Philippe Starck com endereço no Brasil

Por Bruna BORELLI, do Isto é dinheiro:

Seja na Inglaterra, seja nos Estados Unidos ou no Brasil, a arquitetura assinada por Philippe Starck atrai cada vez mais os apaixonados por design de imóveis. Se você é um desses aficionados pelos traços de Starck, pode comemorar: ele decidiu estar mais próximo dos brasileiros. A Yoo, empresa de arquitetura e design do renomado francês, fechará suas portas em Buenos Aires nas próximas semanas para fincar bandeira em São Paulo, em endereço ainda não escolhido. A decisão sinaliza uma grande mudança nas estratégias comerciais da Yoo. Com sede em Londres e quatro escritórios regionais, o foco da companhia, aparentemente, agora é o Brasil. “O País tem muito apetite por novidades e é dono de um estilo de vida descontraído”, afirma Starck, famoso pela leveza de seus desenhos e por transformar materiais simples, como plástico, em obras de arte. “Tudo isso é a cara da Yoo.”

 
29.jpg
Starck olha para o Brasil: a empresa de arquitetura do designer francês
aposta no mercado de luxo brasileiro para vender seus milionários
projetos imobiliários.
 
Starck acredita que este é o momento ideal para apresentar a Yoo ao milionário mercado imobiliário brasileiro. A execução de seus projetos arquitetônicos, nada modestos, custam US$ 150 milhões, em média. Ele acredita que, embora o setor esteja ficando saturado, aposta no diferencial de sua empresa: a exclusividade. “A minha ideia é estimular o segmento de imóveis de luxo até chegar ao limite”, diz o designer, que se tornou conhecido no continente pelo projeto do Faena Hotel + Universe, construído em Puerto Madero, em Buenos Aires. Não foi por falta de trabalho lá fora, em função da crise internacional, que a Yoo resolveu investir no Brasil. Desde sua criação, em 1999, a empresa já projetou 47 empreendimentos, residenciais e comerciais, e desenhou a decoração de mais de dez mil apartamentos, no valor de US$ 7 bilhões pelo mundo. 
 
Agora, a empresa enxerga uma oportunidade de ampliar esses números na esteira da expansão econômica do País, principalmente no segmento de luxo. “É isso que justifica a mudança da sede da América Latina, na Argentina, para o Brasil”, afirma a argentina Carina Bendeck, diretora da empresa para a América Latina. Para conquistar o público brasileiro, Starck e seu sócio, o empresário britânico John Hitchcox, contam com a experiência de mais de 20 anos no mercado internacional. A dupla se apoia também na força que os nomes de seus conhecidos designers imprimem aos projetos da Yoo. Além de Starck, a Yoo trabalha com o holandês Marcel Wanders, com Jade Jagger (filha do roqueiro Mick Jagger) e com a sul-africana Kelly Hoppen. “Esses diferenciais fazem com que a marca valorize, no mínimo, 20% o valor de venda do imóvel”, diz Carina. 
 
30.jpg
Luxo e sofisticação: projetos assinados por Starck, como o condomínio Icon Brickell, em Miami,
fizeram da Yoo uma referência de requinte no mercado da arquitetura.
 
Na América Latina, a Yoo é responsável por projetos residenciais ultraluxuosos na Argentina, no Uruguai, na Venezuela, no Panamá e México. A expectativa em relação ao Brasil é alta. “De todos os países dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), este é o mais promissor para nós”, diz Carina. Starck e seu time consideram que o setor imobiliário brasileiro, com destaque para a capital paulista, é um dos poucos capazes de sustentar mais de um projeto Yoo em uma mesma cidade – afinal, o preço de um projeto de Starck não é para qualquer bolso. Os planos para o mercado local também se diferenciam dos outros 21 países em que a grife já se consolidou. “Além dos projetos residenciais e comerciais que temos experiência, aqui a gente aposta também na criação de shopping centers.” 
 
A ideia cabe bem em um País como o Brasil, que registrou nos últimos cinco anos um aumento de 22,5% em inaugurações desse tipo de empreendimento, segundo dados da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce). Mas não é só a estratégia comercial que se adequa a cada País em que a Yoo aposta. Os projetos também variam bastante, de acordo com o estilo do lugar e do cliente. O nome da empresa, por sinal, é uma brincadeira que personaliza essa preocupação em adaptar a companhia conforme cada um de seus clientes. “É tudo para Yoo (com o mesmo som de “you”, “você”, em inglês), são os seus gostos e a sua vida, e não para we (“nós”, em inglês)”, diz o sócio Hitchcox. 
 
31.jpg
Design exclusivo: o Faena Hotel + Universe, construído no tradicional Puerto Madero, em Buenos Aires,
foi o primeiro projeto da Yoo na América Latina. O foco agora é o Brasil.
 
Esse mote surgiu logo na fundação da empresa, no fim dos anos 1990, quando Starck e Hitchcox, vizinhos quando viviam em Paris, acharam que havia espaço no mercado residencial de alto padrão para projetos exclusivos – ideia que logo se espalhou para outros setores da construção civil. Hoje, além de três hotéis (dois em Hong Kong, na China, e um em Viena, na Áustria), a Yoo é proprietária também de um edifício comercial em Londres. Com média de quatro projetos por ano, a companhia de Starck costuma sacudir e aquecer o mercado de trabalho por onde passa. Isso porque, apesar do planejamento ser executado por profissionais estrangeiros, a realização do projeto é feita com parceiros locais. Segundo Carina, empresas nativas têm mais conhecimento das particularidades do mercado, o que facilita na hora de botar a mão na massa. 
 
“Ainda mais quando se trata de um País tão burocrático quanto o Brasil”, diz Carina, que acredita que as parcerias locais aliam o melhor dos dois mundos. “Não adianta chegar um estrangeiro aqui que não entende de licitações brasileiras para fazer esse trabalho.” Outro ponto positivo das alianças com empresas nacionais é que, muitas vezes, o custo final sai mais barato. Na criação do mobiliário, por exemplo, é possível utilizar tanto material de fora quanto local, conforme a escolha do cliente. “Mas é claro que usar matéria-prima do País deixa o valor final mais em conta”, afirma Carina. Seja como for, a Yoo quer acabar com a mesmice dos edifícios de hoje em dia. “A gente olha em volta e vê todos esses imóveis parecidos uns com os outros”, diz Carina, ao apontar para os prédios do luxuoso bairro da Vila Nova Conceição, em São Paulo. “Cadê a graça?”