Adriano Galvão

Por Editor DesignBrasil

Brasiliense, é o primeiro a ser premiado no Braun Prize Awards, prestigiado prêmio internacional de design.

O designer Adriano Braun Galvão (foto) é o primeiro brasileiro a ser premiado no Braun Prize Awards, prestigiado prêmio internacional promovido bienalmente pela empresa alemã Braun, vinculada ao grupo Gillette.

Galvão é doutorando em design pelo Instituto de Design do Illinois Instituto de Tecnologia, Chicago, nos Estados Unidos – na mesma instituição em que concluiu seu mestrado. Sua graduação é em Desenho Industrial pela Universidade de Brasilia – cidade onde nasceu, em 1975.

Seu projeto – um dos cinco finalistas do Braun Prize Awards, o que lhe valeu uma premiação de 4.500 Euros – é um aparelho médico que simplifica o processo de selecionar e manipular tubos de sangue durante o processo de coleta para exames.

A filosofia do prêmio é incentivar o design, a inovação e a qualidade dos produtos cotidianos. Os conceitos submetidos devem representar uma inovação em design e tecnologia e ter como foco principal as necessidades das pessoas, além de ajudá-las na vida cotidiana, seja em casa, no trabalho, na escola, ou no contexto da saúde e cuidado pessoal.

Para ser um dos finalistas na edição 2005, o projeto de Galvão superou duas etapas de seleção. No total foram 684 projetos inscritos de 50 países – 72 selecionados tiveram que enviar protótipos e destes somente cinco foram para a final.

Ganhar prêmios não é novidade para ele, que também é pesquisador e professor assistente em Illinois. Este ano, depois de ser premiado em outros eventos de natureza científica, ele venceu o Xerox Best Paper Award durante a 17ª Conferência Internacional em Design Teoria e Metodologia, organizada pela Sociedade Americana de Engenharia Mecânica, em Long Beach (EUA). No Brasil, ganhou em 1998 o 1º lugar do Prêmio Nacional “Troféu IBGM”, Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos (IBGM), e, um ano antes, venceu o I Prêmio Nacional de Design, promovido pela Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário.

Confira a entrevista com Adriano Galvão, concedida por e-mail em novembro de 2005:

 

DesignBrasil: Como surgiu a idéia de participar do prêmio BraunPrize Award ?

Adriano Galvão: A idéia de participar do Braun Prize Award partiu do meu orientador, o Professor Dale Fahnstrom, que acreditava no potencial da idéia e conteúdo do projeto. Resolvi participar do prêmio devido a sua grande repercussão nos Estados Unidos, México e alguns paises da Europa, Ásia e América do Sul.

 

DesignBrasil: Fale sobre o Easy-XM, o produto que o levou a ser premiado no BraunPrize Award?

Adriano Galvão: O Easy-XM é um aparelho médico que simplifica o processo de selecionar e manipular tubos de sangue durante o processo de coleta para exames, procedimento crucial na avaliação da saúde humana e para o qual o Easy-XM foi projetado visando à substituição do suporte tradicional de coleta. Com o Easy-XM, o fluxo de sangue pode ser controlado movendo-se uma válvula que o dirige para cada tubo separadamente, sem interromper o procedimento de coleta e impedindo a contaminação entre tubos. O aparelho facilita o processo da coleta e reduz a manipulação de tubos, eliminando a necessidade de extrair tubos em uma seqüência específica, e impedindo o colapso das veias dos pacientes.

Projeto Easy-XM (foto) em exposição na cerimônia do Braun Prize Awards

 

DesignBrasil: Qual foi o método utilizado para a criação do projeto?

Adriano Galvão: O conceito Easy-XM foi desenvolvido entre 2000 e 2002, período em que eu fazia mestrado no Instituto de Design do Illinois Instituto de Tecnologia – IIT (www.id.iit.edu), em Chicago, nos Estados Unidos. A escolha do tema do mestrado foi orientada pelos professores orientadores Dale Fahnstrom e Greg Prygrocki. Ambos abriram as portas para a pesquisa através do acesso a um hospital universitário de Chicago, o Rush University Medical Center (www.rush.edu). A escolha do método de pesquisa não foi de forma aleatória. Pelo contrário, a metodologia foi adaptada às condições do ambiente de estudo que incluiu entrevistas com enfermeiras, médicos e pacientes e filmagens do procedimento de coleta com câmeras em diversos ângulos. Durante um ano tive a oportunidade de pesquisar de perto o procedimento da coleta de espécimes de sangue, ao mesmo tempo em que acessava a literatura científica.

