Premiação do Design Museum de Londres seleciona projetos que trocam exuberância por responsabilidade

Um dos raros museus do mundo inteiramente dedicado ao assunto, o Design Museum de Londres acaba de divulgar o resultado de seu concurso anual. A premiação, que contempla sete categorias – arquitetura, mobiliário, design gráfico, produto, transporte, interatividade e moda -, reuniu, este ano, vencedores da Suécia, Alemanha, Japão, Itália, Estados Unidos e Reino Unido. O Brasil foi representado por Domingos Tótora, na categoria mobiliário, mas não se classificou.

Reunidos em exposição até 7 de agosto – ao lado dos projetos finalistas -, os trabalhos vencedores disputam agora o grande prêmio Design of the Year 2011, a ser anunciado pelo museu na próxima terça-feira. Mais uma tarefa de peso para o júri, presidido pelo historiador e crítico britânico Stephen Bayley, reunindo personalidades do mundo das artes, da publicidade e do design internacional.

“Este ano constatamos um forte sentido de responsabilidade, austeridade e realismo nos projetos apresentados”, diz Bayley, para quem esta edição será lembrada pela reflexão, não pela exuberância. “Eu não chamaria isso de contenção, mas de consolidação.E não vejo isso como algo negativo. Diria que a melhor definição desta safra é a inteligência tornada visível.”

Não por acaso, na categoria arquitetura, o vencedor foi o projeto Biblioteca Aberta, do estúdio alemão Karo Architekten. Uma solução que foi capaz de revitalizar e levar dignidade para uma área desvalorizada da cidade de Magdeburg, na Alemanha, e, o que é melhor, pode ser facilmente reproduzida. “Parece algo irreal, mas é muito inspirador”, afirma Bayley, justificando a escolha do júri.

O projeto Biblioteca Aberta, do estúdio Karo Architekten, foi o vencedor na categoria arquitetura

Em se tratando de design de mobiliário, porém, a inspiração, definitivamente, cedeu espaço ao pragmatismo. Minimal até demais, Branca, a cadeira desenhada no Reino Unido por Sam Hecht, Kim Collin e Ippei Matsumoto, do estúdio Industrial Facility, abusa do direito de ser correta – mesmo em tempos cinzentos para a indústria moveleira. A peça guarda até uma certa elegância, mas sugere algo datado, em nada memorável ou digno de nota.

Branca mostra o pragmatismo no design de mobiliário

Feito em casa. O oposto ocorre na categoria design gráfico, responsável por um dos melhores momentos da premiação. Produzido pelo escritório sueco Forsman & Bodenfors para a Ikea (gigante varejista de produtos para casa), o livro de receitas representadas apenas por meio de imagens Handemade is Best (caseiro é melhor), é a epítome do frescor e da sensibilidade.

 

      

 

Apenas com imagens, as páginas do livro “Homemade is best” mostram o porquê do  projeto ter merecido o prêmio na categoria design gráfico

 

“Nunca havia visto algo assim antes”, comenta o designer Mark Farrow, integrante do júri da premiação do Design Museum, diante, provavelmente, do mais merecido dos prêmios outorgados em 2011. “Há uma abordagem completa e totalmente diferente de outras publicações do gênero. Em termos estéticos tudo nele é muito rico. É pura informação, veiculada de forma agradável e divertida.”

O aplicativo Flipboard, considerado a primeira revista direcionada para as redes sociais, criado pela dupla americana Mike McCue e Evan Doll, acabou levando o prêmio da categoria interatividade, por alterar a forma como as pessoas visualizam conteúdos nessas redes.

A categoria dedicada aos produtos dedicou o prêmio à lâmpada Plumen 001, dos designers Hulger e Samuel Wilkinson, do Reino Unido. Uma decisão acertada, na medida em que oferece uma solução inovadora para uma questão de peso na agenda contemporânea: combinar apelo estético a produtos ecologicamente corretos. “Nós reconhecemos que, em termos de design, as lâmpadas de baixo consumo têm ainda um longo caminho a percorrer”, afirma o publicitário Will Self, outro membro do júri. “Este não é o ponto culminante, mas sim o começo de algo.”

A lâmpada Plumen 001 combina apelo estético e responsabilidade ecológica

 

Na contramão do que proclama a Plumen 001, o aperfeiçoamento estético não foi, assumidamente, o critério observado pelos jurados ao definir o vencedor da categoria transportes: as bicicletas Barclays, empregadas como veículos de aluguel em Londres, em uma iniciativa da prefeitura. Segundo Bayley, o que mais pesou na decisão foi o fato de ninguém as considerar lindas. De fato, elas foram concebidas de modo que ninguém se dispusesse a cobiçá-las – e eventualmente furtá-las. “É um conceito diferente. Acho que uma das definições de excelência em design é evolução”, diz o presidente do júri. “Ideias acabadas não podem ser definidas como excelentes. Aprecio coisas que são fruto de um processo. E esse é o caso das bicicletas.”

*Fonte: Estadão