Adélia Borges

Por Editor DesignBrasil

“Chegou a hora de estabelecer intercâmbios mais efetivos com os outros países do nosso continente no que diz respeito ao design, e gostaria muito de colaborar nesse sentido”

Adélia Borges costuma se apresentar como jornalista especializada em design. A definição é insuficiente. A agora ex-diretora do Museu da Casa Brasileira (MCB) – deixou o cargo no final de maio – já transitou por diversas áreas do design nacional e internacional, seja como docente, curadora de mostras, escritora, palestrante e jurada de concursos, dentre outras atividades. Depois de quatro anos de gestão no MCB, seu mais novo desafio é o desenvolvimento de projetos de museus em São Paulo.
Graduada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Adélia tem uma longa trajetória editorial no setor. Durante seis anos foi redatora, editora e diretora da revista Design & Interiores, na qual editou mais de 30 números sobre todas as áreas do design no Brasil. Manteve uma coluna sobre design no jornal Gazeta Mercantil. Escreveu em revistas nacionais, como a Exame Vip, Ícaro, Projeto Design e Kazaa. Teve matérias em publicações internacionais como a alemã Form, a portuguesa Architécti e a coreana Design Journal.
Professora de história do design brasileiro na Fundação Armando Álvares Penteado, de São Paulo, ela acumula uma folha de serviços à bibliografia especializada do móvel brasileiro. É autora dos livros Cadeiras Brasileiras, de 1994; Prêmio Design Museu da Casa Brasileira, de 1996; “Maurício Azeredo – A Construção da Identidade Brasileira no Mobiliário, de 1999; Designer não é Personal Trainer, de 2002; “Claudia Moreira Salles – designer”; de 2005; e Sergio Rodrigues, de 2005.

A mineira de Cássia participou de vários júris nacionais e internacionais. Foi a única representante do hemisfério sul nos júris da Bio 14, Biennial of Industrial Design (Liubliana, Eslovênia, 1994) e do I e II International Design Prize of the State of Baden-Württenberg (Stuttgart, Alemanha, 1990 e 1992). Foi assessora especial da Curadoria do Masp no âmbito do design industrial e gráfico, membro do Conselho Diretor do Museu da Casa Brasileira e coordenou a editora de livros de design do extinto Laboratório Brasileiro de Design.
Dedicou-se ainda ao trabalho de curadoria, como as mostras Cadeiras Brasileiras, ao lado de Guinter Parschalk (Museu da Casa Brasileira, São Paulo, 1994); Brasil – Design de Mobiliário (Rio Design Center, Rio de Janeiro, e Espaço Mezzanino, Ribeirão Preto, ambas em 1995); Novos Alquimistas (Instituto Itaú Cultural); Maurício Azeredo (MASP); “Uma História do Sentar” (NovoMuseu, em Curitiba, atual Museu Oscar Niemeyer). Em Buenos Aires, no ano de 1988, organizou a exposição “O Design Industrial Brasileiro”, com a equipe da revista Design & Interiores.
Nessa entrevista exclusiva ao DesignBrasil, Adélia Borges fala um pouco sobre a sua carreira e faz um balanço do período à frente do MCB.DesignBrasil Seu interesse pelo design era uma inclinação já existente durante a graduação na ECA-USP ou surgiu ao longo de sua carreira? Como você se converteu numa profissional especializada nessa área de conhecimento?

Adélia Borges Desde pequena me interesso pelo objeto, pela maneira como é feito. Tenho seis irmãos, dos quais um é designer. Então, o interesse vem de muito tempo atrás. Quando entrei no jornal O Estado de S. Paulo, em 1972, fui responsável por fazer uma série de reportagens em várias capitais brasileiras sobre questões urbanas. Na visita que fiz a Curitiba fiquei muito bem impressionada com as realizações do então prefeito Jaime Lerner com seus projetos no campo do design urbano. Retomei o interesse profissionalmente em meados dos anos 80 ao entrar na revista Design & Interiores. Naquele momento, comentavam comigo: como você está numa revista de design se não existe design no Brasil? Na verdade, o design existia. O que não havia era comunicação sobre o tema. Foi muito bom poder começar essa comunicação sobre um tema tão importante e naquele momento tão carente de informação.Lançamento do livro “Designer não é personal trainer”, em Curitiba, 2002DesignBrasil Sua coluna na Gazeta Mercantil, que mais tarde deu origem à coletânea Designer não é Personal Trainer, apresentava um texto muito parecido a um colóquio com o leitor. Por que optou escrever para um público leigo? E como era a receptividade dos leitores que, pelo perfil do jornal, eram predominantemente da área empresarial?