 

DesignBrasil: A partir dessa pesquisa, qual foi o problema descoberto que originou o formato do projeto?

Adriano Galvão: De volta a universidade, analisei os vídeos repetidamente até detectar um padrão de comportamento interessante: as enfermeiras constantemente cruzavam os braços para alcançar o próximo tubo com a agulha ainda conectada no braço do paciente.

Durante esse movimento curto das mãos, a agulha se desconectava da veia do paciente causando dor e hematomas no braço do paciente. Esse foi o primeiro problema detectado, porém o mais chocante ainda estava por ser descoberto.

Enquanto observava as dificuldades das enfermeiras no contexto hospitalar, apreendia na literatura científica que cada tubo contém um reagente químico específico do teste de sangue a ser efetuado. Aos olhos da enfermeira, as características físicas desses reagentes químicos não são fáceis de diferenciar e, por esse motivo, os tubos são codificados com uma tampa colorida para cada reagente químico. Por exemplo, o tubo com tampa verde contém o reagente heparina e o tubo com tampa azul contém o reagente citrato de sódio.

Além de diferenciar os tubos, essa codificação serve para indicar a seqüência de coleta de espécimes. Assim, o tubo azul deve ser coletado antes do verde. A seqüência de coleta foi desenvolvida por órgãos científicos juntamente com os fabricantes dos tubos e serve para prevenir a contaminação entre tubos durante o processo de coleta. Por exemplo, se a enfermeira não seguir a seqüência correta, o reagente químico do primeiro tubo pode estar injetado no segundo tubo, comprometendo o resultado dos testes. A seqüência não é difícil de ser seguida, porém a longa carga horária aliada à ansiedade para achar a veia do paciente e a pressão para coletar o maior número possível de espécimes podem aumentar o risco de erro entre as enfermeiras.

 

DesignBrasil: Qual foi a solução a que você chegou após identificar os problemas?

Adriano Galvão: A partir da identificação dos problemas comecei a desenvolver alternativas conceituais de um dispositivo que eliminasse a necessidade de seguir a seqüência de coleta e deixasse a enfermeira livre para distrair o paciente durante o procedimento. Apresentei os protótipos iniciais às enfermeiras, aos médicos e aos pacientes para obter críticas e sugestões. Ao final desse processo, combinei minhas idéias com as sugestões de médicos, enfermeiras e pacientes, num dispositivo que solucionou os problemas detectados e ao mesmo tempo, garantiu maior precisão na coleta e exame de sangue. Após a conclusão do mestrado, o Illinois Instituto de Tecnologia resolveu dar entrada ao processo de patente do aparelho e desde então tenho desenvolvido o conceito através da construção de protótipos. Caso o aparelho venha a ser comercializado, a universidade retém 50% dos royalties, pois tem arcado com os custos da patente que já atingem mais de 15 mil dólares.

 

DesignBrasil: Há chances reais do produto chegar ao mercado?

Adriano Galvão: Sim, absolutamente. O primeiro passo nesse sentido já foi dado pelo Illinois Instituto de Tecnologia no momento em que deu entrada com o pedido de patente no instituto americano de patentes e marcas, o Unimed States Patent and Trademark Office. A patente só não foi concedida ainda em razão da demora natural desse processo legal, mas estamos perto de conseguir a concessão. Quanto à questão desenvolvimento técnico, o produto precisa passar por uma bateria de testes clínicos e de protótipos que são dispendiosos e complexos. Essa fase pode custar até 300 mil dólares para contratar especialistas na área, realizar os testes e homologar o aparelho junto a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (Food and Drug Administration – FDA), órgão responsável pela aplicação dos aspectos da Lei relacionados à regulamentação e aprovação de aparelhos médicos. Porém, demonstrar a segurança e eficácia de um aparelho médico e obter uma licença para comercializá-lo são componentes obrigatórios no desenvolvimento desses aparelhos. Se vencermos essa fase técnica, existe a possibilidade de vender o conceito para uma empresa que possa fazer a distribuição e comercialização.

