A Moda referenciada na História do Design: afirmação de uma atividade projetual.

Por Editor DesignBrasil

O artigo analisa o processo de surgimento do sistema da moda do ponto de vista da história do design com o intuito de legitimar o seu papel dentro da atividade projetual fazendo com que esta não seja mais encarada como anexo no que referencia ao acadêmico e sim como umas das mais precursoras atividades na trajetória do design durante a formação do período industrial.

É perceptível atualmente um movimento maior da produção teórico científica de moda nos nichos intelectuais de design. Tal mobilização vem conseguindo trazer uma extensa conscientização sobre a importância da profissão do designer de moda, ao frear o preconceito abusivo, gerado pelo contexto fútil em que esta é envolvida – devido a sua intensa massificação em que os profissionais da área são em vezes submetidos frente às demais atividades projetuais, de caráter menos volúvel.

Infelizmente, os conceitos pré-estabelecidos de divisões de gênero referentes à profissão, e a vulgarização da palavra moda em diversos contextos ligados à frivolidade, acarretam aos profissionais e estudiosos o estigma de atividade mundana feminina e à parte do processo. O vestuário por ser um setor primordial no desenvolvimento do design, gerou o seu próprio sistema, ligado a mudança brusca e efemeridade, para um público burguês e em seu maior consumo feminino, que é a Moda.

Dessa maneira o pensar masculinizado da sociedade contemporânea tende a segregar a produção da moda esquecendo da sua raiz histórica e mais ainda, desvalorizando os seus métodos de circulação nos meios, como nos figurinos das telenovelas e filmes, catálogos, revistas, desfiles, editoriais e etc. Ela passa a ser um sistema de fornecimento para principalmente, e não exclusivamente, o público feminino e devido a repulsa a esse contexto ainda presente no seio intelectual, tem a sua posição ilegitimada.

No sentindo de elucidar pura e simplesmente, busca-se a história para explanação dos fatos. A mesma divisão e ruptura existente entre o design e o artesanato onde um passa a projetar e o outro somente a produzir, sendo esse um dos marcos de caracterização fundamental do design, acontece na moda. Por volta de 1857, surge a alta-costura e a figura de um criador pela pessoa de Charles-Frédéric Worth, que vem a distinguir- se dos executores, alfaiates e costureiros,iniciando um processo de reelitização, frente à democratização do vestuário gerada pelo progresso industrial das confecções que permitiam à facilidade das cópias.

Segundo Denis (1999) a industrialização primeiramente impulsionou-se com a fabricação de tecidos de algodão. O quase monopólio do comércio exterior que a Grã-Bretanha exerceu entre 1789 e 1815, possibilitou-os a praticamente sozinhos comercializarem em todo o mundo produtos como tecidos, chás e louças, que trocados por escravos utilizados na plantação de algodão em países como Estados Unidos e Brasil, estimulava a indústria britânica a produzir mais e mais tecido.Uma vez exportados, retornavam ao ciclo, garantindo a cada novo intermédio um lucro exorbitante aos comerciários.

Essa produção da indústria têxtil na Inglaterra, ganhou tamanhas proporções que atingiu custos baixíssimos de execução, tornando-se acessíveis a uma grande classe de consumidores que antes jamais pensavam em adquiri-los. Essa situação inicia a era dos artigos de luxo, fruto da diferenciação que as mercadorias tinham que obter para atender ao público mais elitizado e sedento por distinção em relação a seus pares.

Com a evolução dos processos de mecanização nas indústrias têxteis, quem mais lucrava era o designer que ao projetar um único padrão decorativo de custo fixo, este sendo bem sucedido, podia ser veiculado e reproduzido de maneira ilimitada, fazendo desse setor um dos primeiros a se observar notável o emprego do profissional.

A facilidade na reprodução gerou para a indústria o problema do plágio onde qualquer um poderia imitar o projeto tirando proveito do design alheio. Surgem assim as leis de patente e a figura do "designer" e da "marca", elevando o sentimento do desejo no consumidor e portanto o impulsionamento da compra.

A imitação inicialmente promovida pela burguesia, classe em ascensão detentora de lucros, ávida por mostrar seu poderio, acontece no vestuário quando essa passa a querer se vestir de maneira semelhante à aristocracia, de títulos, aparência e iniciada decadência econômica. A elite para não se ver esteticamente igualada, renova a sua aparência, lançando outras tendências, garantindo a sua posição social e hierárquica, iniciando o ciclo da moda.

Segundo Lipovestky (1989), "a moda também viria a servir como a expressão dos valores da cultura moderna, sendo o ideal e o gosto das novidades próprias da sociedade que se desprendem do prestígio do passado", servindo tal afirmação para salientar que a origem da inovação não é somente uma característica social, é também intrínseca ao ser humano da sociedade moderna.

