André Fiorini

Por Editor DesignBrasil

“O portfolio é uma ótima porta de entrada. E isso transcende qualquer barreira cultural, contanto que a pessoa esteja disposta a se adaptar e fazer parte do grupo”

No final de 2005, uma campanha publicitária da Virgin Digital virou mania em todo o mundo. Intitulada “Exercise Your Music Muscle”, a campanha consistia numa espécie de “Onde está Wally” da cultura pop musical. A montagem continha trocadilhos visuais com referências a 74 bandas de rock e virou motivo de entretenimento mundo afora.

Elaborada pelo brasileiro Rodrigo Butori, da agência Ground Zero, da California, a campanha teve a participação do também brasileiro André Fiorini, designer e diretor de arte da mesma agência. Ele foi o responsável por uma série de sete mini-posters e pelo website da campanha.

O DesignBrasil entrevistou Fiorini. O paulistano, hoje com 31 anos, começou sua carreira aos 19, como estagiário na Denison Bates / Ogilvy. Em 1998, largou a FAAP para cursar durante quatro anos o bacharelado em Artes Plásticas pelo Art Center College of Design, nos Estados Unidos. Nesse período fez diversos trabalhos como freelancer e, em 2002, ingressou no escritório Imaginary Forces. Em 2004 foi convidado pelo amigo Rodrigo Butori para trabalhar na Ground Zero Advertising – onde está até hoje.

Confira a entrevista, feita por e-mail:

 

DesignBrasil: Quando e como você começou sua carreira de designer?

André Fiorini: Eu comecei minha carreira na antiga Denison Bates como assistente de arte. Trabalhei um tempo como diretor de arte junior e, logo depois que a agencia foi comprada pela Ogilvy, eu decidi me mudar para cá para fazer faculdade de design.

 

DesignBrasil: O que o levou a decidir cursar uma faculdade de design no exterior?

André Fiorini: Assim que eu comecei a trabalhar, eu devia ter uns 19 anos, eu imediatamente tranquei o curso de artes plasticas na FAAP com a chave dentro. Eu sabia que não ia voltar porque eu achava a faculdade muito fraca. E naquela época não havia nenhum curso decente de design no Brasil, as opções eram ou FAAP ou FAU. Então eu fui trabalhando, meio que desenvolvendo uma idéia do que eu queria fazer da minha vida, mas eu não estava contente com a qualidade do meu trabalho, via coisas em anuários que me deixavam babando eu queria mais. Aí eu comecei a procurar uma escola aqui e minha família me incentivou bastante. Nunca teria chegado a esse ponto sem o apoio deles, principalmente da minha mãe, que me empurrou pra fora de casa e me fez encarar meus sonhos de frente.

 

DesignBrasil: Como é estudar design no Art Center College of Design, em Pasadena, na Califórnia? O que chamou mais sua atenção no ensino desta instituição?

André Fiorini: A faculdade é muito forte. Chegando lá a gente fica chocado com a qualidade do trabalho. Todas as aulas começavam com os alunos colocando o trabalho na parede, então se você não fizer nada, paga o maior mico. E aí tem que apresentar em inglês, e a classe e o professor então criticam o trabalho, sem dó mesmo. É brutal no começo, porque o aluno é exposto a um monte de críticas e sugestões, tem que defender suas idéias na frente de 20 estranhos em todas as aulas e sempre tem o problema do idioma pra piorar a situação.

O currículo é muito bem planejado, a gente fez workshops com vários caras feras, sempre tinha palestra com algum fodão. E a quantidade de trabalho é enorme, é um ambiente super competitivo, mas acho que é isso que faz a faculdade ser tão respeitada. Eu aprendi com meus colegas tanto quanto eu aprendi com meus professores. O nível de talento é muito alto. Eu ficava de boca aberta com os caras que cursavam ilustração, como por exemplo o Brian Won e o Saiman Chow e também alguns dos professores como o Rob e o Chris Clayton, o Jason Holley, o Tony Zepeda.

 

DesignBrasil: Uma vez graduado, a opção por continuar trabalhando nos EUA foi natural?

André Fiorini: Muitos dos meus colegas decidiram voltar, como o Marcelo Garcia, o Hugo Werner e o Luís Evandro. Mas eu tinha essa coceira de me dar bem por aqui. Quando eu me formei peguei um freela no Hawaii com um amigo que tinha se formado antes de mim, fiquei três meses morando em um quarto de hotel. Não era o que eu queria, aí eu procurei um professor meu de Motion Graphics, o Adam Bluming. Ele gostava muito dos meus storyboards e começou a me passar trabalho, ainda como freela. Logo no primeiro eu acertei um home-run, foi um teaser para o filme da Swat e o Peter Frankfurt e o Kyle Cooper ficaram super felizes, por motivos óbvios. Ai eles me deram mais e mais storyboards e eu ganhei mais algumas concorrências. A partir desse ponto eu percebi que seria muito difícil eu voltar.

