Resgatados pelo design

*Por Michael Kimmelman, para o New York TimesTradução de Clarissa H. Rocha

Me juntei à fila para entrar no prédio da ONU, mexendo sem propósito em meu iPhone. O casal atrás de mim, ele carregando um iPad, refletia sobre o guru do design que Steve Jobs havia sido. Eles foram até o balcão de informações e eu me dirigi à “Design With The Other 90 Percent: Cities” (Design para os outros 90 por cento: cidades), uma infelizmente intitulada mas inspiradora exposição organizada pelo Cooper-Hewitt National Design Museum e agora instalada no saguão da ONU, em Nova York.

Exposições de design normalmente apelam para displays efervescentes da Van Cleef & Arpels, ou tributos estilosos da Helvetica e automóveis clássicos – design implica para a maioria das pessoas as belas coisas que uma sociedade afluente desenvolve para si.

Mas esta exposição não é sobre esse tipo de design. Os objetos ali tendem a parecer rudes e às vezes embaraçosamente simples, como em ‘Por quê ninguém teve esta ideia antes?’. Sua beleza está em outros aspectos: prover soluções econômicas e inteligentes para os problemas de milhões das pessoas mais pobres do mundo.

Se no caso do gênio Steve Jobs, ele estava fornecendo produtos agradáveis e sem esforço que respondem a perguntas que os consumidores nem haviam perguntado ainda (meu telefone celular pode ter um dispositivo que reconheça minha voz e me lembre de passar na lavanderia?), o design neste caso luta com o que por muito tempo pareceram crises intratáveis. Fiquei ali, comovido por como os designers se esforçaram para lidar com pandemias globais como a proliferação de favelas e a disseminação de doenças contagiosas.

Esta é uma exposição de design sobre reconstruir o mundo, em outras palavras. E isto é emocionante, esteja acontecendo em Cupertino, na Califórnia, ou em Uganda, onde o HIV infecta centenas de pessoas por dia e as novidades na telefonia celular tenham sido o design e um sistema de distribuição de mensagens de texto com informações sobre saúde e cuidados.

Kibera

‘Texto to Change’ (Envie mensagens de texto para a mudança), como é chamado o projeto, é uma pareceria entre especialistas em tecnologia e comunicação da Holanda com as companhias locais e as organizações de saúde. Em Kibera, uma região de Nairobi, no Quênia, e uma das mais densas favelas na África, o desafio foi diferente. Madeira tradicional e fogueiras de carvão causam desenfreadas doenças respiratórias por lá. Resíduos enchem as ruas. Então, um arquiteto nairobiano desenvolveu um fogão comunitário, abastecido por resíduos que os moradores coletam em troca de tempo para utilizá-lo (imagem ao lado).

De celulares e fogões a cidades: na Tailândia, um programa público chamado Baan Mankong Community Upgrading tem melhorado, nos últimos oito anos, as condições em centenas das 5.500 favelas do país, unindo os moradores a agências governamentais e não-governamentais, a fim de desenvolver locais mais seguros e limpos para morar. 

Ao longo do Canal Bang Bua em Bangkog, onde milhares de famílias ocuparam casas instáveis ligadas por finas passagens para pedestres – tudo sobre água de enchentes poluídas – arquitetos da próxima Sripatum University foram chamados para desenvolver casas em fila, separadas e semi-separadas, de acordo com o que os moradores disseram querer. Centenas de estruturas decrépitas de estacas foram demolidas, e novas casas construídas no lugar, muitas com portas recicladas e madeira de construção, em pisos sólidos e próximas às antigas moradias, para que a comunidade não se separasse ou famílias fossem expulsas. 

Comunidade ao redor do Canal Bang Bua, em Bangkok, na Tailândia, teve melhorias desenvolvidas por arquitetos da Sripatum University

Mais do que somente dar um upgrade nas moradias e na infraestrutura, a estratégia em Bang Bua incluiu empréstimos a juros baixos e financiamentos de 30 anos renováveis para os residentes nas antigas favelas, para que, pela primeira vez, fossem proprietários legais de suas casas. Isto ajudou a por fim ao velho ciclo de despejos (em muitas favelas ao redor do mundo, despejos são usados a fim de limpar espaço para shoppings e avenidas) que deixava esta classe constantemente desamparada e desesperançosa. Com o dinheiro dos empréstimos, os moradores de Bang Bua também decidiram construir um centro para os idosos e inválidos, e ainda para criar um fundo para bibliotecas, assistência a crianças e escolas para as famílias mais pobres.

