A volta do Made in USA

Por Editor DesignBrasil

Me lembro a primeira vez que vi o termo “Made in China”. Na verdade nem era bem isso, mas sim Made in Taiwan, que meu pai rapidamente me explicou que se tratava de mais ou menos a mesma coisa (diga isso hoje a um chinês e você verá o que acontece). Mas os tênis de solado verde da Forward eram uma opção mais acessível para os pré-adolescentes do começo dos anos 80 frente aos super-bacanas, caros e Made in USA Converse All Star. Começava ali meu entendimento sobre o que era o mundo que em alguns anos passaria a ser conhecido por globalizado, e que depois serviu como um dos alicerces da minha formação como designer: a realidade da China com o viabilizador produtivo de qualquer coisa, a qualquer preço.

Há anos estamos acostumados a ver o Made in China em qualquer coisa que consumimos, de camisetas a TVs, de tranqueiras da 25 de Março a  iPhones. Isso sem falar das coisas que só conhece quem é mais técnico, ou quem é designer, como os ferramentais de injeção de plástico, os protótipos a preços inacreditáveis, os materiais de ponta mais baratos que os feitos na Alemanha.

Mas algo está mudando, como tudo neste ramo altamente volátil que é o da produção das coisas. Na minha última viagem à China eu já tinha percebido nas indústrias e nas ruas uma mudança clara de que a mão de obra excessivamente barata já não era o grande diferencial da China. Aliás, o que eu percebi nas outras vezes que por lá estive foi que a organização extrema e a minúcia oriental era mais impactante nos baixos custos do que a tão falada mão de obra quase escrava. Em tempo, não vi escravos por lá nenhuma das vezes.

Mas uma nova classe trabalhadora já estava optando por trocar as indústrias pelo ramo de serviços nas inúmeras metrópoles chinesas. Um trabalho mais leve, em ambientes mais adequados do que as obscuras fábricas e com um horário mais humano. Prova disso é que vários fornecedores que visitei estavam mudando suas empresas cada vez mais para o interior do país – com apoio do governo central – ficando mais perto da inesgotável massa de trabalhadores que buscava uma colocação.

E já não vemos com grande facilidade produtos Made in China, mas estamos nos acostumando a ver lugares como Bangladesh, India, Paquistão, Vietnã bordados nas etiquetas das camisas e tênis de marcas ocidentais. Mostra que sempre há uma mão de obra ainda mais barata em algum lugar do mundo. Vide as famosas camisas Polo Lacoste que há anos ostentam o Made in Peru na sua etiqueta do jacaré.

Mas algo mais significativo aconteceu muito recentemente, e isso tem muita coisa a ver com a atividade de design. Os novos iMacs da Apple, símbolos de excelência técnica lançados há poucas semanas, voltam a ostentar o Made in U.S.A. no seu maravilhoso e delgado corpo de alumínio. Não é o já conhecido Designed in California que nos habituamos a ver nos produtos Apple, mas sim de fato manufaturados nos EUA. O mesmo acontece com o Google Nexus Q, que mesmo carregando um preço de lista mais alto que a concorrência, trás estampado U.S.A. na sua descrição de origem.

Seria o mundo deixando a China de lado? Uma nova ordem mundial? Claro que não. A China continua crescendo mais do que qualquer país do globo, cada vez agregando mais valor a seus produtos, inclusive investindo maciçamente agora em marcas e design. É só dar uma olhada nas avenidas com lojas de automóveis para perceber como JACs, Cherys, Chanas entre outras estão ficando mais normais para a nossa percepção.

Vindo para mais perto para o nosso dia a dia de designers, estamos agora finalizando um projeto de um produto que será fabricado no Brasil para uma marca alemã, que é líder global na sua área. Ela não considerou a fabricação na China, apesar de possuir fábricas por lá. E o motivo é simples: já não fecha a conta fabricar lá para enviar para cá. Aliás, um mesmo produto é fabricado na China, na Alemanha e no Brasil. O que muda é o grau de automatização das linhas: mais robotizado na Alemanha, meio termo por aqui e praticamente manual na China. Mas o projeto bem concebido se adapta a qualquer uma das situações, gerando a melhor relação de custo em cada um dos casos, entregando um produto adequado ao usuário final, que na prática não precisa saber onde é que tudo foi montado.

O próprio case universal de produto de consumo, o onipresente iPhone, que trás na sua parte traseira o já citado Designed in California, Assembled in China, servindo de mostruário global de excelência asiática de produção, na verdade tem muito pouco feito de fato na China. Na verdade, é exatamente o que o produto diz: montado na China. Os chamadoskey components, isto é, aquilo que faz o produto único, tem fornecedores nos Estados Unidos, na Alemanha, na Inglaterra, no Japão, na Coréia entre outros. Apenas de 3,8% de valor é agregado na China, sendo que a parte mais polpuda do que é efetivamente valorado vai para países de economias muito maduras, ganhando muito em royalties e fabricação de componentes chave. O Japão por exemplo tem 34% e a Alemanha 17% no custo de componentes e montagem do famoso smartphone.

O resumo de tudo isto, e que impacta diretamente à comunidade do design no Brasil, é que precisamos mais do que nunca estarmos conectados ao globo. Apesar de o Brasil ser uma economia forte, nosso povo é pouco globalizado, fruto de um mercado interno e decommodities que ainda nos sustentam. Como designers, temos a responsabilidade de cada vez mais gerar conhecimento intelectual e através dele acionar uma cadeia global de produção, buscando oferecer produtos de alto valor agregado, idealmente com marcas brasileiras.

Projetos que considerem a integração efetiva da nossa capacidade criativa, com os anseios do nosso mercado consumidor tão peculiar, mas considerando o mundo todo como fornecedor em potencial. Isto é, Designed in Brazil and Assembled onde for melhor.