O homem por trás da Comic Sans

Fonte Felipe Maia, Revista Trip

Uma batalha silenciosa é travada desde o advento do computador pessoal. Entre flancos de editores de texto e programas gráficos, as fontes (a versão digital das famílias tipográficas) se digladiam para conquistar o usuário. Dos vários exércitos em campo, o mais divertido é liderado pela Comic Sans.

“Se você ama [a Comic Sans], você não sabe muito sobre tipografia; e se você odeia, você realmente não sabe muito sobre tipografia”, diz Vincent Connare, criador da fonte que, prestes a completar vinte anos de existência, é tão célebre quanto sua rival em estilo: a Arial, versão digital inspirada na Helvetica.

Connare não gosta da criação tipográfica suíça. Acha vazia e imperceptível. No Brasil, ele pretende ver família tipográficas cheias de movimento e detalhes. Ele vem ao país para participar do DiaTipo, evento dedicado ao design das letras.

Vincent Connare

Vincent Connare

Trip: Em uma de suas entrevistas você diz que a inspiração para a Comic Sans veio de um livro de crianças. Você acha que por isso muitas pessoas não gostam da fonte? Porque é para crianças. Ou há outra razão? 

A Comic Sans foi criada para a seção de softwares infantis quando eu trabalhava na Microsoft. Foi quando eu estava criando programas para crianças, mães, pais e pessoas iniciantes no computador. O pessoal dessa seção me mostrou um aplicativo para Windows 95 em forma de desenho animado, o MS Bob. Eles me perguntaram o que eu achava da tipografia utilizada no software. Eu vi um cachorro em forma de cartum e seu balão de fala usava a fonte Times New Roman. Eu disse que isso era estúpido. Falei: olha esses quadrinhos do Watchmen e do Batman com as letras parecendo que foram feitas a mão. Era assim que o MS Bob devia ser. Devia parecer com algo que está na seção de quadrinhos do jornal e não na primeira página.

Trip: Quando você percebeu que a Comic Sans estava presente no mundo todo? Eu soube disso quando me falaram que ela faria parte do pacote de fontes do Windows 95 que seria enviado com todo novo computador. Nesse momento eu soube que ela estaria em todo o lugar. Eu tive certeza disso quando fui para a Austrália e vi a fonte em todas as toalhas da praia de Bondi, numa loja de surf e no menu de um restaurante a caminho de Sydney.

Trip: Quando eu devo usar a Comic Sans?

Bem, eu usei Comic Sans quando escrevi uma carta de reclamação para minha operadora de internet quando eles esqueceram de mandar um modem, me deixando sem conexão durante duas semanas. Eu uso em momentos de raiva e parece que vai direto ao ponto: nesse caso, eu fui ressarcido.

Trip: Você conhece alguma história engraçada com a Comic Sans?

A primeira vez que vi a Comic Sans na web eu estava procurando meu nome no AltaVista [mecanismo de busca anterior ao Google]. Já achei ela em um site pornô e em um site em homenagem ao Black Sabbath. Foi engraçado quando o Vaticano divulgou um álbum celebrando o papa Bento XVI em seis línguas com a Comic Sans. Foi engraçado também quando o maior evento científico da nossa era, a descoberta do Bóson de Higgs no CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), foi apresentada em Comic Sans. Outro episódio engraçado aconteceu na saída do LeBron James do Cleveland, quando ele escreveu uma carta em Comic Sans.

Trip: O que você acha do “Ban Comic Sans”, movimento dedicado a banir a Comic Sans? Você disse uma vez que o casal que criou o movimento não teria se conhecido se não fosse sua fonte.

Fico feliz que ela tenha juntado os dois. Só espero que eles comprem um teclado Comic Sans para os filhos.

Trip: Acredito que a Helvetica seja tão utilizada quanto a Comic Sans. Por que as pessoas não criticam esse poder tipográfico hegemônico também?

Helvetica é a coisa mais chata desde o queijo suíço. Ela recebe um monte de atenção mesmo sendo vazia a ponto de ser imperceptível mesmo se estiver na sua frente. Conheço um suíço que odeia Helvetica, o Bruno Maag.

Trip: Você também criou as fontes Trebuchet e Magpie, certo? Você gosta mais delas que da Comic Sans?

Todas foram criadas por motivos diferentes, mas eu nunca poderia odiar a Comic Sans. É a família tipográfica mais engraçada de todos os tempos e o design existe por causa disso: fazer algo pensando num mercado a ponto disso ser completamento adotado por ele. A Comic Sans foi feita para pessoas normais e elas adoram usá-la. E estou orgulhoso de ver que a Trip usa Trebuchet no seu site.

Trip: O que você faz atualmente?

Hoje em dia eu trabalho na DaltonMaag London, uma empresa de tipografia. Temos escritórios em vários países, mas, além da nossa sede em Londres, nosso orgulho é a filial brasileira em Porto Alegre que criou a família tipográfica oficial dos Jogos Olímpicos do Rio em 2016. Quem dera o comitê olímpico nos chamasse para os Jogos Olímpicos de Londres.

Trip: E o que você espera ver no Brasil em matéria de tipografia?

Pretendo ver uma tipografia criativa no Brasil. Bastante caligrafia, movimento e famílias tipográficas com serifa [pequenos detalhes ao fim de cada letra]. Somente tipografias divertidas e estilosas.

 

Fonte: http://revistatrip.uol.com.br/so-no-site/entrevistas/o-homem-por-tras-da-comic-sans.html