“É fácil construir uma casa – muito mais difícil construir uma comunidade”, disse a curadora da exposição Cynthia E. Smith. “Cidades são muito complexas, e o que os melhores designers esclarecem é como dar forma e colocar em prática ideias que são, às vezes, muito simples. Bom design envolve trazer não somente um olhar fresco aos problemas, mas, acima de tudo, escutar às pessoas que vivem nestas comunidades. Estamos falando de um bilhão de pessoas vivendo em instalações informais hoje”, completa. “Podemos vê-las como um bilhão de problemas ou um bilhão de soluções”.

A exposição dá sequência a uma mostra menor que Cynthia Smith organizou em 2007 no Cooper-Hewitt Museum – esta incluía dentre seus 34 objetos um canudo com filtro que previne a disseminação de tifóide e cólera; uma bomba a pedal feita de bambu que ajuda os fazendeiros pobres no Camboja e na Índia a extrair água do solo na época de secas; e ainda o Q Drum, um recipiente plástico em forma de rosca, facilmente transportável por longa distâncias, com capacidade para até 13 galões de água (quase 50 litros).

A exposição de 2007 foi uma prévia para esta iniciativa mais ampla, sobre cidades inteiras, que não podia ser em momento mais oportuno: vivemos em uma era de migração urbana sem precedentes. Smith menciona o bilhão de pessoas vivendo em instalações informais, ou favelas. Este número é projetado para ser o dobro em 2030 e o triplo em 2050, de acordo com o Human Settlements Program da ONU. Até lá, uma em cada três pessoas do planeta vão supostamente estar vivendo em favelas do Brasil, barrios do Equador, instalações improvisadas da África do Sul, bidonvilles da Tunísia ou chapros do Nepal – as denominações são quase infindas tal qual o número destes lugares vastos, não-planejados e empobrecidos.

Smith passou alguns anos observando o que os designers têm feito para melhorar as condições de moradia nestes locais. Como em Bang Bua, uma lição parece surpreendentemente óbvia: a necessidade de solicitar às pessoas vivendo na pobreza para criar suas próprias soluções. Em tantas favelas – Dharavi em Mumbai, Índia; Corail em Bagladesh; Cape Town, África do Sul; e em cidades americanas também – as pessoas são deixadas de fora do processo. Mas processos de renovação urbana sempre funcionam melhor quando partem de baixo, e não de cima.

“As comunidades carentes”, coloca o diretor fundador da Asian Coalition for Housing Rights (Coalizão Asiática para os Direitos de Moradia) no catálogo da exposição, “são os criadores e implementadores dos sistemas mais compreensivos e de longo alcance para solucionar problemas de pobreza, moradia e serviços básicos”.

Diadema

Assim, em Diadema, uma enorme cidade industrial nos arredores de São Paulo, no Brasil, 30% da população costumava viver em favelas durante os anos 1980, quando as taxas de homicídio estavam nas alturas. O governo então se voltou para os moradores em busca de conselhos, pedindo que definissem prioridades para o orçamento da cidade, sugerissem upgrades para os bairros e aprovassem projetos de construção, que empregavam trabalhadores residentes nas próprias comunidades.

A imagem (à esq.) mostra o retrato de Diadema, São Paulo, antes e depois do amplo desenvolvimento

Um programa de posse de terras deu aos moradores o direito de permanecer em suas propriedades durante 90 anos, encorajando-os a manterem suas casas e investirem nos bairros da região. A comunidade ajudou a alargar e pavimentar ruas, instalar sistemas de saneamento e água potável. Hoje, de acordo com Cynthia Smith, 3% dos moradores de Diadema vivem em favelas, e a taxa anual de homicídio – uma medida padrão de ordem cívica e saúde pública – caiu para 14,3 em cada 100 mil, de seus altos 140 durante os anos 1990. 

