O design mora ao lado

Fonte: IstoÉ Dinheiro

 

Em meados de agosto, durante a assembleia de moradores do Edifício 360° – prédio de luxo na zona oeste de São Paulo –, uma acirrada votação decidiu proibir o uso de janelas de vidro para fechar as varandas dos apartamentos. Vencedores por 21 a 17 votos, os condôminos contrários à reforma detinham um argumento sólido. O que eles defendiam? O design. O projeto assinado pelo festejado arquiteto Isay Weinfeld ganhou importantes prêmios internacionais exatamente pelo desenho diferenciado de sua estrutura, com 22 andares de “caixas” sobrepostas e varandas que conferem profundidade e circulação de ar ao prédio. Fechá-las, portanto, seria uma atitude não só antiestética, como antifuncional.

O caso do 360° reflete a importância que o design tem adquirido no perfil de consumo de imóveis de alta renda em São Paulo. Mais do que o número de suítes ou da metragem, clientes de alto poder aquisitivo buscam projetos assinados por arquitetos de renome, como Weinfeld, na hora da compra. Esses novos empreendimentos têm mudado o skyline da cidade, sobretudo na Vila Madalena, bairro de artistas e da boemia paulistana. Detalhe: por trás desses projetos tão transformadores, surge invariavelmente um mesmo responsável: o da incorporadora Idea!Zarvos. Criada em 2004, a empresa tem sido uma das principais responsáveis por sofisticar o bairro, onde seis prédios já foram entregues e outros nove estão em fase final de construção. 

Em comum, eles foram concebidos por estrelas do design e causam uma sensível alteração no visual urbanístico, atraindo um novo perfil de morador. “São pessoas que estão no topo da pirâmide cultural”, diz Otávio Zarvos, 46 anos, fundador da Idea!Zarvos. “Não se trata apenas de ter dinheiro.” Segundo ele, seu cliente é alguém com referências de arquitetura que naufragou no mar de edifícios neoclássicos que inundou a cidade de São Paulo. “Fazia mais de 60 anos que não surgia nada de qualidade”, lamenta o empresário, que cita Artacho Jurado, icônico arquiteto dos anos 1950, como o último suspiro do design residencial na metrópole. Neste cenário, a Idea!Zarvos nada de braçada. Em 2012, o valor geral de vendas (VGV) foi de R$ 635 milhões. 

 

Neste ano, devido a atrasos nas tramitações burocráticas junto à prefeitura paulistana, o faturamento ficará na casa dos R$ 330 milhões, com oito prédios inaugurados até dezembro. A queda, garante Zarvos, não o preocupa. “Nosso negócio é fazer empreendimentos bons para quem compra e para a cidade”, afirma. “E se precisarmos diminuir de tamanho para isso, o faremos.” Caça às trufas O segredo do sucesso da companhia é uma combinação de análise técnica, olhar urbanístico e um certo feeling. Mas a tarefa não é fácil. Detectar bairros com potencial de negócio não depende apenas da oferta de terrenos. Zarvos afirma que São Paulo é grande em extensão, mas reduzida a “ilhas” com fronteiras sociológicas. “Quem mora no Tatuapé, por exemplo, não se mudaria para viver em Pinheiros, e vice-versa”, diz. 
 
 
Para ele, as tribos paulistanas demarcaram seus territórios e não estão dispostas a repensar os limites criados. Com isso, pesquisas de mercado servem como bússola para sair a campo. O próprio CEO e seu staff participam da avaliação do lugar pretendido. “Ando a pé mesmo, em diferentes horários e dias da semana”, diz. O empresário compara o exercício à caça às trufas italianas. “É preciso bom faro para encontrá-las, e uma técnica apurada para tirá-las debaixo da terra.” Só depois de efetuado o cruzamento das informações com essas sensações obtidas in loco é que se dá início a uma espécie de blitz, a partir da qual a incorporadora adquire vários terrenos de uma vez. É o que está acontecendo neste momento com a Vila Ipojuca, nas cercanias da Vila Madalena. 