Adélia Borges Foi uma decisão deliberada de escrever para o público leigo, pois na Design&Interiores o público era intramuros. Primeiro passei a escrever para revistas como Icaro, Vip Exame, Claudia, etc. , mas nesse momento vi que quem precisava ser “convencido” sobre design era o empresário. Foi então que procurei o diretor da Gazeta Mercantil. O formato de coluna, com um texto mais pessoal e informal, foi uma solicitação do meu editor, Daniel Piza. Esse formato permitiu um diálogo muito direto e através dele eu tive uma grande receptividade junto aos leitores, que sempre mandavam e-mails e se comunicavam comigo.DesignBrasil Qual foi seu primeiro trabalho de curadoria em exposições? Relate, de forma resumida para os visitantes do DesignBrasil, como funcionou o processo de curadoria de uma mostra que você considere seu trabalho mais relevante?

Adélia Borges A primeira foi justamente no Museu da Casa Brasileira. A equipe do Museu queria fazer uma exposição sobre cadeiras e juntou dezenas de exemplares, mas não sabia como escolher. Duas produtoras foram me procurar na revista Design&Interiores para dar um fio condutor para a mostra e escolher as cadeiras, ou seja, fazer a curadoria. Convidei o designer Guinter Parschalk para fazer o trabalho comigo. Na verdade, fazer uma exposição é quase como fazer uma reportagem. Só muda a mídia. Na reportagem, você escreve um texto e edita numa página. Numa exposição, você mostra esse resultado num espaço tridimensional. É difícil escolher uma curadoria mais relevante. Lembro neste momento de “Novos Alquimistas”, uma pequena exposição no Instituto Itaú Cultural, em 1999, em que reunimos objetos muito variados em torno da questão da reciclagem de materiais e produtos e do enfoque ecológico no design, unidos à poesia do projeto. O processo foi pesquisar quem trabalhava com isso no Brasil, em diferentes procedimentos e diferentes matérias-primas, e ver o que era mais candente ou com resultados mais interessantes para mereceram estímulo através da visibilidade oferecida por uma exposição. A mostra foi depois para Belo Horizonte e Rio de Janeiro, sempre com alto impacto junto ao público, o que se obteve principalmente pela sensível montagem da arquiteta Janete Costa.DesignBrasil Você já foi jurada de diversos prêmios nacionais e internacionais de design. Diante da diversidade e qualidade dos trabalhos, qual é o maior desafio nesse processo de seleção do “melhor” trabalho? Até que ponto a escolha é objetiva e subjetiva – por um mero gosto pessoal do jurado? Cite exemplos.

Adélia Borges Design não é ciência exata, tangível e mensurável. A escolha é fatalmente subjetiva, e depende muito da conjunção que se estabelece entre os integrantes de um determinado júri. No entanto, todo o esforço é feito para seguir critérios, formulados com clareza e atenção, de tal forma que a escolha saia do “gosto/não gosto”. Nos primeiros júris de que participei, ninguém falava do ponto de vista ecológico na hora de avaliar um produto. Hoje esse critério é considerado imprescindível em qualquer avaliação de produto. Para mim, ao longo dos anos, a equação tem se firmado em funcionalidade, inovação, aspectos formais bem resolvidos e respeito ao ambiente e ao ser humano de uma maneira geral. Ao fim e ao cabo, o bom design é aquele que melhora a vida das pessoas/de quem consome, de quem produz, etc. A melhor experiência de que participei de júri internacional foi em 1990 e 1992, quando o Design Center de Stuttgart convidou nove jurados, com nomes como o italiano Achile Castiglioni, o japonês Kenji Ekuan (chairman da GK Design) e o alemão-americano Hermut Esslinger (criador da Frog Design). Eu era uma aprendiz no meio daquelas feras, e além do mais era a única representante do hemisfério sul. Cada um indicava cinco produtos. Um dos que eu indiquei foi o projeto do Ligeirinho, de Curitiba. Castiglioni e eu coincidimos na indicação do espremedor de limão do Philipe Starck, mas perdemos porque prevaleceu o enfoque funcionalista dos alemães. Foi um aprendizado fantástico. Foto: Adélia Borges junto a obra Franz Weissmann. Foto Mariana ChamaDesignBrasil Você foi editora dos livros do Laboratório Brasileiro de Desenho Industrial. Como foi essa experiência? Na sua opinião, há espaço no Brasil para o ressurgimento de algo similar ao LBDI?