 

DesignBrasil: Na Imaginary Forces você desenvolveu a logomarca da Dreamworks Animation? Como foi o processo de desenvolvimento deste projeto?

André Fiorini: Como a maioria dos projetos esse também foi uma concorrência. Todos os designers da IF entraram de cabeça, mais um punhado de freelancers e outras agências de design. Concorrência sinistra. A Dreamworks era conhecida como uma marca de family entertainment, com conteúdo mais voltado para crianças.

O problema é que eles começaram a fazer coisas mais adultas como aquele filme Eurotrip, que tinha temas eróticos e todo tipo de piada de mau gosto. Então eles viram a necessidade de separar a marca Dreamworks SKG da marca Dreamworks Animation. No começo todo mundo queria fazer algo diferente. Eu cismei que eles não podiam se desfazer do garoto sentado na lua de jeito nenhum, por mais que eu não achasse aquela imagem muito especial. Então todos os meus storyboards foram feitos em torno da imagem do garoto. Acho que na segunda rodada me veio a ideia do balão, inspirada naquele filme francês Le Ballon Rouge, do Albert Lamorisse.

A imagem das crianças seguindo o balão é muito marcante, é um símbolo forte da infância. Então eu comecei a fazer storyboards com o balão. O primeiro era um balão vermelho mesmo, e na medida que eu fui desenvolvendo a idéia ele deixou de ser vermelho e virou só um balão, e depois um monte de balões que carregam as letras do logo dentro. Eu também decidi que essa animação se passaria de dia, uma vez que o logo antigo se passava de noite. Então eles (Spielberg e o Jeffrey Katzemberger) finalmente abraçaram a idéia do balão e escolheram meu storyboard.

 

DesignBrasil: Que outros projetos interessantes você desenvolveu na Imaginary Forces?

André Fiorini: Eu desenvolvi uma série de teasers para filmes como o da Swat e aquele filme Identity com o John Kusack. Fiz uma serie de vinhetas para a Chevron, o logo da Def on Demand, tv a cabo por assinatura do Russell Simmons, dono da Def Jam. Também fiz outros trabalhos menores, um monte de assinatura de comercial e coisas desse tipo.

 

DesignBrasil: O que o atraiu a aceitar o convite do também brasileiro Rodrigo Butori para trabalhar na Ground Zero?

André Fiorini: Eu estava de saco cheio de fazer storyboard para teaser de filme. O problema é que a indústria de cinema paga muito mais do que qualquer outra, e como eu tinha esse histórico de ganhar concorrência, o Peter me colocava pra fazer esse tipo de trabalho direto, e eu comecei a desanimar, porque no final é tudo a mesma fórmula, começou a ficar monótono. Então o Rodrigo mudou da Saatchi para a Ground Zero, com um plano de reformular toda a parte de direção de arte da agência. Eu encontrava com ele quase todo dia no mar antes do trabalho e ele parecia super animado.

Eles estavam sem designer, e eu sempre tive uma atração forte por propaganda. A oportunidade de trabalhar com clientes como Toyota e ESPN me atraiu muito, sem falar que o dono da agência, Court Crandall, é um dos caras mais quentes da propaganda aqui desse lado do continente. O Rodrigo é um grande amigo meu, já o conhecia do Brasil. Eu segui a carreira dele e sempre tive uma admiração enorme pelo trabalho do rapaz. Então eu percebi que esses dois caras tinham muito mais a me ensinardo que os caras da Imaginary Forces. Eu queria trabalhar mais a parte conceitual do meu trabalho, e essa foi uma oportunidade perfeita.

 

DesignBrasil: Em termos de método de trabalho e de criação, que diferença a Ground Zero tem em relação a outros escritórios de maior porte?

André Fiorini: A GZ tem uma reputação por produzir trabalhos diferentes, com um senso de humor próprio e bem definido. A agência é independente, tem um escritório relativamente pequeno aonde todos estão misturados, sem divisão física dos departamentos. Eu sento do lado do Rodrigo, de frente pra um cara de mídia, do lado de uma menina do financeiro e de uma outra de planejamento. Acho que isso reflete no nosso trabalho, com uma interação grande entre as pessoas dos diversos departamentos e um ambiente mais descontraído, menos formal.

 

DesignBrasil: O projeto para Virgin Digital – exercise your music muscle repercutiu bastante. Acabou virando uma mania no Brasil descobrir todos os 74 nomes da imagem. Conte um pouco desse projeto.

