África do Sul: desafios e oportunidades na promoção do design

Por Editor DesignBrasil

Adrienne Viljoen, diretora da principal organização de design da África do Sul, o Design Institute, fala sobre as oportunidades e desafios em promover design na África do Sul. A entrevista foi concedida à colunista Gisele Raulik.

O Design Institute é a principal organização de design da África do Sul, criada com apoio do governo deste país em 1969. Nesta entrevista, Adrienne Viljoen, Diretora do Instituto desde 1995, conta sobre como esta organização foi criada e as atividades atuais. Comenta também sobre as oportunidades e desafios em promover design na África do Sul. Em vários momentos é possível perceber similaridades da história africana com o desenvolvimento deste setor no Brasil. Um exemplo é o fato do Instituto estar ligado ao South Áfrican Bureau of Standards, uma organização que visa qualidade, certificação e referência da indústria africana. Do mesmo modo, no Brasil, alguns centros de design são ligados a institutos com atuação semelhante. A criatividade no desenvolvimento de design para atividades locais também é um fator comum entre os dois países. A atitude crítica mas positiva em relação às atividades diárias nestes países parece dotar designers de uma criatividade extra.

A entrevista abaixo foi concedida originalmente em inglês e está publicada no SEEdesign Bulletin Issue 6 (www.seedesign.org).

A publicação 30 Years of South African Design Excellence conta a história do Design Institute e faz uma reflexão dos erros e sucessos ao longo desta trajetória. Um dos pontos levantados é o fato do Design Institute ter sido criado de acordo com um modelo estrangeiro, não levando em consderação as circunstâncias locais.

Adrienne Viljoen Sim, o Instituto foi criado depois de uma sequência de eventos, incluindo a convenção que aconteceu em 1965 e discutiu a importância do design industrial. Na época, havia alguns visionários na África do Sul que entendiam a importância da criação de um instituto de design. Eles usaram o exemplo do Design Council de Londres e empregaram principalmente cidadãos britânicos para implementar o projeto. O resultado foi uma visão britânica e de primeiro mundo sobre o design, sem considerar outras necessidades e prioridades da África do Sul. Isso só contribuiu para a idéia de um design elitista. Em 1990 houve uma revisão detalhada do Instituto e este problema veio à tona.

O Design Institute é parte do Bureau of Standards (SABS), que é a instituição nacional que estabelece referências e acolhe membros da ISO.

Sim, quando começou, no final dos anos 60, o então Diretor Geral do SABS era um dos visionários que liderou a criação do Instituto de Design. Não havia outra maneira de levantar recursos adequados pela iniciativa privada e então ele acomodou o Instituto sob o guarda-chuva do SABS. Esta foi uma solução temporária. Neste momento a África do Sul realmente precisa de uma organização forte de promoção do design. Tendo dito isso, não dá para negar os benefícios de uma associação com o SABS. Design definitivamente está ligado a standards um designer sempre trabalha com referências e, para comercializar um produto, tem que estar de acordo com as regulamentações. A associação traz uma garantia de qualidade. Além do mais, fazer parte de uma instituição maior traz imediatamenteuma identidade para a instituição e para os nossos projetos em diversas áreas. Nós também somos beneficiados com o acesso a experts de outros setores por exemplo, para nossos prêmios, como participação deles nas comissões julgadoras.

Como o Design Institute é financiado?

O Instituto é financiado pelo governo. O orçamento é baixo então usamos redes e parcerias para estruturar nossos projetos. Nós temos uma forte rede de cooperação com escolas de design, associações profissionais de designers e indústria. Algumas universidades de tecnologia são parceiras em conferências, o que nos facilita o uso das dependências e acesso a palestrantes. Membros de júri e outros convidados dos projetos são geralmente voluntários. Nós também mantemos ligação com o Instituto da Lei de Propriedade Intelectual da África do Sul. Esta parceria é muito importante, porque lidamos com desenvolvmento de novos produtos. Acabamos de publicar a quarta edição de um guia de propriedade intelectual.

Quem estabelece o direcionamento das atividades do Instituto de Design?

Até hoje tem sido um desenvolvimento interno. No entanto, lamento que não haja uma sinergia com o Sistema Nacional de Inovação da África do Sul. Mas confiamos muito nos membros de comissões julgadoras e experts que trabalhamos. Nós seguimos um plano estratégico de nove anos, dividido em segmentos de 3 anos. Temos sessões de revisão anual para avaliar o progresso e, quando necessário, para ajustar os planos às circunstâncias.

Quais são as atividades principaís do Instituto?

Nós temos quatro frentes: indústria, educação, prêmios e Design para Desenvolvimento.

