Menos desigualdade social e cidades mais democráticas

Fonte Haus - Gazeta do Povo

Ruy Ohtake faz parte do Olimpo da arquitetura brasileira. Se alguém um dia resolver criar um triunvirato de homens modernos que mudaram para sempre a cara da nossa arquitetura, aposte: o baixinho de sorriso gentil que se autodefine como uma bissetriz entre Vilanova ArtigasOscar Niemeyer fará parte do panteão. O arquiteto paulista começou a carreira rapazola junto com a heroica geração de modernistas de 1960, mas preferiu se reinventar.

Desmanchou a linguagem rígida do modernismo brasileiro e achou sua própria forma, um mix do brutalismo com as linhas mais sensuais de Niemeyer. A partir da construção da Embaixada Brasileira em Tóquio em 1981, assumiu um compromisso maior com as cores e suas obras viraram sinônimo de folia cromática. Aos 78 anos segue firme em sua cruzada pessoal contra a “desagradabilíssima” desigualdade social.

Em visita relâmpago à capital paranaense a convite da Artefacto Curitiba para discutir arquitetura contemporânea, o arquiteto que carrega mais de 400 projetos construídos deu entrevista exclusiva para a HAUS e conclamou os arquitetos a um maior comprometimento com a identidade brasileira.

 

Em que consiste ser brasileiro na arquitetura?

A arquitetura contemporânea brasileira começou na década de 1940 principalmente com Oscar Niemeyer e Lucio Costa, que culminou em 1960 com Brasília. Essas obras, decorridos 50 anos, são emblemáticas e vão continuar por muito tempo. Essa forma, uma arquitetura com um desenho diferenciado de todas as outras que existem no mundo, com uma concisão diferente, que fornece identidade inédita para nossas cidades. De lá para cá, essa arquitetura continua. E eu procuro fazer com que nossa arquitetura que veio do modernismo vá se desenvolvendo. Procuro, dentro de alguns ineditismos da forma, a introdução da cor e uma liberdade de criação. Acho que é isso que caracteriza a arquitetura contemporânea brasileira. E temos que olhar o futuro. Não só da arquitetura, mas também das cidades, do desenvolvimento da população. Ou seja, temos que diminuir essa desagradabilíssima diferença social no país. Porque a arquitetura não é algo isolado, faz parte do conjunto.

Essa é sua cruzada na arquitetura, acabar com a desigualdade?

Tenho certeza. Porque já fiz algumas obras em que a arquitetura e o urbanismo ajudaram a cidade a ser mais aberta e democrática. Por exemplo, a comunidade muito carente de Heliópolis. Lá eu fiz os edifícios circulares, que eles chamam de redondinhos. Eles podem ser replicados em qualquer outra cidade brasileira. Com o projeto eu quis dar qualidade de vida aos moradores. A arquitetura se apresenta como um passo para uma cidade mais igualitária, mais aberta, mais democrática.

Você fala em tingir as cidades com as cores do comprometimento. O que é isso?

O Brasil sempre foi um país que usou muita cor. Tanto pela natureza amazônica, o Pantanal, o mar, como também pelas construções das primeiras vilas e aldeias. Entretanto, nos últimos 100 anos, o Brasil foi colonizado culturalmente pela Europa. Em Paris, por exemplo, não se colocava mais tanta cor, largando a importância e a alegria dela. Por este motivo faço esforço para os projetos terem cor. E cor forte. Não é azul clarinho, nem vermelho rosa. É vermelho forte. Porque a cor tem que ter compromisso. ‘Quebrar o branco com uma corzinha’… não é assim. É azul forte, vermelho forte, verde forte. É cor, cor mesmo. Não é simples tintura para efeito decorativo.

Hotel Unique, em São Paulo, concluído em 2002, é um dos prédios mais importantes do mundo, segundo o crítico Paul Goldberg. Fotos: Nelson Kon/Divulgação

Pensando nessa questão da arte, que sempre esteve muito presente na sua vida, de que forma ela te inspira? Alguma característica das artes plásticas que você aprendeu e transpôs para a arquitetura?

Considero a arquitetura a mais complexa das artes. Então, a forma é um ingrediente fundamental. Por isso desmancho o caixote do modernismo para ter liberdade criativa. Depois vem a cor. É a natureza, a vivência. Sempre foi importante. E a arquitetura é cor também. Mas não é só isso. Por exemplo, fiz o projeto de uma mesa em que os apoios são ondulantes. Chamo de mesa sinfônica. Tem uma musicalidade aí. No próprio Unique [hotel em São Paulo, que figura entre os principais projetos de Ohtake], com altura de 25 m, na curva, com a fachada de cobre, ele termina em cima com 3 centímetros. Um ponto com a viga da parede. Então a curva e a reta vão para o infinito. Tem uma coisa meio cósmica também. A arquitetura é uma fusão das artes. A cor e a forma são as mais visíveis. Mas os diferentes projetos têm sempre os ingredientes da arte. Arquitetura sem arte não é arquitetura, é uma construção.