Dessa maneira o sistema da moda lança seus primeiros meios de difusão dos fenômenos, ao utilizar inicialmente retratos pintados e bonecas que se difundiam da França em direção aos outros países da Europa e centros do mundo. Mecanismo caro, surge posteriormente, no final do século XVIII, o journal de mode, dando margem ao aparecimento de revistas ilustradas com desenhos de modelos, que seriam adaptados e usadas geralmente pelas mulheres da alta burguesia.

Era corriqueiro também segundo Caldas (2004), até o século XIX, os magasins de nouvautés (lojas de novidades) onde eram distribuídos os artigos de moda na capital, que depois através da figura do caixeiro-viajante, tinham suas novidades como amostra de tecidos e aviamentos, levadas para as clientes abastadas do interior do país.

Mas esse primeiro momento ainda não marcou a massificação da moda como a temos hoje. Após a segunda guerra mundial, a aceleração tecnológica das industrias possibilitou a área têxtil maior produção, e a resolução de problemas como a grade de tamanhos para fabricação em larga escala, facilitou a produção da roupa de qualidade em quantidade. Nasce assim o estilo americano de se fazer roupa, o ready-to-wear (pronto para vestir) traduzido e popularizado pelo francês prêt-à-porter.

Surge assim um profissional que vem trazer a empresa o diferencial do estilo, da grife, da roupa com assinatura, produzindo, no entanto, em série: o estilista industrial. Este é caracterizado por ser seguidor de tendências, adaptando-as ao estilo do empreendimento que trabalha. Desenvolve-se então, um mecanismo industrial da moda com os birôs de estilo, o consultor de moda , os salões profissionais, revistas e todo um contexto midiático.

O prêt-à-porter vem a ocupar o espaço da alta-costura, pela inacessibilidade de custo dessa ultima e pelo aparecimento das butiques, que trazem um conceito de modernidade jovem e sofisticado, comandando pelo novo estilista-criador (criador de moda), que desenvolve coleções prêt-à-porter com seu estilo pessoal.

Percebe-se pois, que o que entendemos e vemos circular a respeito da moda são seus mecanismos de venda e de produção, fruto do seu próprio sistema, caracterizado pela efemeridade. A imagem primeira dos costureiros e alfaiates, depois do grande criador da alta-costura, do estilista industrial e mais recente do estilista criador, mostra a complexidade da estrutura e das necessidades que o consumo da moda criou.

Após a derrocada da alta-costura, o designer de moda (como generalizadamente entende-se hoje de acordo com o senso-comum) surge apontando seu papel dentro da atividade projetual que por preconceitos, e principalmente no Brasil, não é legitimado da mesma maneira como as outras variantes. Além disso, o fato de existir poucas academias especificamente de moda, possibilitando o estudo da sua história e do seu desenvolvimento produtivo, dificultou a transmissão dos saberes como algo não frívolo e sim de sistema efêmero com relevante importância na trajetória do design.

Até o final do século XIX, a vestimenta masculina era tão extravagante e impetuosa quanto a feminina. Após a Revolução Francesa há uma intensa simplificação da roupa de ambos os sexos que se mantém constante no vestuário masculino, mas que volta a exercer durante a Belle Époque, para a mulher, o caráter de ostentação. A figura do homem de negócios, ocupado demasiado para preocupações vestimentais corriqueiras, casa perfeito com a esposa ociosa burguesa, que vê no consumo da moda um tipo ideal de lazer.

Interessante notar que é nesse período, como já visto anteriormente, que a moda começa a lançar os seus mecanismos de venda e de circulação, definindo para isso um público-alvo, mas não exclusivo, atendendo a essa camada mais propicia a compra. Isso quer assinalar que a generalização adversa ao fenômeno, é um preceito advindo das sociedades modernas, devido ao extremo consumo feminino durante os cem últimos anos.

Diante disso propõem-se uma maior firmação de espaço por parte dos designers de moda, seja essa prática, teórica ou discursiva, para que a profissão passe cada vez mais a ser vista não como projetora de futilidades para distração feminil, mas como um ofício que impulsiona o processo que o design hoje está inserido da mesma maneira que outras atividades projetuais gráficas ou de produto( ou ainda arquitetura, engenharia e artesanato), pois contempla e democratiza com o vestuário e seus acessórios todas as esferas sociais ao agregar à sua funcionalidade as razões do pudor, do adorno e da proteção.

Referências Bibliográficas

CALDAS, Dario. Observatório de Sinais: teoria e prática da pesquisa de tendências. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2004

DENIS, Rafael Cardoso. Uma introdução à história do design. São Paulo: Edgard Blücher, 2000.

LIPOVETSKY, Gilles. Império do Efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. Tradução por Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.