O adeus a André Stolarski, profissional admirado do design brasileiro

 

 

Stolarski foi diretor de design do MAM-Rio de Janeiro entre 1998 e 2000

 

Morreu na madrugada do último sábado, aos 43 anos, o designer André Stolarski, profissional de enorme relevância para o design brasileiro e muito querido entre colegas, alunos e admiradores de seu trabalho. Sua morte foi decorrente de complicações de um tratamento contra o câncer, doença com a qual foi diagnosticado em 2010. Figura de destaque no cenário do design, Stolarski realizou mestrado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo / FAU-USP e foi diretor de design do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro de 1998 a 2000, tendo realizado mais de vinte exposições ao longo destes dois anos.

André coordenava o setor de comunicação da Fundação Bienal de São Paulo e entre seus trabalhos recentes está o desenvolvimento do projeto visual da 30ª Bienal, cuja identidade foi desenvolvida de forma coletiva, por meio de workshops de criação, que geraram 30 cartazes diferentes para o evento.

 

Exposição sobre sustentabilidade da Bienal Brasileira de Design 2010 teve curadoria de Stolarski

 

Em “Sustentabilidade: e eu com isso?”, exposição da Bienal Brasileira de Design 2010, vinte profissionais já reconhecidos e dez jovens estudantes foram desafiados a conceber cartazes que colocassem em questão o termo sustentabilidade, sua conceituação, uso e consequências. Na ocasião, André foi convidado para realizar a curadoria ao lado de Rico Lins, por ter sido considerado um profissional competente tanto no exercício do design quanto na reflexão sobre a atividade.

Em 2002, associou-se à Tecnopop, onde desenvolveu diversos projetos para clientes do segmento cultural e corporativo. Foi professor na Escola Superior de Desenho Industrial/ESDI-UERJ e na Escola Superior de Propaganda e Marketing ESPM-RJ de 2006 a 2008. Foi também Diretor da Associação dos Designers Gráficos do Brasil entre 2007 e 2009 e fazia parte de seu Conselho Consultivo. Como membro do Conselho Editorial da coleção de design da editora Cosac Naify, traduziu os livros “Elementos do estilo tipográfico”, “Pensar com tipos” e “O ABC da Bauhaus”, além de ter realizado um documentário sobre a obra do pioneiro Alexandre Wollner.

Atualmente, fazia parte do programa de Mestrado da FAU-USP. Foi curador também da exposição “Alexandre Wollner: cartazes”, vencedora do Prêmio APCA e Melhor Obra Gráfica em 2010. Possui diversos trabalhos premiados no Brasil e no exterior.

Stolarski não teve filhos, mas deixa a esposa, Flávia Grimm, além de amigos e admiradores. O DesignBrasil lamenta a morte de uma pessoa tão querida e relevante para o nosso design. Convidamos alguns designers e amigos de André para que prestassem uma pequena homenagem através de depoimentos:   

 

Gustavo Piqueira

Designer e escritor

“From: André Stolarski Date: Sat, 2 Mar 2013 09:39:30 To: Gustavo Piqueira ‘Genial. Chegou. Tudo da pesada. Vou ver se falo com você nos próximos dias, qualquer dia quero dar uma passadinha por aí, na linda casa com fachada de gabião… Grande abraço. André”. Ele havia me pedido, dias antes, o livro com meus trabalhos que eu acabara de lançar. Fiquei extremamente lisonjeado com o interesse, claro. Afinal, vinha do André.

Depois ponderei. Não deveria ter ficado tão empolgado. Ora, todos sabem que o André é um dos caras mais generosos que existem. Ainda lembro de quando ele me autografou sua tradução de ‘Elementos do estilo tipográfico’, na noite de seu lançamento: ‘Você, que é escritor, vai adorar as entrelinhas do texto.’ (sim, ele me escreveu isso no lançamento do livro DELE). Feito criança maravilhada, só conseguia lhe agradecer com os olhos. Eu? Escritor? Bom, se é vocë quem está dizendo, André, vou acreditar… Hoje, passados quase dez anos, confesso não me lembrar de uma linha sequer do Bringhurst. Do livro, restou-me aquela dedicatória, tão importante para que eu continuasse a trilhar um caminho recém-aberto. Devo, portanto, acrescentar, à generosidade do André, uma absurda sensibilidade.

E o enorme talento, evidente. Noutro desses eventos design, também anos atrás, ele me apresentou sua mãe. Eu disse a ela que era grande fã do trabalho do filho. Ela foi muito simpática, mas sorriu como quem disesse ‘ah, mas isso não é novidade nenhuma. Você seria louco se não fosse’. Verdade.

Temos, então, generosidade, sensibilidade e talento. Só que nada disso, caro André, serve como atenuante: você ainda me deve a visita que prometeu. Eu sei, eu sei, também andei lendo umas coisas por aí nos últimos dias. Mas você não me engana, rapaz. Não sou bobo e sei muito bem que você é daquelas poucas pessoas que nunca, nunca, vão embora daqui. Então trate de aparecer, ok?