 

 

O CEP possui características ideais para que seja considerado um bom negócio: fica perto dos serviços do vizinho famoso e conta com boa oferta de terrenos ainda não hiperinflacionados pela especulação imobiliária. Por lá, a empresa está construindo, neste ano, a primeira de quatro torres do empreendimento Sage. Quem assina a estreia no bairro, já em outubro, é o escritório de arquitetura b720, do espanhol Fermín Vásquez (leia quadro na página 78). Celebrado no mundo todo, ele assina obras como a Torre Agbar, em Barcelona. Bem menos pretensioso, o Sage terá como novidade sua relação com a vizinhança, dominada por casas antigas. “Serão prédios mais baixos e com vãos, para o ar circular melhor pelo quarteirão”, diz Zarvos. 
 
 
 
Além disso, uma espécie de centro comunitário da Idea! será erguido no bairro para que os moradores, sejam dos prédios ou não, se relacionem durante as aulas de culinária na cozinha experimental ou em palestras. As unidades do Sage, com 150 m² de área, custarão R$ 1,5 milhão. Outro empreendimento da companhia que pensou no impacto ao seu entorno é o Edifício Azul, de Weinfeld. Ele será erguido bem no meio de um terreno entre duas ruas da Vila Madalena. Nos fundos, uma área para três lojas. Na entrada, ao invés de uma portaria comum, uma passarela na cor azul, pavimentada por entre as residências existentes, dará uma identidade especial ao endereço. “Os visitantes encontrarão uma passarela e saberão que ali mora uma pessoa diferente.”

 

 

O escrevente José Carlos de Arruda Botelho Filho, 47 anos, conhece bem essa sensação. Ele mora no Edifício 4×4, um dos primeiros feitos pela Idea!Zarvos, e diz que gosta de ser reconhecido pelo lugar que escolheu para viver. “Além de ter sido um bom negócio, há uma satisfação pessoal grande”, diz Arruda Botelho, que comprou o imóvel de 124 m², há quatro anos, por R$ 480 mil. Hoje vale R$ 1,5 milhão. “Essa é outra vantagem”, diz Zarvos. Como são prédios únicos, a valorização é maior. O 360° é um exemplo. Lançado em 2009 com o metro quadrado a R$ 5 mil, agora, já com o prédio entregue, a mesma medida vale R$ 11 mil. Ou seja, cerca de 120% a mais do que o que foi pago por unidades que variavam entre 130 m² e 250 m².
 
 
 
Foi por preservar esta identidade que a disputa entre os moradores do 360° foi simbólica. Mais do que uma rusga entre ricos em uma Torre de Babel estilosa, ela confirmou a visão de que o design entrega valor agregado a uma obra arquitetônica. E vilipendiar isso é perder dinheiro. “Eu mesmo mandei uma carta pessoal ao condomínio pedindo pela proibição do fechamento das varandas”, diz Zarvos. Não que ele seja contra o uso mais social do espaço. Um dos projetos da incorporadora para 2014, em Perdizes, contemplará aqueles que gostam de fazer churrasco no terraço de seu apartamento. “Se tiver a ver com a arquitetura do prédio, por que não, já que esse é um hábito bem paulistano?”, indaga ele. “Ficaria muito feliz em ver um prédio meu onde os moradores estivessem curtindo o dia na piscina no meio da varanda”, afirma.
 
“O centro de são Paulo é uma lástima”
 
Autor da Torre de Agbar, em Barcelona, e com dez projetos no País – entre eles a revitalização do porto do rio Guaíba, em Porto Alegre –, o arquiteto espanhol Fermín Vásquez, 52 anos, lamenta a má conservação do centro de São Paulo
 
Conhece a arquitetura nacional?
Quando eu era estudante, passava horas admirando as obras dos arquitetos modernos brasileiros, em especial as de Oscar Niemeyer. A arquitetura brasileira moderna me encanta e influencia não só a mim, mas a muitos arquitetos pelo mundo.
 
Por que a preocupação com o bairro no entorno do projeto Sage?
Quisemos falar a mesma língua do bairro, a Vila Ipojuca. Ele foi loteado em terrenos estreitos, mas compridos, e usamos essa mesma trama. Nos inspiramos nas pessoas que vivem ali, não se trata de um projeto feito por computador onde só a praticidade é o que conta.
 
O sr. gosta da arquitetura dos prédios paulistanos?
São Paulo, na minha opinião, é a capital da América Latina. A arquitetura paulistana tem semelhanças com a das metrópoles americanas, na verticalização e extensão. O centro da cidade de São Paulo tem uma beleza muito particular e é uma lástima que se encontre da maneira que está. Deveria ocorrer uma recuperação do centro histórico da cidade.