André Fiorini: O Rodrigo e a Kristina, dupla dele, ganharam a concorrência e desenvolveram a campanha do Exercise your music muscle, que consistia de um poster, um vídeo feito pela National TV (www.natl.tv) e uma página no portal heavy.com, aonde as pessoas podiam jogar o jogo da Virgin Digital e decifrar as inúmeras charadas visuais que foram criadas.

Eu acabei fazendo uma série de sete mini-posters que a gente imprimiu no verso do cartão de visitas deles, e fiz também o website de onde as pessoas podem fazer o download do player (www.virgindigital.com). Dentro dessa página a gente fez um mini-site chamado exercise your music muscle, que é basicamente uma parede de um banheiro de bar toda rabiscada. O processo todo não durou mais do que um ou dois meses, foi super intenso pra mim, tive que fazer todas as decisões super rápido, sem muito tempo pra desenvolver as peças. Mas foi uma experiência interessante.

 

DesignBrasil: Que outros projetos você destaca em seu trabalho na Ground Zero?

André Fiorini: A campanha dos x-games do ano passado e o trabalho feito para a Toyota.A equipe da Ground Zero

 

DesignBrasil: Que atividade do design você gosta mais de desenvolver ou faz melhor?

André Fiorini: Eu adoro fazer minhas próprias ilustrações. Acho que faço bem logotipos e letras e coisas desse tipo, mas eu gosto mesmo é de fotografia e motion graphics. O processo de criar uma imagem com a câmera é o que me inspira mais a criar. Então eu gosto de fazer anúncios e posters e coisas para tv. Mas vira e mexe eu sento pra desenhar algum logo ou letra só porque me dá vontade.

 

DesignBrasil: Você pretende voltar a trabalhar no Brasil ou pensa em estabelecer sua carreira definitivamente nos EUA?

André Fiorini: Eu penso em voltar ao Brasil, mas para ter meu próprio negócio. Agora não dá pra fazer esse tipo de decisão, tem que ver aonde estão as melhores oportunidades. Se pintar a oportunidade certa eu vou na hora. Eu quero muito voltar e contribuir pro meu país, mas ao mesmo tempo eu fiz tantos sacrifícios pessoais para estar aqui… é uma decisão complicada. A qualidade de vida aqui é tão surrealmente maior que fica difícil largar tudo o que eu conquistei por um futuro incerto no Brasil. E, desculpas aos meus conterrâneos, mas morar em São Paulo é um sacrifício que eu só faço se valer muito a pena mesmo.

 

DesignBrasil: Para um designer brasileiro é mais difícil estabelecer-se no exterior ou o que faz a diferença é mesmo o portfolio?

André Fiorini: Acho que é um meio termo. É um pouco mais difícil devido as óbvias diferenças culturais. Nesse ponto cursar a faculdade me ajudou muito, porque funcionou como um longo período de adaptação em que eu tive a chance de absorver a cultura e aprender a me comunicar de uma forma mais efetiva. Isso tanto do ponto de vista verbal como social. Agora, claro que o portfolio é uma ótima porta de entrada. E isso transcende qualquer barreira cultural, contanto que a pessoa esteja disposta a se adaptar e fazer parte do grupo. Essa é uma coisa que me impressionou aqui, como eles são abertos a absorver pessoas de outras culturas.

Existe esse estereótipo do americano ignorante e fechado, mas chegando aqui eu percebi justamente o oposto. O fato de eu ser brasileiro não faz a mínima diferença, pelo menos no que diz respeito ao trabalho. Imagina que uma agência no Brasil um dia vai ter os dois principais diretores de arte estrangeiros! E o Rodrigo é diretor de criação… A verdade é que a gente é muito mais fechado do que eles.

 

DesignBrasil: Que dica você daria a quem quer encarar o mesmo desafio que você teve?

André Fiorini: Primeiro tem que ter perseverança. A gente como um povo é muito apegado aos amigos e família. Então a primeira coisa é saber que tem todo esse lado social que faz muita falta, e dependendo da pessoa, acaba não valendo a pena. Solidão é uma merda, e pode acabar com o sujeito. É um sacrifício grande para nós, e esse é o primeiro obstáculo.

Segundo, eu acho que tem que saber falar inglês decentemente. Uma boa pronúncia e entendimento da língua já te põe em uma posição bem mais favorável. Cursar uma faculdade ou um curso de extensão também é algo que te dá uma chance maior de se dar bem, porquE ao fim do curso a pessoa recebe uma permissão de trabalho válida por um ano, abrindo a possibilidade de se trabalhar por um tempo e de se criar uma relação mais próxima com o empregador. Aí é muito mais fácil o cara se dispor a patrocinar seu visto. Foi assim que eu consegui o meu.