Atirando no pé do design nacional. Pergunte-me como!

Por Bruno Porto

O design ganha espaço na mídia, e cada vez mais na mídia certa. O triste é quando o tiro si pela culatra.

Mês passado dei uma entrevista para o jornal O Globo sobre a carreira de Desenho Industrial com perguntas enviadas pelos leitores. As respostas saíram no caderno Megazine, lido principalmente por jovens e estudantes, em uma seção chamada Voz da Experiência, que busca esclarecer as profissões para os futuros vestibulandos. Uma das indefectíveis perguntas era Como está o mercado de trabalho? e procurei respondê-la de forma positiva e realista: Nunca se falou tanto em design no Brasil como hoje, o que significa que o mercado anda muito promissor. Mas isso não ocorre só no Brasil: nunca se falou tanto em design no mundo. Desde minha época de estudante escuto que a sociedade não sabe o que um designer gráfico faz nos confundindo com arquitetos, ilustradores, publicitários, enfim, profissões com as quais, logicamente, estão mais habituadas. Hoje isso mudou. Isto é, um pouco. Às vezes parece que troquei seis por meia dúzia, pois quando me apresento como designer para alguém de fora do meio, é comum me perguntarem se projeto móveis, websites, ou mesmo roupas. Exposições, premiações, concursos ou publicações de Design podem significar qualquer coisa nestas àreas. Mesmo sem maldade, todo cuidado ao buscar informações é pouco. Daí que quando respondi as perguntas procurei ser megahiper claro em relação à profissão, nomenclaturas, áreas de atuação, legislação (chequei e rechequei tudo três vezes), tudinho. Metade das informações, claro, ficaram no caminho devido à edição que no fim ficou redondinha, eliminando realmente umas gordurinhas do texto mas fico sempre achando que podia ter saído mais completinho. Meu maior medo é que, em um caso desses, escape uma bobagem que acabe dando pano para manga. Pois pior do que a sociedade não saber o que é que eu faço, é ela ter uma percepção para lá de distorcida de como essa nossa banda toca. E isso é molinho, molinho de acontecer. Por conta da Brazil Design Week que houve no Rio de Janeiro em setembro passado, foram publicadas algumas matérias e notas em revistas e jornais sobre o evento, seus participantes (designers ou projetos) e sobre o assunto de uma maneira geral. É é sempre uma vitória quando isso de dá em seções que não as culturais ou sociais, como as de economia ou negócios. O que me leva às seguintes notas, na seção Negócios & Cia do caderno de Economia dO Globo (13.09.1008 página 37), sobre design gráfico:

Independente dos trabalhos em si (o professor de tipografia em mim manteria a mesma espessura das hastes em todos os caracteres da Made Moi Selle e fecharia mais o kerning do RO do drops) ou do infeliz uso do termo logomarca (sic), me causou desconforto ver lado a lado, com o mesmo peso, dois projetos profissionais executados por estudantes, o primeiro, e profissionais, o segundo.

A discussão sobre estudantes executando projetos profissionais com o endosso de instituições de ensino pode ser relativamente longa e não pretendo que aqui seja o momento de abordá-la, mas apenas para ilustrar este ponto, gostaria de apresentar duas opiniões e elaborar uma questão:

– Estudantes que desenvolvem projetos profissionalamente, em 99% dos casos a preços mais em conta, é mais comum que bicicleta na China. Todos começam(os) por este caminho, apresentando o diferencial que pode ser dado o preço que vem agregado (a contrapartida do cliente) a erros de todos os tipos, da condução do projeto ao resultado, passando pelos eventuais calotes e prejuízos. Que atire a primeira pedra o profissional que quando estudante não pegou exultante um freelinha mal pago, querendo apenas obter mais experiência e um trabalho de verdade para seu portfólio de, até então, projetos acadêmicos. Pode sim, e deve.

– Os escritórios modelos ou empresas júnior de institutições de ensino existem para muito necessariamente aproximar e orientar os estudantes a questões relativas à pratica profissional. Isso se faz geralmente desenvolvendo projetos para o próprio departamento de design ou mesmo para a instituição de ensino (como publicações impressas e online e cartazes para eventos acadêmicos, como exposições, excursões, peças de teatro etc), ou para micro-empresas e outras iniciativas semelhantes sem condições de pagar pelos serviços de um profissional de design. Tudo isso, obviamente, sob a supervisão de professores a instituição.

Que percepção se cria para o empresário (desculpe, a sociedade) quando abre o caderno de economia de um grande jornal e se depara com dois projetos aparentemente bem executados e sem maiores contextualizações, sendo que um por estudantes e outro por profissionais? Oras, que tanto faz comprar design de um ou de outro! E que os estudantes provavelmente cobram mais barato, já que são, bem, estudantes. E que mesmo sem experiência não há riscos, pois desenvolvem os projetos supervisionados por uma instituição de ensino. O empresário não só economiza uns cobres como ainda se sente participando do processo de educação dos brasileiros, estimulando novos talentos e etc.

A questão que me intriga é se os envolvidos nesta equação, do lado de cá da mesa, não percebem o vício que se está fomentando: o que acontece quando estes estudantes se formam e passam a atuar em período integral no mercado de trabalho; quando saem à cata de clientes para desenvolverem projetos de identidade visual, possivelmente em empresas do mesmo porte ou área de atuação com as quais obtiveram experiência quando de seus tempos de escritório modelo. Quais são as chances de escutarem ah, não, seu orçamento está muito caro: estamos fazendo o projeto com (um escritório modelo de) estudantes?

O design ganha espaço na mídia, e cada vez mais na mídia certa. O triste é quando o tiro si pela culatra.