 

DesignBrasil: Por que o interesse pelo design de um produto médico?

Adriano Galvão: A minha curiosidade por aparelhos médicos sempre foi grande, talvez incentivada pela falta de zelo sentida na própria pele. Enquanto criança asmática visitei o pronto-atendimento de hospitais diversas vezes para fazer nebulização (ou inalação de medicamentos) e já percebia o quanto os aparelhos poderiam ser mais amigos do paciente. O interesse pelo desenvolvimento de aparelhos médicos aumentou durante o curso de graduação quando percebi o potencial do design naquela área. Enquanto aluno do curso de Desenho Industrial da Universidade de Brasília e diretor da empresa Junior de Desenho Industrial daquela universidade tive a oportunidade de trabalhar no desenvolvimento de um produto de grande impacto na vida das pessoas. Alem de ser muito gratificante ajudar as pessoas, a área médica oferece uma grande receptividade para a atuação dos profissionais do design e o retorno financeiro também pode ser bastante recompensador.

 

DesignBrasil: Na sua avaliação, esse nicho de mercado é um campo promissor para o designer brasileiro?

Adriano Galvão: Acredito ser um campo muito promissor, principalmente para projetos de cooperação entre universidades e hospitais, como foi o caso do Easy-XM.

Adriano Galvão (no meio) ao lado dos demais premiados com os prêmios simbólicos.

 

DesignBrasil: Qual foi a justificativa do júri do BraunPrize Award para indicar seu projeto como um dos finalistas?

Adriano Galvão: O corpo de júri foi composto por quatro personalidades: Alessandra Vasile (arquiteta e professora no departamento de Design do Politécnico de Milão, Itália), Gianfranco Zaccai (diretor da empresa internacional Design Continuum, EUA), Udo Milutzki (Vice-presidente da Braun, Alemanha) e Peter Schneider (Diretor geral do departamento de Design da Braun, Alemanha). Conforme documentação apresentada pelo jurado na página eletrônica do BraunPrize Award (www.braunprize.com), o Easy-XM apresenta uma maneira inovadora de coletar espécimes de sangue, que facilita e melhora o trabalho da enfermeira e médico. Mediante a coleta de até quatro tubos simultaneamente, o desconforto do paciente é reduzido e a precisão dos exames de sangue aumentada. Não é somente uma melhora funcional, mas também psicológica; o paciente também ganha a impressão de que o processo é mais rápido e eficiente.

 

DesignBrasil: Fale um pouco sobre o evento da premiação?

Adriano Galvão: A premiação ocorreu em setembro na cidade de Kronberg na Alemanha, na sede da Braun, durante os dois dias de comemoração dos 50 anos do Design Braun. Eu e mais quatro finalistas da Alemanha (candidata de nacionalidade chinesa), Suíça, Canadá e Austrália fomos convidados a apresentar nossos projetos. Meu projeto ficou como finalista vencedor recebendo 4500 Euros e respectivo diploma. Parte do prêmio envolve a promoção dos trabalhos vencedores; o protótipo do Easy-XM e outros 23 trabalhos estão no momento sendo expostos em museus na Alemanha e Itália.

 

DesignBrasil: Algum outro brasileiro já foi premiado no BraunPrize?

Adriano Galvão: De acordo com um dos organizadores do BraunPrize Award, Hildegard Monzel, nenhum brasileiro recebeu o prêmio ou chegou à fase final na historia daquela competição. Neste ano, oito inscritos concorreram pelo Brasil e eu concorri representando o Instituto de Design-ITT pelos Estados Unidos. Sinceramente espero que em 2007 mais estudantes brasileiros subam no pódio do BraunPrize Award.

 

DesignBrasil: À distância, como avalia o nível do design de produto no Brasil?

Adriano Galvão: Na minha visão, o Brasil deu um salto bastante considerável nos últimos cinco anos em termos de Design. Por exemplo, em 2004, durante o iF Design Awards, 18 prêmios foram para o design brasileiro, uma conquista inédita e que demonstra que é possível concorrer com os paises de maior desenvolvimento. Dentre os ganhadores, alguns foram premiados pelo segundo ano consecutivo. Acreditar nesse tipo de conquista é acreditar no nosso futuro como pais líder em design e inventividade, fatores essenciais para o nosso desenvolvimento econômico.