 

Adélia Borges

Jornalista, curadora especializada em design e professora de história do design

O adjetivo que mais associo ao André é BRILHANTE. Como pessoa, como profissional, como amigo. Incrivelmente brilhante e iluminado. Nos encontramos várias vezes, nas esquinas da vida e do design, mas a amizade mesmo prosperou a partir de 2009, quando ele fez o design da exposição “Design Brasileiro Hoje: Fronteiras”, da qual eu fui curadora, no MAM São Paulo. Além da genialidade das soluções que ofereceu, André foi um grande interlocutor, desses que todo curador gostaria de ter. Em 2010, quando assumi a curadoria-geral da Bienal Brasileira de Design, em Curitiba, imediatamente chamei André para a equipe. Confiei a ele e ao Rico Lins a curadoria da mostra de cartazes “Sustentabilidade: e eu com isso?”. A exposição ficou primorosa, e depois da Bienal foi para alguns outros lugares.

Alinhavamos outros projetos juntos, ainda no processo de obtenção de apoio financeiro, que às vezes se arrasta por muitos anos… Sem a sua presença, não terá sentido prosseguir.

É incrível que em apenas 43 anos de vida André Stolarski tenha feito tantos projetos memoráveis de design, escrito livros e textos seminais sobre a atividade, traduzido textos importantes e realizado várias exposições. Sua trajetória associa duas qualidades que nem sempre caminham juntas: a capacidade projetual e a densidade da reflexão. E isso associado ao temperamento ameno, gentil, nem um pouco pretencioso. Nesses três dias desde a sua morte, a avalanche de mensagens emocionantes no Facebook dá a dimensão de quantos foram tocados por ele.

André Stolarski vai fazer falta, isso vai… Mas por suas realizações continuará muito vivo entre nós.

 

Billy Bacon

Designer

Conheci André no MAM, quando eu desenhava um dos projetos mais relevantes da minha carreira, o livro do José Bechara. Lembro-me do dia que fui ao MAM e conheci o Agnaldo Farias – outro responsável direto por ser quem eu sou – e que me apresentou a ele. O que me impressionou na ocasião, não foi o fato de ter conhecido o André naquele dia, mas o ser humano tranquilo que podia passar-se facilmente por qualquer funcionário do MAM. Anos depois, em uma mesa redonda na PUC, eu realmente conheci a persona do André. Quando eu conectei os pontos, me surpreendi com a humildade e a modéstia com a qual ele me tratou anos atrás. Percebi, então, que o cara que eu havia conhecido no MAM era absolutamente GENIAL! Cada evolução – a Tecnopop, o livro do Bringhurst, a Bienal de Design da ADG, a Bienal de SP – todos seua movimentos influenciavam o meu pensar e fazer design. Quando lançamos a Bold° em SP, convidei-o para mediar a mesa. Recebi de presente, um dos maiores incentivos que só o generoso André Stolarski poderia dar: Um discurso onde ele exaltava nossa ação, dizendo como seria importante para o design brasileiro se todas as empresas, ao se lançarem no mercado, realizassem eventos como aquele que estávamos fazendo. Meu último papo presencial com ele já faz um tempo. O assunto era design e arte. Um projeto onde ele investigava a relação entre as duas disciplinas. No caso, eu estava inserido na história justamente por conta do trabalho que executei pro Bechara e Agnaldo. Mais recentemente, quando acompanhava seu timeline no Facebook, ao notar as fotos poderosas que ele postava, enviei um recado pra ele, manifestando palavras de carinho e força… Como sempre, ele respondeu-me com sua maneira exemplar de encarar a vida: “Tudo vai dar certo, sim”. Energia absolutamente marcante!

Letícia Castro Gaziri

Designer e Diretora Executiva do Centro Brasil Design

Trabalhar com o André na Bienal de Design de Curitiba foi extremamente gratificante e enriquecedor. A mostra Sustentabilidade: e eu com isso?, organizada por ele e Rico Lins, começou sem muita pretensão, mas ganhou força e acabou por ser a mostra mais marcante da Bienal de Curitiba. Realizada nos parques da cidade, a mostra de cartazes trouxe à tona um  tema polêmico – a sustentabilidade – que expressado por meio do design gráfico, deixou sua marca na cidade, da mesma forma que o André deixou a sua no design brasileiro.

 

Túlio Filho

Designer Gráfico e presidente da Prodesign>pr

Falar sobre o André é trabalhoso, pois precisamos de muitas linhas para descrever toda a importância dele como profissional, como ativista e principalmente como pessoa para o design. Ele fazia parte de uma nova geração, a qual também faço parte, que entende a importância da articulação no Design, ou seja, a necessidade de se fazer em conjunto, em coletivo. Por todas as instituições por onde ele passou, deixou sua marca: a da generosidade. Espero que as novas gerações o tenham como referência tanto de genialidade como de profissionalismo. 

 

Daniel Trench

Designer

A ideia de projeto, para o André, era algo para se levar a sério. Pensar e fazer tinham, para ele, uma relação de mutualismo. Mas o que se faz com isso é que é a questão. Se a disciplina projetual permite que se faça “de um alfinete a um foguete”, por que não lançá-la em nome de um país? O André, como um Aloísio Magalhães de nossos tempos, encarava de frente essa empreitada. Fará muita falta, sobretudo nesse momento em que a ideia de projeto, por aqui, se faz tão necessária.