Então a arquitetura é sempre um manifesto de alguma ideia? Ou é muita pretensão?

Sempre é manifesto. São diferentes formas de manifesto. Por exemplo, no Centro Cultural de Jacareí, aquela ondulação é pintada com quatro diferentes: vermelho forte, vermelho alaranjado, laranja e amarelo. A obra fica entre a Via Dutra e a cidade de Jacareí, com nada em volta. Aquilo é um brado da cultura no Vale do Paraíba. É manifesto? Pode falar manifesto. Outro projeto, é o edifício em forma de W. Só se apoia nas duas pontas. O concreto é material pesado e fiz de propósito, no limite estrutural, e visualmente se tem a impressão de que está apoiado só em um ponto. Um manifesto que mostra que o concreto pode ser leve. Cada projeto é um desafio e um tipo de manifesto. Um tipo de mensagem.

Mas para quê? Dirigido a quem?

A arquitetura é feita para as pessoas, para o povo. E a arquitetura tem que significar determinada época. Hoje procuro fazer a arquitetura contemporânea, não olho para trás. O passado é importante para a nossa formação. Mas temos que saber olhar para o futuro, que é importante para o desenvolvimento das pessoas. Em 50 anos, teremos no país, segundo estatísticas, 50 milhões de pessoas entre 20 e 25 anos. É importante que todos se preocupem e façam alguma coisa. A formação desses jovens que estão ávidos por informações é papel de todos, inclusive da arquitetura.

Edifício do Instituto Tomie Ohtake reúne as marcas mais fortes de Ruy: o comprometimento com as cores e com as curvas.

Como fazer isso? Como transgredir para caminhar para frente?

Faço isso nas minhas propostas. O Rio Tietê, por exemplo, que atravessa São Paulo de leste a oeste, com 100 km, é um grande privilégio que natureza permitiu e o homem ocupou de maneira desorganizada.

E tem salvação?

Tem. A cidade cresceu muito e as soluções se tornaram mais difíceis. Mas existem. Precisa de uma gestão nacional. Não adianta só despoluir e recuperar vegetação. Tem que dar moradia para as comunidades mais carentes. Na Zona Leste de São Paulo moram 4,5 milhões de pessoas em condições precárias. Tá encostado no rio. Nessas duas margens, cabem prédios tipo o redondinho, para quase 2 milhões de pessoas, resolvendo metade do déficit habitacional. É possível fazer como Londres fez com a margem sul do Tâmisa. Para os Jogos Olímpicos de 2012, o governo fez quatro estádios no brejo da parte sul, a 20 km da cidade, e colocou metrô conectando tudo. Hoje é um bairro chique. O poder público saiu na frente e não foi atrás como um bombeiro para apagar o incêndio.

Falando em Olimpíadas, você se ressente de não ter sido convidado para elaborar ao menos um estádio para os Jogos?

Não. O Brasil tem muitos arquitetos competentes. Claro que eu gostaria. Gosto muito de fazer arquitetura e urbanismo que provoque convivência de pessoas. Quanto mais, quanto maior, mais interessante de fazer e maior o desafio. O que precisamos nas cidades são locais públicos de convivência e uma política urbanística de adequação e proporção entre áreas públicas e privadas. Gosto de projetos que provoquem a convivência das mais variadas condições dos cidadãos.

Recentemente circularam boatos de que São Paulo ganharia mais um espaço cultural, a Casa da Tomie, construída por você para sua mãe no Campo Belo nos anos 1960. Como será este projeto?

A casa é tombada pelo patrimônio municipal e nossa intenção é mantê-la como a Tomie a deixou em seu último dia: pincéis largados, dois quadros em andamento. Entre a casa e o instituto, não pode haver conflito ou sobreposição. Então, a ideia do meu irmão Ricardo, que é diretor do Instituto Tomie Ohtake, é de transformar o espaço em um local para pesquisa. Organizar os originais de gravuras e pinturas, os textos sobre ela e os textos que ela mesma escreveu. Acho que deve sair só no final do ano que vem. E estamos pensando em alguma atividade para as crianças. Vamos ver.

(matéria original: http://www.gazetadopovo.com.br/haus/arquitetura/a-cruzada-por-menos-desigualdade-social-e-cidades-mais-democraticas/)

Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

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