Adélia Borges A experiência foi rica e curta. Terminou prematuramente por falta de recursos. O LBDI prestou um enorme serviço ao design brasileiro. Promoveu seminários internacionais memoráveis em que pudemos nos conectar com os colegas estrangeiros e nos conhecer melhor também. Acho que o vazio deixado pelo LBDI ainda está por ser preenchido.

DesignBrasil Em sua gestão, a visitação do Museu da Casa Brasileira subiu 444% – de 20.089 pessoas em 2003 para 109.281 no ano de 2006. A que atribui esse aumento?

Adélia Borges Acabei de deixar a direção do Museu no final de maio, quando se completaram os quatro anos do meu mandato. Atribuo o aumento de visitação a uma série de fatores. O principal foi abrir as portas efetivamente à população, fazendo uma programação dinâmica e diversificada, em cima de um eixo muito preciso, que é o de um museu especializado em design e arquitetura. Outro fator que contribuiu para este aumento foi a implantação de um serviço educativo atuante, que trabalhou as questões suscitadas pelas exposições temporárias e pelo acervo junto aos estudantes dos diversos níveis, da pré-escola à universidade. Toda essa revitalização trouxe uma grande alegria para a equipe e um grande reconhecimento institucional ao Museu.Sergio Rodrigues e Adélia Borges no lançamento do livro da autora sobre o designer, em dezembro de 2005, em São PauloDesignBrasil Quais as principais ações tomadas em sua gestão no que concerne o acervo permanente do Museu da Casa Brasileira? Quais os principais desafios para que o acervo não apresente lacunas na história do design do móvel brasileiro?

Adélia Borges Por ordem cronológica, as principais ações foram a elaboração de um banco de dados sobre o acervo, a implantação de uma reserva técnica (a primeira que o MCB teve em sua história), a implantação de um serviço de pesquisa sistemático do acervo, a restauração de quase 60 peças, uma ação para ampliação da coleção, a reforma do espaço destinado à mostra e a edição de um catálogo de 100 páginas com as peças mais representativas. Acervos tridimensionais são muito difíceis, pois exigem uma grande área para exposição e guarda, o que não é o caso do Museu da Casa Brasileira. O edifício onde está o Museu é portentoso mas na verdade sua área é bastante pequena, o que limita muito a ampliação do acervo. Algumas lacunas conseguimos preencher nesta gestão com peças de nomes como Sergio Rodrigues, Michel Arnoult, Paulo Mendes da Rocha, e vários outros. Móveis importantes do período moderno brasileiro estão sendo exportados e vendidos a preço de ouro no mercado internacional. Corremos o risco de perder preciosidades mas para reverter este quadro é preciso uma ação mais ampla que envolva mais recursos e vontade política.DesignBrasil Em suas exposições temporárias, o MCB abriu espaço para o design clássico como também para as manifestações populares e anônimas. Por que essa opção?

Adélia Borges A meu ver a grande vitalidade do design brasileiro está nesse design anônimo praticado nas ruas. É preciso abrir os olhos do público erudito para essa imensa inventividade que tem muito a nos ensinar. O designer e arquiteto suíço Mario Botta disse que a melhor coisa que ele tinha visto até então no Brasil eram as peças expostas na mostra Design Popular da Bahia. Ele escreveu um belo artigo na revista Ottagono sobre estas peças. DesignBrasil O MCB já expôs mostras estrangeiras importantes como Clássicos de Rietveld, Inovações Suecas e Pratas Italianas. Que acervo inédito no país você gostaria trazer para o Brasil?

Adélia Borges Há muitas coleções importantes. É até difícil citar. As exposições ocorrem muito quando se dá a disponibilidade dos países em trazê-las. Nossas instituições públicas como o MCB não têm cacife para escolher. A precariedade é grande e o administrador cultural precisa driblá-las para conseguir algum resultado.

DesignBrasil O Museu da Casa Brasileira tem o mais respeitado prêmio do design brasileiro. Algumas mudanças foram feitas nos últimos anos, como a implementação do concurso de identidade visual, a prioridade a produtos lançados no mercado e a valorização da cadeia produtiva. Explique algumas destas mudanças e os resultados que o MCB vem obtendo?

