jogo: cada contato produz um som diferente, como se o corpo se transformasse em instrumento musical. Essa é a proposta da instalação sonora De Novo, Ercília, integrante da terceira edição do Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (File- Games Rio) realizado no centro cultural Oi Futuro, no Rio de Janeiro. O evento foi aberto ao público no dia 26 de março e se estende até o dia 28 deste mês. Intitulada Game lover (uma brincadeira baseada no “game over”), a exposição recebe experimentações digitais com a temática do entretenimento e enfatiza a conexão e a simultaneidade entre os jogos, animações e instalações de arte.

De acordo com Paula Perissinotto, uma das responsáveis pela organização e concepção do festival, foram escolhidos projetos que tinham abordagem mais poética e não de competição, como Journey, jogo em que o objetivo é chegar ao topo da montanha, mas a experiência do trajeto envolve descobrir quem você é e qual é o seu propósito. O game é da empresa independente Thatgamecompany, mesma criadora de Flow, um dos 14 títulos escolhidos para integrar a coleção do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), que inclui também Pac-man, Tetris e The Sims. Para a organizadora, alguns jogos podem ser considerados arte e a decisão do MoMa seria uma legitimação disso perante o estranhamento do público.Perissinotto explica que no século 20 levava-se até 100 anos de um intervalo entre uma categoria de arte e outra, mas hoje a velocidade de transformações é muito maior. “Quando lançamos o File, em 2000, a internet era a grande novidade. Em 10 anos, isso já se banalizou. Quantas coisas surgiram? A história não consegue acompanhar essa rapidez de novidades”, ressalva. Para ela, ao explorar aspectos artísticos, estéticos e lúdicos, alguns jogos se transformam em obras dignas de lugar de destaque nas galerias.“Estou como uma criança”, foi como resumiu a jornalista Mariana Pelegrini, de 27 anos, sobre a experiência entre os corredores da exposição do centro cultural. Um joguinho romântico, cujo objetivo era fazer com que o casal de personagens se encontrasse, foi eleito o mais interessante por ela. “Ele é simples, de estratégia. Metaforicamente fala de relacionamento”, conta. Pelegrini se entretinha na instalação Efecto mariposa com a amiga pesquisadora Alessandra Maia, de 28. A obra simula um ecossistema na superfície de um cenário de cinzas vulcânicas em tempo real. O público modifica com suas próprias mãos a “topologia” e a “atmosfera” desse mundo virtual, desencadeando todos os tipos de mudanças climáticas e topográficas que influenciam diretamente as condições de vida.Maia, gamer assumida, conta que tem três consoles: PS3, Xbox 360 com Kinect e o Nintendo Wii. Ela faz estudos sobre o universo dos jogos e já realizou variadas experiências – da observação de expressões das pessoas diante de games de terror às habilidades cognitivas necessárias para jogar em rede. “Os games abrangem muito mais que diversão: são educação, arte. Os títulos trazem uma riqueza enorme, com complexidade visual, sonora e interativa”, diz.

 

 Ocupando três andares do prédio, as obras do File convidam à interação e diversão – claro! Algumas oferecem simplesmente manetes de controle, outras incentivam o visitante a modificar sua estrutura mexendo em caixas de areia ou passando o dedo sobre a tela de um tablet para apreciar as criações. Como um inocente jogo de blocos, o Buidasound atrai especialmente as crianças. Não há o objetivo único de vencer um desafio, mas sim de se entreter, descobrindo novas melodias criadas pelas construções de figuras com os cubos. Uma câmera identifica as imagens e dispara sons específicos.Outros games, como o paraibano Xilo (xilogame.com), foram escolhidos por ter linguagem diferenciada e objetivos que extrapolam ganhar/perder, mas incluem fazer uma reflexão sobre algum contexto específico. Xilo é um jogo que conta a história do sertanejo Biliu. Para salvar sua família de uma grave doença, ele precisa recolher partes da xilogravuras sagradas, enfrentando desafios e lendas brasileiras. O game lembra um Mario Bros do sertão se desvencilhando de cactos mortíferos. Toda a animação tem traços negros grossos como as xilogravuras e a trilha faz o jogador querer se embalar no arrasta-pé do forró nordestino.Com um tom mais dramático, Heavy rain (http://heavyrainps3.com), lançado em 2010, traz um thriller digno de longas metragens. O game é centrado em quatro protagonistas envolvidos com o mistério do assassino do Origami, um serial killer. As imagens tem uma qualidade incrível e o enredo é cuidadosamente calculado para que cada escolha do jogador tenha uma consequência diferente futuramente.TrajetóriaO File é uma organização cultural sem fins lucrativos que viabiliza uma reflexão sobre as principais questões do contexto eletrônico- digital contemporâneo mundial. Em 2000, o festival constituiu uma plataforma interdisciplinar internacional para incentivar o desenvolvimento de projetos inovadores e criativos na área das artes e das tecnologias. Há sempre duas edições por ano, em São Paulo (SP) e no Rio de Janeiro (RJ): uma de arte pública interativa e outra de games, respectivamente. Desde 2006, o Oi Futuro do Rio recebe as experimentações em arte digital de um dos maiores festivais de arte e tecnologia da América Latina.Destaques do File Games 2013

JourneythatgamecompanyJenova (Xinghan) Chen e Nick Clark – China, EUAEm Journey, o jogador é uma figura que acorda no meio de um deserto sem ninguém à vista. Conforme avança, ele descobre os poderes de gritar e planar, fundamentais para progredir e alcançar seu objetivo: chegar a uma montanha distante e iluminada. Foi um dos principais vencedores do British Academy of Film and Television Arts (Bafta), recebendo os prêmios de música original, melhor design, realização artística, realização sonora e multiplayer on-line.http://bit.ly/XCnf4hStarry NightPetros Vrellis – GréciaAnimação interativa baseada na obra-prima de Van Gogh Noite estrelada. A paisagem pintada por Van Gogh ganha movimento em uma animação em que os elementos da tela podem ser mudados quando é tocada pelo espectador.http://vimeo.com/36466564De novo, ErcíliaGraziele Lautenschlaegere Rita Wu – BrasilÉ uma instalação sonora interativa em que o visitante experimenta novos padrões sonoros e formas de percepção corporal por meio da interação com elásticos. É inspirada no livro As cidades invisíveis, de Italo Calvino, onde ele menciona Ercília, uma cidade onde se estendem fios para designar as relações entre as pessoas e as coisas. De tempos em tempos, Ercília é abandonada e remontadaem outro lugar.

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