A reinvenção da profissão design

Por Ellen Kiss

A predisposição para o questionamento e a exploração alcançada pelo designer são fundamentais para a inovação e consequentemente a sobrevivência no mercado atual.

Inove ou morra! Esta frase vêm sendo repetida inúmeras vezes – pela mídia, governantes, líderes empresariais, professores, consultores e gurus em administração. Além disso, a atual literatura mundial de marketing e negócio/negócios está repleta de frases similares a esta. A ênfase em inovação ocorre principalmente em função de um mercado cada vez mais globalizado e competitivo, onde consumidores são menos fiéis e bombardeados por uma mídia maciça. Empresas descobriram que, para se diferenciarem de seus concorrentes, não basta somente utilizar o recurso da propaganda; elas devem inovar. Inovação passou a ser uma palavra muito discutida, porém ao mesmo tempo vaga. Relatórios anuais das grandes empresas estão repletos de afirmações reforçando que inovação é uma prioridade. Diversas corporações lutam para tornar a idéia da empresa inovadora uma realidade. No entanto, somente algumas atingem este objetivo. As empresas sabem que devem fazer algo a respeito, mas não descobriram exatamente o quê. Ao mesmo tempo, agências de design são citadas por vários autores, incluindo Tom Peters, como sendo especialistas em inovação. Isto porque designers possuem características em seu processo de trabalho, como o uso de times multidisciplinares e baixo grau de hierarquia, que conduzem à inovação. Considerando os aspectos que favorecem a inovação: atitude positiva ao assumir riscos, experimentação, foco no consumidor e desafiar paradigmas, é possível notar que estes não são os conceitos promovidos dentro de uma grande corporação. Em compensação, designers são treinados para isso. Portanto, as habilidades de um designer são essenciais para empresas que buscam um aumento na sua performance de inovação. Dentro deste cenário, uma grande mudança conceitual está sendo percebida no cenário internacional. Esta mudança ocorre tanto por parte das empresas, como por parte das profissionais de design. As funções estão sendo reavaliadas e as profissões repensadas. Para isso, é fundamental que as empresas priorizem o design e o insiram na alto gerenciamento. E igualmente necessário que as agências de design busquem um envolvimento não só nas questões estéticas, mas sim assumindo uma postura mais estratégica. Historicamente o design foi gerenciado através de duas perspectivas: Bottom up ou Top down. Sob a perspectiva mais antiga, chamada de Bottom up, o designer é envolvido somente como parte de um lançamento de produto ou na criação de uma material gráfico para uma determinada empresa. Excetuando os casos onde existe um entendimento maior sobre design, designers são sempre chamados na etapa final do processo somente para fazer com que o produto pareça bonito ou vendedor. O problema desta perspectiva é que a real contribuição do design desafiando as afirmações e explorando novas alternativas deixa de existir. Além disso, frequentemente idéias e sugestões do profissional de design acabam implicando em um aumento do custo ou do prazo do projeto. Ao contrário do modelo anterior, a nova tendência mundial entre atuais profissionais e pesquisadores do design incentiva o gerenciamento sob a perspectiva Top Down. Esta nova visão permite que a experiência do designer, envolvido estrategicamente, possa contribuir de maneira efetiva para o projeto, questionando, desafiando e buscando um entendimento maior sobre a cultura e as ambições da empresa, antes de iniciar o eventual trabalho gráfico ou de comunicação. Segundo Bettina von Stamm, o design deveria ser visto como um processo ao invés de um produto final. A diferença entre a visão do design como produto final ou como uma metodologia e um conjunto de habilidades exercem grande influência na contribuição que o mesmo pode oferecer para a corporação. Desta forma, quando a profissão design passa a ser vista sob esta nova perspectiva, tanto a função quanto a possível contribuição do designer muda significantemente, abrindo possibilidades para a utilização de seus processos e habilidades em várias outras áreas da corporação. A predisposição para o questionamento e a exploração alcançada pelo designer são fundamentais para a inovação e consequentemente a sobrevivência no mercado atual. Como resultado destas mudanças, é também possível notar sinais no aspecto educacional nas duas áreas. Por mais que a disciplina design não seja considerada foco para a educação em negócios, estão de alguma maneira integradas aos principais MBAs internacionais através de matérias eletivas. Recentemente, este assunto foi destaque em um artigo na revista Business Week, sobre um MBA no INSEAD – França, onde estudantes de design e administração são alocados em conjunto. Da mesma forma, designers sentem uma grande necessidade de um melhor entendimento da linguagem de negócios, para que desta forma possam ser ouvidos e contribuir de acordo com seus potenciais. Isso pode ser comprovado através dos mestrados em Design Management em diversos paises, onde a maior parcela de alunos ainda é formada por designers. Concluindo, ainda vivemos um período de transição, mas certamente um próximo nível será alcançado, onde os potenciais de ambos as profissões serão complementadas em um modo mais inclusivo e deliberativo, buscando a maximização dos resultados de um trabalho em equipe levando à criação de uma disciplina mais inovadora.