Gostou? Foi feito por mulheres

Antes, os homens produziam carros para elas. Agora, até o projeto é delas.

Afinal, o que querem as mulheres? Bem, se o assunto for automóvel, a resposta é o YCC, da Volvo. Ou deveria ser, já que esse é o primeiro carro projetado inteiramente por uma equipe feminina. Nenhum homem, nem Hans-Olov Olsson, presidente da fábrica sueca, deu palpite. Criado por um grupo de vinte mulheres, o protótipo do YCC foi exibido no Salão de Genebra, encerrado na semana passada, e ainda não tem data para começar a ser fabricado. A idéia que norteou o projeto foi a de que as necessidades automobilísticas das mulheres vão muito além de todas as expectativas masculinas nesse assunto. “Em termos de potência e formas externas, elas não procuram um carro muito diferente daquele desejado por um homem”, diz a gerente de projeto da Volvo, Eva-Lisa Anderson. “O que as mulheres querem a mais são soluções inteligentes que tornem a vida delas mais simples e prática.” O que não falta no protótipo são boas idéias, com ênfase na criação de espaços extras.

O seletor do câmbio automático foi deslocado para o volante. Com isso, pôde-se aproveitar o lugar onde normalmente ficam a alavanca de câmbio e o freio de mão para criar um porta-objetos com tampa capaz de alojar a bolsa, o computador portátil e o celular. O assento do banco traseiro dobra como uma cadeira de cinema, expondo um compartimento para acomodar com folga a bolsa com a roupa de ginástica. As portas estilo asas de gaivota, que se abrem inteiramente para cima, facilitam o embarque e o desembarque de quem usa saia justa ou muito curta. No lugar onde estão as dobradiças nos carros convencionais, surgiu outro porta-trecos. O banco do motorista corre para trás e o volante para cima, para facilitar a entrada no carro. Tudo volta depois à posição correta, eletronicamente. Se a motorista estiver muito carregada, basta se aproximar do veículo que a porta abre sozinha, graças a um dispositivo conectado à chave. Uma reentrância no assoalho, abaixo dos pedais, serve para encaixar o salto alto. Não apenas evita acidentes provocados por sapatos que escorregam como ainda protege o calçado de arranhões indesejáveis. Os bancos têm capas de cores diferentes, que podem ser trocadas facilmente e combinam com o tapete.
Quer melhor? As projetistas da Volvo consideraram desnecessário abrir o capô. Ele é lacrado – afinal, quem precisa olhá-lo, além, obviamente, dos mecânicos? Ainda mais que um aviso eletrônico no painel alerta sobre a hora de fazer revisão. O cemitério dos micos industriais está coalhado de carros projetados por marmanjos com aquilo que eles imaginaram que iria agradar às mulheres. O caso exemplar é o Dodge La Femme, um rabo-de-peixe em tons de rosa e salmão, lançado em 1955 pela Chrysler. Oferecia sombrinhas como acessório. Foi um desastre de vendas. O fascínio do consumidor masculino por potência e aparência esportiva é bem conhecido. Sabe-se, pelo menos, o que as mulheres não querem: carros ou produtos parecidos com os feitos para a boneca Barbie ou cheios de badulaques. “Não adianta fazer uma coisa estereotipada, para ter cara de mulher. Quem quer vender carro a uma freguesia feminina deve esquecer o rosa e oferecer racionalidade”, diz a americana Martha Barletta, da consultoria TrendSight Group e autora de um livro sobre marketing para mulheres.

Na década passada, a Ford americana encarregou uma equipe de trinta mulheres da tarefa de transformar a minivan Windstar num veículo atraente para mães com crianças pequenas. As “mamães Windstar”, como foram apelidadas, acrescentaram armários, geladeira, microondas e luz suave para acalmar o bebê. O “carro da mamãe” fez sucesso nos Estados Unidos. A criação do YCC é uma jogada de marketing da Volvo, visto que 55% de seus compradores em todo o mundo são mulheres. A maioria das fábricas prefere não revelar qual de seus modelos é o preferido das mulheres por temor de que o estigma afugente os homens. Mas elas não podem ser esquecidas em nenhum momento. Há pesquisas que indicam que as mulheres influenciam 80% das compras feitas pela família. A presença feminina na indústria automobilística vai muito além dos produtos específicos. Muita gente também acredita que elas sejam em parte responsáveis pela tendência favorável aos carros de linhas mais arredondadas, perfil alto e bom espaço. A diretora de design da General Motors americana é a francesa Anne Asensio, que criou o Scénic para a Renault. A designer Diane Allen, chefe do estúdio da Nissan nos Estados Unidos, reformou o Nissan Frontier, transformando o jipão, antes visto como rústico e masculino, num dos mais vendidos entre as mulheres.

Fonte: Revista Exame – Março de 2004

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