Essas vitórias são frutos da política governamental de conscientização, apoio e promoção do design (via o Programa Brasileiro de Design e Sebrae, por exemplo) e investimento na educação (via CAPES e CNPq, por exemplo) que já começam a amadurecer. Alem disso, essas vitórias contribuem para evidenciar o papel do design como fator diferencial de produtos e decisivo para existência das empresas. Precisamos de mais, muito mais para competir de igual pra igual com as grandes potencias, pois eles ainda detém o capital necessário para fomentar o design em diversas dimensões. Aos poucos e na medida em que nossos profissionais em design vão ganhando mais prêmios no exterior e novos estudantes vão se preparando para o mercado competitivo e global, a nossa capacidade de competir em design, seja no meio acadêmico ou industrial, vai aumentar.

A importância de ter um “selo de excelência em design” nos produtos brasileiros, seja do iF Design Awards na Alemanha ou do IDEA/IDSA Awards nos Estados Unidos, já é compreendida por diversos empresários, principalmente por aqueles que pretendem competir no mercado global.

 

DesignBrasil: Em termos de estrutura para o desenvolvimento de um projeto como o seu, quais as diferenças entre uma universidade como a de Illinois e a UnB, onde se graduou?

Adriano Galvão: O curso de mestrado em design é o maior diferencial. O treinamento adquirido no mestrado permite focalizar um tópico, aplicar métodos centrados no usuário e aprofundar nos seus detalhes. O corpo docente especializado do Instituto de Design foi também muito importante. Acredito que uma escola de excelência precisa ter alunos preparados, dedicados e talentosos, mas também precisa de excelentes professores para estabelecer um alto patamar de resultados. A infra-estrutura em si não importa muito, pois hoje em dia temos maior acesso às ferramentas de design e ao desenvolvimento de protótipos.

 

DesignBrasil: Desde quando você está nos Estados Unidos e em que atividade está envolvido atualmente?

Adriano Galvão: Moro em Chicago, nos Estados Unidos, desde o ano 2000, quando vim fazer o mestrado no Instituto de Design, no Illinois Instituto de Tecnologia. Atualmente, venho desenvolvendo minha tese de doutorado na mesma instituição, com o apoio do CNPq. A minha tese de doutorado aborda o conceito da Arquitetura de Produtos conjugada com os métodos de inovação baseados no entendimento do usuário.

 

DesignBrasil: Pretende voltar ao Brasil?

Adriano Galvão: Sim, volto para o Brasil no final de 2006 e gostaria de aplicar a experiência recebida no contexto acadêmico e/ou industrial brasileiro. Dessa forma, pretendo atuar na investigação qualitativa e descoberta de novas oportunidades para o desenvolvimento estratégico de produtos e serviços inovadores, adaptados à realidade brasileira e mais úteis do ponto de vista do usuário.

 

DesignBrasil: Uma última pergunta: por coincidência, você tem no seu sobrenome o mesmo nome do prêmio do qual acaba de ser finalista. Participar do Braun Prize Awards é um sonho acalentado desde quando?

Adriano Galvão: Coincidências ocorrem na vida de todo mundo. Mas essa coincidencia bizarra não é tão surpreendente para mim. O verdadeiro significado pode ser compreendido mais plenamente com a noção de realização de um sonho. Sempre tive muita vontade de participar daquele concurso. Não por ter o mesmo nome do meu sobrenome, mas pelo que a Braun representa em termos de design. Por esse motivo, meu primeiro barbeador eletrico foi da marca Braun. Durante o concurso resolvi omitir o meu sobrenome para evitar a interpretacao errônea da coincidência entre os jurados. Lá na página do BraunPrize encontra-se somente “Adriano B. Galvao”. Após o julgamento do concurso, durante o fórum na matriz da Braun, revelei o meu sobrenome para o júri, que ficou surpreso sem esconder o divertimento com o fato.

* Nota do DesignBrasil: para mais informações sobre o projeto Easy-XM, consulte os links www.id.iit.edu/profile/gallery/easy-xm e www.braunpreis.de/international/braunprize_194.html .