“Só notamos o design quando ele falha”, diz Sagmeister

Stefan Sagmeister fez um poster com cicatrizes em seu próprio corpo para divulgar palestra em congresso do American Institute of Graphic Arts, em Detroit, em 1999

 

 

Criatividade, irreverência e felicidade são palavras diretamente ligadas ao trabalho do designer  Stefan Sagmeister. Referência na área de criação, com diversos prêmios por seus projetos, o austríaco vai se apresentar em Porto Alegre, no dia 13 de junho (Hotel Sheraton, às 19h30), para falar sobre vocação e como o design  pode fazer as pessoas mais felizes.

Como forma de aplicar esse estilo de vida, ele tem o costume de, após sete anos de trabalho, tirar um ano sabático para viajar, aprender e criar relações. Os frutos disso são, além de uma experiência mais intensa, o reconhecimento internacional, a participação em ações de grandes marcas como Levi’s, HBO, Adobe e Red Bull, e a produção de capas de álbuns de bandas e artistas  como Lou Reed, David Byrne, Rolling Stones, OK Go e Aerosmith.

Antes de falar ao público brasileiro, Sagmeister, trazido pela Will Meeting School, Agência Matriz e Altos Eventos, contou para EXAME.com um pouco do que pensa sobre a relação entre felicidade e design. 

Confira a seguir.

Como design e felicidade estão relacionados?

Stefan Sagmeister – Cada profissão, na verdade, cada ato que eu pratico está, de alguma forma, relacionado com felicidade. Há uma famosa citação do matemático francês Blaise Pascal que diz que mesmo a pessoa que se suicida faz isso porque pensa que isso vai fazê-la mais feliz, isto é, ela estará melhor morta. Então é claro, isso provado, felicidade também é relacionada a design: posso ser mais feliz como um designer? Posso fazer outras pessoas felizes com meu design?

Um produto de design pode fazer alguém mais feliz?

Sagmeister – Atualmente mais de 50% da população mundial vive em cidades. Para essa parte da população, TUDO em volta dela foi desenhado, desde as lentes de contato até as roupas, a cadeira, o quarto, a casa, a rua, o parque, a cidade. Esses ambientes projetados desempenham exatamente o mesmo papel para o morador da cidade que a natureza faz para um indígena vivendo em uma floresta tropical.

Eles podem ser bem ou mal desenhados. Eles vão fazer a diferença.

Claro que há muitos produtos por aí que fazem nossa vida mais fácil, mas nós tendemos a percebê-los quando eles falham gravemente. Eu posso estar em um avião decolando e ignorar completamente o fato que ele é realmente um incrível pedaço de design. Eu irei perceber isso quando nós cairmos.

Em 1999, o senhor fez um anúncio em seu próprio corpo, onde as informações foram escritas com cicatrizes. Eu acredito que isso foi doloroso. Isso poderia também ser relacionado a ”felicidade”, mesmo que significasse dor?

Sagmeister – Bem, nós fizemos aquele pôster como uma reação a todas as palestras de design que fingem que todos nós estamos em uma profissão colorida e feliz. Eu quis mostrar que há também alguma ansiedade e medo em torno de nossa profissão. Então, não, aquilo não teve a ver com felicidade. Nós provavelmente poderíamos ter “photoshopado” o poster AIGA Detroit, em vez de cortar as letras em minha pele. Eu acho que os resultados são mais autênticos e o processo mais interessante (e doloroso).

O senhor ainda tem as cicatrizes?

Sagmeister – Não, também foi bem curado, eu tenho a pele muito saudável.

O conceito de “felicidade” é algo muito particular para cada pessoa. Então, como o design pode atingir o maior número de pessoas e fazê-las felizes?

Sagmeister – Eu tenho um conhecido que está trabalhando duro em um aplicativo que refina as descobertas de pesquisa sobre felicidade em um mix diário de agenda, tarefas e jogos. Eu acho que isso tem uma chance. Ele será publicado em 3 ou 4 meses.

 

Fonte: Exame; Luciana Carvalho

http://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/noticias/so-notamos-o-design-quando-ele-falha-diz-sagmeister