A curadora também inclui na exposição o indispensável livro com o caso de Medellín, na Colômbia, já denominada capital mundial de cartel de drogas, assassinatos e desespero. Lá, líderes políticos progressistas, há cerca de uma década, decidiram investir fortemente nas piores favelas, construindo um sistema de bondes para ligar o centro da cidade às áreas isoladas, dominadas pelo crime, que cobriam as colinas ao redor. Novas bibliotecas e parques, escolas públicas e passagens para pedestres foram construídos ao redor dos pilares do sistema de transporte, para que a arquitetura pública mais bonita e ambiciosa da cidade adentrasse os bairros mais carentes. Medellín se tornou um lugar transformado.

 

Os subúrbios da cidade colombiana de Medellín após a construção de uma infraestrutura para os moradores e fácil transporte ao centro da cidade

Em Dakar, no Senegal, designers trabalhando com líderes de comunidades desenvolveram um sistema de irrigação para reciclar a água dispensada na populosa favela de Yoff. E em La Vega, uma das comunidades instaladas nas íngremes ladeiras ao redor de Caracas, Venezuela, um grupo de arquitetos, engenheiros e geólogos, novamente seguindo sugestões dos moradores, projetaram uma série de novas escadas, praças e espaços públicos, para que as intransitáveis colinas se tornassem administráveis – bairros foram ligados e ninguém foi forçado a sair de suas casas.

O projeto aplicado em La Vega (à esq.), na Venezuela, também seguiu sugestões dos moradores locais 

Fui comovido por um mapa na exposição que localizava 238 escolas em Kibera, aquela comunidade densa em Nairobi, que ocupa um território menor que o tamanho do Central Park (em Nova York). Eu me lembro de descobrir um similar e espantoso número de escolas e universidades em viagens à Gaza. Smith aponta o caso de Pune, uma das muitas cidades da Índia que passaram por um boom populacional, onde trabalhadores constantemente se mudavam de uma instalação informal para outra, seguindo projetos de construção – e levando suas famílias com eles. Como conseqüência, seus filhos frequentemente não ingressavam na escola.

Em resposta, um grupo de designers decidiu, há uma década, trazer as escolas a eles, através de ônibus equipados com classes para 25 alunos, que os pegam nos locais onde moram. Os alunos recebem manuais à moda antiga que mantêm atualizado o progresso acadêmico de cada um e ainda listam telefones de contato para centros de educação na região de Pune (uma segunda rede de ônibus está na região de Mumbai) para que, quando as crianças se mudam, seus pais possam encontrar escolas nos novos bairros e os professores podem então retomar de onde os alunos haviam parado.

Pura simplicidade.

Um último exemplo, de Bangladesh: Mohammed Rezwan, um arquiteto local, desenvolveu “community lifeboats” (“barco salva-vidas da comunidade”), que servem como escolas flutuantes, bibliotecas e clínicas de saúde. Com os níveis do mar aumentando, quase 20% da terra lá é prevista para estar embaixo d’água até 2050. Ao nível do mar, Ganges-Brahmaputra Delta, a maior densidade populacional do planeta, vai alagar. Trabalhando com construtores de barco nativos, Rezwan adaptou tradicionais embarcações fluviais para criar a sua Arca de Noé: ele equipou os barcos com tetos à prova d’água e painéis solares, instalou computadores, internet de alta velocidade e lâmpadas solares portáteis feitas de lanternas de querosene recicladas. Materiais tradicionais, técnicas locais de construção e fontes de energia renovável produziram um modelo de design contextual.

‘Community lifeboats’, desenvolvido por Mohammed Rezwan, em Bangladesh (acima e à esq.): as escolas se adaptam aos alagamentos da região 

 

 

 

 

 

 

 

Espero poder logo conhecer pessoalmente esta embarcação e também algumas outras cidades que a exposição celebra, para ver em primeira mão como os projetos estão indo. Por enquanto, apurei que há hoje 54 barcos de Rezwan em operação em Bangladesh, servindo 90 mil famílias.

E isso também é coisa de guru do design.