– Indústria é bem focado em desenvolvimento de produto. Nós facilitamos o acesso a lugares onde as empresas podem ter assitência técnica e consultoria sobre propriedade intelectual.
– Em educação, procuramos encorajar e desenvolver liderança em design na África do Sul. Somos fundadores do DEFSA Fórum de Educação em Design da África do Sul. Por 15 ou 20 anos, nós realmente participamos deste Fórum, concedendo ajuda financeira e organizando a conferência anual.
– Prêmios, exibições e publicações são atividades voltadas a marcar a imagem da África do Sul como país inovador e industrializado. O Prêmio de Excelência em Design da África do Sul é uma importante premiação anual para produtos que já estão no mercado local ou internacional. Nós também exibimos anualmente na exposição ExportÁfrica.
– A iniciativa Design para Desenvolvimento destaca o importante papel que o design pode ter no desenvolvimento econômico e sustentável da África do Sul. Dois eventos importantes desta frente são os Workshops Interdesigns, para transporte rural sustentável e uso da água (em cooperação com ICSID). E agora estamos cooperando também com o NEPAD a Nova Parceria de Desenvolvimento da África, um movimento pan-africano.

– Atuamos também na área de informação (website e publicações) e uma sessão de relacionamento com o governo, mídia e institutos internacionais, o que é extremamente importante para a África do Sul. Cada país obtém benefícios diferentes da associação com organismos internacionais como por exemplo, o ICSID (International Council of Societies of Industrial Design). Para nós, a vantagem é um status elevado que os nossos projetos ganham, sendo internacionalmente conhecidos e respeitados. Além disso, nós aprendemos sobre novos projetos, nos relacionamos com outros líderes deste meio e ouvimos as suas opiniões. Todo este conhecimento é transferido diretamente para os nossos projetos.

Você mencionou anteriormente o problema da visão elitista do design.

Infelizmente existe uma percepção elitista do design, algo que só é acessível a poucos sul-africanos que podem comprar produtos de qualidade para suas casas. Isto está mudando agora. O orgulho está se desenvolvendo na África do Sul, em outras economias emergentes também, e penso que podemos desenvolver produtos e produzi-los nós mesmos.
Outro ponto negativo é a visão do governo. Ele parece compreender ciência, tecnologia e inovação, mas não compreende o valor crítico do design.

A África do Sul tem se destacado em alguns nichos específicos do design como a engenharia e particularmente engenharia de minas. As razões são óbvias: a África do Sul tem as minas mais profundas do mundo e isso requer tecnologia avançada. Este conhecimento não pode ser trazido de outros lugares, então tem de ser desenvolvido localmente. Algumas pesquisas têm sido desenvolvidas para resolver problemas típicos das minas um exemplo é o roubo de diamantes e mineradores escondendo pedras em seus corpos. A solução foi o desenvolvimento de um raio-X de baixa dosagem para as revistas. Esta tecnologia está agora sendo transferida para uso médico devido à baixa dosagem, é altamente aplicável para pacientes com traumas. Assim, a África do Sul consegue comercializar tecnologias desenvolvidas nestas áreas. Outras áreas importantes em que nos destacamos é o desenvolvimento de produtos básicos de saúde, produtos para moradia de baixo-custo e sistemas de segurança.

Como estes aspectos influenciam a educação em design na África do Sul?

Isto tem um efeito forte, particularmente nos cursos de engenharia. Existem apenas duas escolas de desenho industrial na África do Sul, mas muitas escolas de design gráfico e de interiores. Algumas são vinculadas ao governo e outras independentes. Algumas são escolas de bastante destaque e são afiliadas a instituições internacionais para a validação dos diplomas. São escolas bem populares, mas também caras. Um fenômeno interessante no momento é a atração de estudantes de outros países africanos para estudar na África do Sul. Dois fatores contribuem para isso: o fato de que os custos são acessíveis e o alto nível da educação na África do Sul. O programa Design Achievers do nosso Instituto é importante e de sucesso. Nós queremos encorajar a liderança jovem. Eles não devem necessariamente se tornar os estudantes mais criativos, mas desenvolver uma capacidade de empreendedorismo e de liderança para estabelecer seus negócios de design e fortalecer a indústria.

Como as políticas em design estão se desenvolvendo na África do Sul?

Ainda sofremos de um problema de falta de coesão. O Departamento de Arte e Cultura iniciou uma política que foi focada em artesanato e não em design. O Departamento de Ciência e Tecnologia iniciou uma outra política e desenvolveu um sistema nacional de inovação, mas que não inclui design. E o Departamento de Indústria e Comércio iniciou uma política industrial sem menção ao design.

E neste cenário, como você vê o futuro do design na África do Sul?
Eu acredito que a indústria deve trazer prosperidade. A maré está favorável e a idéia do que o design pode fazer está lá só não está bem coordenada. Isto requer tempo, mas os ingredientes estão disponíveis e, se conseguirmos tudo e todos trabalhando juntos, as coisas acontecerão muito mais rápido. O que nós tentamos fazer com o programa Design para o Desenvolvimento é mostrar como os designers podem realmente contribuir para o desenvolvimento do país e reforçar que o design não é elitista.

Em termos comerciais, nossos designers gráficos, nossa indústria de propaganda e os designers de interiores estão atuando extremamente bem. Infelizmente, a indústria manufatureira ainda acredita que precisam apenas de engenheiros e não de desenhistas industriais, então estamos tentando mudar esta percepção.

Para mais informação sobre o Design Institute visite https://www.sabs.co.za/Business_Units/Design_Institute/index.aspx

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