Adélia Borges A principal mudança que fizemos foi incluir o produtor no recebimento do prêmio, de maneira a incentivar o empresário e não apenas o designer. São urgentes e necessárias as ações de aproximação entre estes dois profissionais que precisam um do outro, mas muitas vezes não se conhecem. O resultado obtido foi muito bom e pode ser mensurado pelo aumento no número de inscrições, que passaram de 333 em 2003 para 578 em 2006. Por decisão do Conselho Diretor, colegiado que teve poder deliberativo durante a minha gestão, também se instituiu uma homenagem anual a um representante do setor produtivo que se destacasse pelo investimento continuado no design. Assim, em 2004, os escolhidos foram os Móveis Teperman e Probojeto, ambos pioneiros na introdução do design no setor moveleiro. Em 2005, a Volkswagen foi eleita por ter desenvolvido inteiramente no Brasil o projeto do Fox. Em 2006, a escolha recaiu na Embraer, por sua excelência no design aeronáutico.

DesignBrasil Como observadora atenta do que acontece no design brasileiro, que comparação você faria entre o panorama atual e o de 10 anos atrás? Que tipo de evolução você tem percebido?

Adélia Borges O design brasileiro teve uma evolução fantástica na última década. O principal avanço foi a incorporação do design também aos produtos destinados às faixas C e D do mercado. Houve efetivamente uma democratização no acesso ao design em nosso país.Adélia, em mesa-redonda do evento Puro Diseno, em Buenos Aires, junho de 2004, com os designers e professores argentino Ricardo Blanco (esquerda) e o mexicano Oscar SalinasDesignBrasil Em sua palestra na conferência do Icograda, no ano passado, você falou de ações na América Latina que buscam a recuperação do sentido social do design. No Brasil, quais ações você destaca nesse contexto? A aproximação dos egressos das academias com o fazer popular é uma alternativa viável de trabalho para esses jovens profissionais? Por quê?

Adélia Borges É uma alternativa viável, sim, não só para o Brasil como para toda América Latina. Nessa região, o design nasceu de costas para o artesanato, ao contrário de países como o Japão e a Itália, em que a prática industrial se desenvolveu a partir da experiência artesanal. Na América Latina, as faculdades formaram um profissional para um mercado industrial diminuto e despreparado para absorvê-lo. A aproximação com o artesanato significou de um lado um enorme mercado de trabalho para o designer e, de outro, um tremendo in put aos artesãos. O objeto brasileiro reproduzido de forma artesanal ou semi-industrial ganhou muita competitividade com esse fenômeno.

DesignBrasil Se uma casa brasileira pudesse ser definida pelo design de seus produtos, cite 20 obras fundamentais na sua opinião que deveriam constar nesse lar (projetos de designers/indústrias brasileiras), da cozinha ao banheiro, passando pela sala e quartos?

Adélia Borges Esta pergunta tem resposta difícil, basicamente pelo desconhecimento do morador desta casa. Advogo um design sintonizado nas necessidades e desejos do usuário, que variam segundo a faixa etária, condição social, local de moradia etc. Além do mais, o design é um campo extremamente subjetivo, e o que conta na hora de ter um objeto é a relação que você estabelece com ele, menos até do que as qualidades intrínsecas dele. A casa principal de um país pode ser considerada aquela onde mora o líder escolhido pelo povo. Uma vez fui convidada para participar de uma comissão de indicação do que o Palácio da Alvorada deveria ter para expressar o melhor da cultura brasileira. Participavam nomes como José Mindlin, que deveria opinar quanto à biblioteca do Palácio; Emanoel Araújo, pelas artes plásticas, e João de Souza Leite e eu na área do design, entre nomes de outros setores. Foi muito estimulante, mas logo pedi afastamento porque não concordei com alguns rumos da comissão, naquela época do Collor.José Mindlin, Adélia Borges e João Sayad, secretário de Cultura do Estado de São Paulo. Foto de Mariana ChamaDesignBrasil E quais são os seus planos para o futuro?

Adélia Borges O Secretário Municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil, me chamou para assessorá-lo na criação de novos museus em São Paulo. Estão sendo estudados um museu de cultura popular, que teria uma parte de design espontâneo, e outro para ocupar a Casa Modernista, projeto do Warchvchik que introduziu a arquitetura e o design modernos no Brasil. Essa atividade não tomará todo o meu tempo e permitirá que eu continue em minhas atividades de curadoria de exposições e autoria de livros, que têm como objetivo a difusão do design brasileiro. Tenho feito muitas palestras no exterior, especialmente na América Latina. Creio que chegou a hora de estabelecer intercâmbios mais efetivos com os outros países do nosso continente no que diz respeito ao design, e gostaria muito de colaborar nesse sentido.

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