“A indústria precisa olhar para o design”, diz coordenadora da Bienal Brasileira de Design

Fonte : Jacson Almeida para o Diário Catarinense

No desenvolvimento de um produto, os designers são responsáveis por investigar as necessidades do consumidor, observando aspectos culturais, sociais, produtivos e ambientais. E é essa a visão que a Bienal Brasileira de Design 2015, em Florianópolis, pretende mostrar ao público e à indústria.

Em entrevista ao Diário Catarinense, Roselie de Faria Lemos, coordenadora executiva do evento, diz acreditar que as empresas precisam investir na profissão para seguir inovando no mercado. Para ela, Santa Catarina ainda tem muito a avançar para que o papel do designer seja valorizado dentro de grandes companhias. Mas, ainda assim, o Estado conta com bons exemplos de marcas inovadoras.

Roselie de Faria Lemos, coordenadora executiva da Bienal Brasileira de Design 2015. Foto: Fernando Willadino / Divulgação

Roselie de Faria Lemos, coordenadora executiva da Bienal Brasileira de Design 2015.
Foto: Fernando Willadino / Divulgação

Diário Catarinense — Levando em conta que um dos objetivos do evento é contribuir para o desenvolvimento econômico, social e ambiental numa dimensão regional, nacional e internacional, qual é a contribuição para Santa Catarina?
Roselie de Faria Lemos —
 Ele contribui, primeiramente, em termo de visibilidade, quando falamos que o design de SC vai ser visto nacionalmente. Alguns escritórios de design do Estado receberam prêmios nacionais e internacionais e não sei se isso é divulgado. E o fato é de uma importância grande. É o reconhecimento do que é produzido aqui. Depois tem uma questão que considero mais séria: tentar consolidar o papel do design na indústria.

DC — Qual o tema do evento neste ano?
Roselie —
 O tema da Bienal é design para todos. O que nós queremos é o acesso de pessoas de todos os tipos, de todas as raças, de todos os desejos e de todas as dimensões.

DC — Haverá um público estrangeiro?
Roselie —
 É uma vitrine para os compradores. Virão clientes internacionais para olhar a produção catarinense e que poderão se interessar em fechar negócio.

DC — Qual é o papel da área na indústria?
Roselie —
 O design é um vetor de desenvolvimento porque é uma ferramenta sistêmica que deve ser aplicada nos processos industriais. Mas não só na parte final do processo, como normalmente acontece. As pessoas pensam: nós queremos colocar o designer para trabalhar neste produto. Mas fazem toda a parte de desenvolvimento e chegam no final achando que a gente tem que dar uma cara bonitinha para o projeto. Não é bem assim. O designer precisa entrar desde o princípio porque toda a nossa metodologia leva em conta aspectos sociais, ambientais, produtivos e, principalmente, aspectos de usabilidade. O relacionamento entre o profissional e o usuário tem sido levado em conta, por exemplo, no processo de inovação. Tudo isso faz parte de uma pesquisa etnográfica em que você observa o usuário e vê quais são as necessidades deles.

DC — Então, as empresas precisam de uma inovação?
Roselie —
 O design é centrado no ser humano. E isso tem a ver com o desenvolvimento da indústria. Ela não pode ficar fazendo o que sempre fez. O mundo está mudando rapidamente, as necessidades e os desejos das pessoas estão se modificando com uma velocidade inacreditável. Então, você tem que olhar para o futuro. Se continuar oferecendo só o que sempre ofereceu, sem inovar ou pesquisar, a tua indústria vai fechar. Um dos objetivos da bienal é esse: fazer com que o empresariado entenda que é preciso olhar o futuro, o desejo e a expectativa do usuário. E isso o design faz.

DC — Como você observa o design dentro de algumas marcas de SC?
Roselie —
 Sentimos que aqui ainda não há uma visão que faça com que o design seja importante dentro da empresa. Ainda há uma visão de que produção e engenharia são mais importantes. Essa questão humana que o design enxerga e que faz parte da formação de um profissional é muito importante. Elas não podem ficar pensando em diminuir o custo do produto, e sim fazer com que ele seja mais elevado.

DC — Poderia apontar as tendências para o design a médio prazo?
Roselie —
 A grande tendência do design é trabalhar novos materiais. A terra está em crise em termos de matérias e precisamos trabalhar com os novos. Eles geralmente trazem vantagens para a questão produtiva. Por exemplo, podem trazer a diminuição do peso do avião, que diminui o gasto de combustível.

DC — Há alguma iniciativa de Santa Catarina que se destaca?
Roselie —
 Tem várias empresas que estão despertando para o design. O próprio movimento Santa Catarina Moda e Cultura incorporou o design e está trabalhando nisso dentro do ramo têxtil.

DC — Como o Estado está em relação a outras partes do país?
Roselie —
 Infelizmente não posso dizer que estamos no topo. O design está mais desenvolvido no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná. O Paraná tem um movimento muito grande. Mas a gente não pode dizer que SC esteja ruim, mas poderia estar numa posição melhor tendo em vista o parque industrial que temos aqui.

DC — A senhora disse que a proposta é fazer a cidade respirar design. O que seria isso?
Roselie —
 A proposta que a gente diz de respirar design é assim: estamos dando fôlego com eventos pré-bienal. Esses eventos de esquenta são o fôlego que a gente quer dar para todos. E tem o sentido físico também porque vamos colocar designer na cidade inteira. Não é que vamos colocar banner, mas sim fazer com que os eventos participem da parte física da cidade. Por exemplo, exposição de cartazes em locais públicos. E isso é uma forma para o público participar sem precisar entrar.

 

Entrevista realizada e publicada pelo Diário Catarinense em 19/04. Para ver a entrevista completa na fonte, clique aqui.