“Só tem espaço no Brasil o designer que faz cadeira e mesa”, diz Brunno Jahara

 

 

A porta amarela do nº 680, em uma rua barulhenta do bairro de Pinheiros, em São Paulo, chama atenção. O que muitos não imaginam, no entanto, é que o sobrado de três andares é o endereço de um dos designers brasileiros mais promissores no momento.

Seu nome é Brunno Jahara e, há apenas dez anos no mercado, já produziu coleções exclusivas de tecidos, utensílios e luminárias para marcas como ViaLight e Saint James, além de ter exposto nas principais mostras do mundo (Feira de Móveis de Milão e Semana de Design de Amsterdã, por exemplo).

Sua mais recente aposta é uma linha de louças com 30 peças em porcelana para a centenária marca portuguesa Vista Alegre. “O mercado brasileiro já começa a valorizar o design de produto. Mas estou trabalhando também na área de mobiliário, porque aqui só tem real valor quem possui cadeiras e mesas no portfólio”, afirma Jahara, em tom de lamentação.

Propor estéticas inovadoras e trazer expressividade aos objetos são marcas registradas no trabalho do designer carioca de olhar atento e voz acelerada. Tecidos, louças ou luminárias, não importa a proposta, o relevante é investir em peças que se comuniquem e surpreendam os consumidores comnovas formas e texturas.

Na coleção Transatlântica, da Vista Alegre, por exemplo, Jahara propõe misturar culturas e ressaltar belezas naturais, sem deixar de fora realidades ligadas à violência e pobreza.

“A linha da marca portuguesa é de alto luxo e, mesmo assim, ele conseguiu abordar temas ligados à marginalidade de forma delicada”, afirma Roberto Concenza, diretor criativo da ViaLight.

“Brunno consegue mostrar agressividade sem caráter apelativo. É um trabalho impactante”, completa o diretor, para quem Jahara desenvolveu a luminária Batucada. “Ela é um destes produtos de forte apelo no exterior e que apresenta foco na sustentabilidade. O que só alguém que entendesse o design nacional e tivesse forte conexão com outros países conseguiria fazer.”

A maturidade profissional de Jahara e suas referências culturais são aspectos sempre ressaltados pelos fabricantes. “Ele entende o DNA da marca, faz uma investigação criteriosa da proposta, abusa de criatividade e mostra consistência no processo criativo”, diz Nuno Barra, diretor de marketing e design da Vista Alegre.

 

“É um profissional muito versátil, que faz objetos além do comum e se adapta facilmente a ideias fora de seu repertório ”, afirma Ricardo Saad, diretor da Saint James. Tamanha capacidade de se relacionar com propostas e culturas diversas torna o designer multifacetado.

E essa característica fica evidente em seu estilo de vida. Ele não para um minuto. Sempre atento, envolve-se em vários projetos ao mesmo tempo, coordena equipes de produção, profissionais terceirizados e ainda arruma espaço na agenda para conferir as novidades do circuito alternativo de Pinheiros. “Sempre visito a feirinha da Benedito Calixto para me inspirar com novos materiais e produtos”, diz.

Jahara se destaca também pela busca constante da inserção de conceitos sustentáveis ao longo do desenvolvimento dos produtos. Reaproveita materiais e valoriza processos pouco danosos ao ambiente. “Analiso sempre o impacto do material na indústria e dou prioridade aos reciclados.

Não tenho preconceito com nenhum tipo de matéria-prima e aprecio novidades”, diz. “Tanto que estou envolvido na pesquisa de materiais biodegradáveis, algo que acredito ser o novo caminho”.

A linguagem voltada ao reaproveitamento leva o designer à maior proximidade com artesãos do Rio de Janeiro e São Paulo, onde tem estúdios. “Quando preciso criar busco a tranquilidade e a proximidade com a natureza no Rio. São Paulo é mais para produzir”, explica.

Um profissional cosmopolitaA ligação de Brunno Jahara com o mercado internacional e a fluidez do desenho que produz são aspectos relacionados à sua trajetória de vida. Logo aos oito anos, o designer saiu do Brasil com a família (a mãe é ex-modelo e o pai engenheiro) para morar em países como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e Holanda.

O primeiro contato com Milão foi aos 16 anos, quando viu de perto a cultura italiana e a preocupação em estabelecer qualidade no design. A obsessão por produtos fez que estudasse design na Universidade de Brasília e no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza.

O início de sua carreira aconteceu em um estágio no Centro de Comunicação e Pesquisa da Benetton, trabalhando junto ao designer espanhol Jaime Hayon.

A crise europeia e a grande evidência do Brasil no cenário internacional contribuíram para o retorno do jovem profissional em 2010. A bagagem cultural adquirida e as influências de grandes nomes como Sergio Rodrigues, Oscar Niemeyer e Andrea Branzi consolidaram o trabalho de Jahara.

Hoje, aos 34 anos, ele se prepara para lançar móveis na Wallpaper, além de um sistema de iluminação para uma marca italiana e uma pequena coleção para a Tok&Stok. Mas não é só isso.

O perfil do estúdio tem se voltado cada vez mais ao mercado corporativo – já fez protótipos de objetos para a Audi e deambientes para a Heineken –- e ele não hesita em se aventurar por novos mares.

“Agora planejo um bar para a Jack Daniels e converso com a Puma. No Brasil, ainda sinto falta de um sistema completo de design. É preciso que diversas áreas trabalhem juntas e formem um modelo integrado com os fabricantes, diz o designer.

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