Memo Galeria é a primeira da América Latina a participar da Design Basel, na Suíça

Fonte O Globo

Marcelo Vasconcellos está sentado na poltrona Cuíca, peça clássica do designer Hugo França esculpida a partir de uma espécie árvore, o pequi vinagreiro. Alberto Vicente acomoda-se num sofá cor de goiaba de quatro lugares com assinatura de Joaquim Tenreiro. Está com o pé direito quebrado, portanto mantém as duas pernas esticadas sobre um banco de papelão de Domingos Totora. O cenário configurado por muitos móveis e paredes de tijolinhos é a Memo (abreviação de Mercado Moderno) Galeria, na Lapa — primeira da América Latina selecionada para participar da Design Basel, mostra dentro da programação da Art Basel, na Suíça. Do exuberante acervo de mobiliário brasileiro, 15 peças representarão o Brasil lá fora.

Os curadores Marcelo Vasconcellos (sentado) e Alberto Vicente (em pé) donos da Memo Galeria, na Lapa - Leo Martins / Agência O Globo

Os curadores Marcelo Vasconcellos (sentado) e Alberto Vicente (em pé) donos da Memo Galeria, na Lapa – Leo Martins / Agência O Globo

— Fomos convidados muito em função da aceitação e do interesse do mercado internacional pelo design brasileiro — observa Marcelo. — O design nacional é recente. Você vê nomes como Zanine Caldas e Sergio Rodrigues até 1960 e depois disso temos um hiato. De dez anos para cá, há um ressurgimento, que é legado desses caras.

Há um mês, Marcelo e Alberto, sócios da galeria, empacotaram poltronas, mesas, carrinho de chá, espreguiçadeira e biombo para despachar num contêiner.

— A logística é a pior possível. Para galerias europeias e asiáticas, as barreiras são inexistentes. Eles têm facilidade no comércio e transporte. Para nós, só de navio são 16 dias — critica Marcelo.

Calejados em visitas a feiras e exposições Brasil adentro e mundo afora, os dois selecionaram peças de Hugo França, Ronald Sasson, Zanine Caldas, Jorge Zalszupin, Rodrigo Simão, Giorgio Bonaguro (o único italiano do grupo), entre outros para a mostra: “É o que temos de melhor”, resume Marcelo.

— As coisas se repetem muito. As nossas preocupações foram: o que não se vê em feira?, e o que a gente tem que não é comum levar? Então, escolhemos um biombo pantográfico e uma escultura de parede do Joaquim Tenreiro — cita Alberto, que é contra a reedição de peças. — A maioria do que estamos levando são peças únicas. A Namoradeira, do Zanine pai, eu vi quatro vezes na vida.

Marcelo aproveita o embalo:

— Se você for a Nova Viçosa (Bahia), todo mundo faz bancos esculpidos de árvores. Muita gente imita o que o Hugo França faz. Mas quem tem o olhar treinado sabe que não existe milagre, que não tem uma máquina para reproduzir sua arte. É que nem você pedir para uma criança desenhar bandeirinha. Todo mundo faz bandeirinha. Mas ninguém faz igual ao Volpi.

A inspiração vem também de peregrinações por espaços culturais, como o VitraHaus e o Bauhaus, na Alemanha, e o Victoria And Albert Museum, na Inglaterra. As redes sociais são balela.

— Não acredito em Instagram. Você posta uma foto e o sujeito comenta: “Quero!”. Mas nunca apareceu para comprar. Quem quer vem aqui — diz Marcelo.