As mudanças do design industrial para um design sustentável

Por Editor DesignBrasil

Adriana: Onde o design marca a sua presença na sociedade atual e qual é o papel do designer industrial hoje em dia?

Suzana: Por se tratar de uma atividade humana centrada na criação de objetos do nosso dia a dia, o design tem a ver com tudo o que tocamos, por exemplo, os itens existentes nas cozinhas (panelas, liquidificador, fogão, geladeira, talheres), vestuário (sapatos, bolsas, roupas), escritórios (canetas, mesas, computadores) e decoração (móveis, vasos, luminárias). Enfim, tudo o que se puder pensar foi desenhado por um designer. O designer industrial, por sua vez, é um profissional multidisciplinar que lida com a conexão dos objetos e a nossa vida, estudando o usuário a partir de suas necessidades, desenvolvendo produtos como resposta a elas. Designers são pesquisadores e desenvolvedores de ideias e, como bem definiu Victor Papanek, em 1971: “Se eles devem ajudar a reinventar o mundo, precisam ter a coragem de tocar assuntos importantes, como a filosofia da qualidade, o limite dos recursos naturais, a identidade cultural, a biotecnologia, os desequilíbrios demográficos, as relações entre os países desenvolvidos e o Terceiro Mundo, o código de ética”.

Adriana: Como você vê a atual situação desse profissional na sociedade pós-industrial?

Suzana: Embora o design possua território próprio nos dias de hoje, a realidade profissional na sociedade pós-industrial está assolada por um paradoxo. Apesar de conectada com cultura e tecnologia, arte e ciência, economia e comportamento humano, e associada a qualidade e responsabilidade, com propostas criativas para o futuro cheias de significado, ela procura ainda a sua identidade. Vivemos uma fase de mudanças. O mundo experimenta uma grande crise. Os recursos naturais estão se esgotando, há explosão demográfica, violência urbana, miséria, fome, alienação social e grandes quantidades de poluentes liberados no mundo. Alguns historiadores chamam esse período de “Renascença”, pois acumulamos vasta quantidade de conhecimento e dispomos de ferramentas técnicas e científicas, mas ainda não sabemos aproveitar e compartilhar isso tudo.

Adriana: Qual é o papel do designer em relação aos aspectos intangíveis da forma e da função? Por exemplo, no que diz respeito à responsabilidade socioambiental do produto e ao pensamento sistêmico na criação?

Suzana: A complexa realidade hoje precisa ser entendida de maneira global, e não mais apenas em termos locais, individuais ou do objeto. Portanto, a habilidade do designer de lidar com os aspectos humanos deve extrapolar o pensamento limitado à criação de objetos, de modo a refletir em termos de sistemas nos quais objetos, pessoas e relações possuem uma função dinâmica. A transição de uma sociedade industrial para outra pós-industrial é lenta, mas profunda. Competição deve dar lugar à cooperação. A qualidade, e não a quantidade, deve ser seu principal objetivo – qualidade dos objetos, dos serviços, mas também qualidade do ambiente e da vida. Não podemos continuar produzindo e consumindo como antes. Estamos muito mais conscientes e alertas sobre os recursos naturais, consumo de energia, impacto dos processos, ciclo de vida, reciclo e descarte dos produtos. Sabemos quão “fácil” é usar os recursos naturais e o quanto é difícil repô-los.

Adriana: E quais são as implicações dessa situação que vivemos?

Suzana: Assim, essa fase de mudanças implica uma redefinição das ações do design, usando suas ferramentas visuais e criativas na concepção de produtos, mas também na solução de problemas em nível macro, notadamente através do design estratégico e de serviços. O Brasil passou recentemente a dar ênfase ao design sustentável. Concursos, prêmios e produtos têm pretendido alcançar essa categoria. Inúmeros artigos são escritos. Palestras, seminários e conferências internacionais aquecem o ambiente, sobretudo o acadêmico. Mas e o mundo real, como ele tem se comportado?

