A mãe de todos os negócios

Por Christian Ullmann

Olhar a indústria brasileira desde a ótica da sustentabilidade é enxergar muito mais do que uma sucessão de processos e estratégias comerciais. É construir uma cultura contemporânea onde todos ganham, apostando num modelo de negócios inclusivo, estimulando a indústria local e projetando as características da cultura brasileira no mercado global.

A mãe de todos os negócios. É assim que a sustentabilidade está sendo considerada no novo modelo comercial. Pesquisando em revistas e jornais específicos de negócios, encontrei algumas matérias bem interessantes e exemplares.

A oportunidade de novos negócios nesta primeira década do século XXI está sendo a sustentabildiade. Os setores de energia, eletrônico, automotivo, florestal, alimento, industria (têxtil, mobiliário, etc), e até de serviços nos eventos estão utilizando esta estratégia para crescer. A sustentabilidade entrou nas empresas como ações isoladas de marketing e hoje está cada vez mais incorporada no centro da estratégia, influenciando executivos e acionistas. O futuro está sendo delineado e o mercado ficará diferenciado entre as empresas socioambientalmente responsáveis e as que seguem o velho modelo de desenvolvimento.

A bolsa de Nova York tem a Dow Jones Sustentability Indexes, índice que reúne empresas socialmente responsáveis do mercado. A bolsa de São Paulo lançou a Bolsa de Valores Ambientais e Sociais, como uma iniciativa social para levantar fundos para organizações não-governamentais, sendo reconhecida pela Unesco como primeira do gênero no mundo.

E tudo vira negócio. Por exemplo: no setor bancário, um grupo de dez dos maiores bancos internacionais, entre eles ABN e Citigroup, criou um conjunto de regras socioambientais para concessão de crédito. Por trás destes nobres princípios, o que mais pesa é o negócio. Afinal, o risco ambiental e social das empresas que buscam crédito causa impacto diretamente na sua capacidade de pagamento. Portanto, empresas não sustentáveis representam uma ameaça ao lucro das instituições que emprestam dinheiro.

O mercado internacional de móveis deu dois sinais importantes neste primeiro semestre. Em maio, a Neo Com (feira internacional do setor de escritórios, em Chicago) e o Salão Internacional do Móvel de Milão (em abril de 2007). Na semana da Feira Internacional do Móvel, a cidade de Milão recebeu mais de 300 mostras que formam o circuito FuoriSalone. Destas, mais de 70 formaram o 1º Circuito de Design Sustentável – BEST UP, Bello equo e sostenibile. Dentro do Circuito de Design Sustentável havia produtos brasileiros desenvolvidos por jovens designers em parceria com comunidades carentes, empresas, instituições de ensino com apoio de instituições de fomento e empresas brasileiras que acreditam neste novo mercado.

Já a empresas que participaram da EUROLUCE introduziram no mercado uma nova geração de produtos de menor consumo de energia para uso residencial e comercial como: Leds (diodos emissores de luz), fluorescentes miniaturizados e sistemas de controle de presencia inteligentes.

Uma lâmpada de trabalho com tecnologia de diodo emissor de luz pode durar até 50.000 horas contra umas 2.000 horas de uma lâmpada halógena. Na Feira Neo Con não faltaram as soluções inovadoras. Num mercado que evolui com base na tecnologia, os novos escritórios ou workplace (como foram apresentados na feira) refletem as reais necessidades ao projeta espaços planejados, compactos e sustentáveis. Entre as soluções apresentadas estão cadeiras e mesas empilháveis,que permitem transportar até 15 unidades empilhadas, iluminação por fluorescentes compactos e Leds de baixo consumo e temperatura fria.

No setor têxtil, a São Paulo Fashion Week – nos seus desfiles de outono/inverno e primavera/verão 2007/08 – utilizou o diferencial da sustentabilidade para a realização do evento, desde a comunicação até as empresas participantes que, aos poucos, incorporam este diferencial nos seus lançamentos. Na edição de inverno, Fause Haten misturou seda com tecido de PET reciclado; a UMA desfilou tecidos orgânicos a Osklen utilizou couro de tilápia, seda e lã orgânica e lâminas de látex natural; Rolando Fraga criou peças de sarja ecológica; e Jefferson Kulig experimentou com fibras de tururi, adquiridas de uma comunidade ribeirinha, do sul do Pará. Na edição de verão, a organizadora realizará a plantação de 4500 árvores para neutralizar os efeitos poluentes do evento. E a energia utilizada será gerada a partir de biodiesel, que reduz em 70% o consumo.

A indústria de cosméticos está adotado estratégias sintonizadas com a sustentabilidade. Cito o uso de refis nas embalagens (alguns chegam a consumir até 50% a menos matéria-prima que as embalagens convencionais) e materiais menos poluentes como o Arbofill ( polímero com lignina de origem vegetal).

No setor de papel e celulose, praticamente toda a cadeia produtiva já possui a certificação florestal FSC. Isto se iniciou como uma resposta às pressões de compradores externos e à preocupação do consumidor em relação aos impactos socioambientais da produção florestal. Hoje, o foco é crescer no mercado interno. E mesmo sem saber, consumimos produtos certificados FSC tais como materiais de construção, móveis, objetos de decoração, utensílios domésticos, materiais escolares, cosméticos, além de livros e alimentos.

E para os que gostam de números, a fabricante de bebidas AmBev fez uma mudança simples no design das garrafas de refrigerantes de 2 litros e com ajuda da tecnologia conseguiu reduzir a quantidade matéria-prima. O resultado chega a 650 toneladas de PET a menos por ano.

O design com orientação sustentável está se tornando um diferencial competitivo para as empresas brasileiras, ajudando-as a economizar matéria-prima, a partir do redesenho dos produtos, mudar hábitos de comportamento, incorporar tecnologia, criar novos canais de comercialização e, também, possibilita melhorias à imagem das empresas.

Por meio destas iniciativas e práticas empresariais, que realmente geram mudança, está sendo realizada uma revolução silenciosa, onde empresas, ONGs e governos, junto com os cidadãos engajados, criam o que hoje já são as massas minoritárias que exigem e provocam estes câmbios. Isto prova que mesmo a atitude de uma só pessoa faz a diferença na mudança e no desenvolvimento social e econômico de todos os povos em todos os continentes.

Olhar a indústria brasileira desde a ótica da sustentabilidade é enxergar muito mais do que uma sucessão de processos e estratégias comerciais. É construir uma cultura contemporânea onde todos ganham, apostando num modelo de negócios inclusivo, estimulando a indústria local e projetando as características da cultura brasileira no mercado global.

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