Adriana: Empresários, designers e usuários se mostram ativos nessa transição? Como avaliar se um produto é realmente sustentável? Ele pode até trazer certificações e marcas ambientais, mas como saber se elas são de fato verdadeiras?

Suzana: O design sustentável refere-se a fazer coisas que se encaixam bem, e por longos períodos de tempo, num contexto ecológico, social, econômico e cultural. É criar também comunidades conscientes. Citando Marco Capellini, não basta apenas criar um design ecológico, é necessário que essa qualidade seja informada ao consumidor. É muito importante fazer com que o consumidor se responsabilize pela escolha de sua compra. Ele deve saber reconhecer, comparar e escolher. Resumindo: em todas as atividades voltadas à sustentabilidade deve haver comunicação.

Adriana: Cabe ir além da comunicação sobre as ações de responsabilidade socioambiental das empresas para estimular a reflexão do consumo consciente?

Suzana: Sem dúvida, é necessário conscientizar os consumidores para que, antes de comprar um produto, eles se perguntem: “Quem o fabrica? Ele é ético? Qual o seu impacto na comunidade? O seu uso é seguro? Ele pode ser consertado ou reciclado? Faz parte de um serviço?” Acrescente-se a isso uma política governamental pró-designers e pró-produtores para evitar que o sistema de produção e consumo local não seja corrompido pela oferta de produtos industriais importados, que utilizem mão de obra escrava, materiais insustentáveis e de baixíssimo custo. Evitar o que temos visto por todos os lados, nos grandes supermercados: produtos sem design nenhum e, portanto, sem valor agregado. Sejam as pequenas, as médias ou as grandes empresas, todas elas têm oportunidade de criar novos produtos sustentáveis, caracterizados por materiais, tecnologias ou serviços.

Adriana: Para que a proposta socioambiental faça parte do DNA da empresa, do designer e do consumidor, quais os próximos passos a serem dados para viabilizar esse processo de transformação?

Suzana: Acredito que os empresários devam reconsiderar a escala de valores herdada do capitalismo convencional para assumir uma nova visão de capitalismo natural. Como bem explica Paul Hawken, no livro Capitalismo Natural, considerando o meio ambiente um conjunto que abastece e sustenta a economia, em particular os recursos naturais, é preciso eliminar o desperdício, transformar a relação com o consumidor, passar de uma economia de bens e aquisições para uma economia de serviços e fluxos, além de reinvestir em estoques de capital natural e produtividade dos recursos.

 

Suzana Mara Sacchi Padovano

É designer industrial (Mackenzie, 1975); Mestre pela Rhode Island School of Design (Providence / RI / Massachussetts / USA, 1975 à 1977). Foi professora no Departamento de Projeto de Desenho Industrial, no Mackenzie, na Unip e na FAAP, e nesta última foi Coordenadora das Faculdades de Desenho Industrial e Moda até 2006. Proprietária do Studio de Consultoria em Design, Sacchi Designers e da marca Eccentrica de bijoux e jóias. É membro do grupo do Brazilian Urban Designers for Sustainability. É Consultora de Design Industrial do NUTAU/USP – Núcleo de Pesquisa em Tecnologia da Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. É diretora da Padovano Arquitetura em Rede Ltda.

Adriana Gagliotti Fortunato

Consultora de sustentabilidade e projetos especiais. Cursou arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Brás Cubas é formada em Science of Natural Health Clayton College of Alabama / Master in Science of Natural Health Clayton College of Alabama. Marketing College for Distributive Trades The London Institute Public Relations College for Distributive Trades The London Institute. Colaboradora da Università Degli Studi Di Siena (UNISI). Consultora do projeto de colaboração Brasil-Italia Universiità degli studi di Siena UNISI. Idealizadora e curadora dos projetos: Brasil Itália Dialogo Sustentável, MISP Milão e São Paulo e Net&work to go Green.