Biblioteca de materiais da Unisinos explora o conceitual, emocional e sensorial do acervo

Por Centro Brasil Design

Tudo começou em 2008, com o apoio para pesquisa a partir de um Edital Universal do CNPq, e posteriormente com apoio de empresas privadas. Uma equipe de professores e alunos desenvolveram, sob a coordenação do Prof. Dr. Celso Scaletsky, o projeto que hoje se tornou a biblioteca de materiais da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), batizada de IMateria.

A partir do princípio de que a escolha de materiais é uma das etapas essenciais de qualquer projeto de design de produto, as bibliotecas de materiais já eram uma realidade em outros centros de pesquisa brasileiros. A IMateria, porém, apresenta uma forma inovadora de organização e indexação do acervo, com mecanismos que permitem a associação de conceitos subjetivos aos materiais – e através desta relação permitir um uso menos técnico e mais interpretativo pelos alunos. “A biblioteca não pretende catalogar todos os materiais fabricados atualmente, isso seria impossível e já existem bases de dados que cumprem esse papel”, afirma o coordenador Prof. Dr. Celso Scaletsky. “O nosso objetivo é desenvolver um espaço aonde a subjetividade dos materiais possa ser percebida e vivenciada pelos alunos, professores e demais visitantes desse espaço”.

O espaço da IMateria foi pensado a partir do conceito de mobilidade, uma vez que os próprios conceitos relacionados aos materiais do acervo sofrem constantes mudanças por serem subjetivos. Como resultado, os materiais são expostos em dois containers, nos quais se espera criar um espaço dinâmico, que possam incluir mostras temporárias em sua programação.

IMateria

Abaixo, em entrevista ao DesignBrasil, o Prof. Scaletsky fala mais sobre este projeto, que permite uma reflexão em torno do uso e escolha dos materiais pelos designers.

DesignBrasil: Qual foi a motivação para o desenvolvimento da IMateria? Como você definiria seu objetivo?

Prof. Dr. Celso Scaletsky: Existem muitos bancos de dados e bibliotecas físicas que organizam materiais. São espaços importantes para os designers no momento de suas escolhas projetuais, no que se refere a que material utilizar. No entanto, essas bibliotecas estão, geralmente, organizadas apenas por suas propriedades mais técnicas, ditas de engenharia. Evidentemente, essas propriedades são essenciais. A questão que motivou a realização desse projeto diz respeito ao fato de que muitas vezes os designers escolhem seus materiais pelos seus significados, pelo seu lado subjetivo, menos preciso. Neste sentido, nossa pesquisa visava criar um espaço físico e um espaço virtual (web) que permitisse organizar esses materiais por meio de conceitos intangíveis. O projeto foi imaginado com a colaboração do Prof. André Marques e concorreu ao Edital Universal 2008 do CNPq, e com a sua aprovação pode ser concretizado. Posteriormente, diversas empresas nos apoiaram, como a Melnick-Even e Politorno.

DesignBrasil: Abordar os aspectos mais conceituais e menos tangíveis dos materiais é um dos focos da IMateria. Qual é o objetivo desta abordagem? Como ele é colocado em prática na disposição da biblioteca?

Prof. Dr. Celso Scaletsky: Como comentei, designers projetam através de escolhas. Essas escolhas envolvem diversos aspectos, entre eles os materiais. E, nas escolhas dos materiais, aspectos subjetivos muitas vezes prevalecem sobre os aspectos técnicos. Em outras palavras, o designer irá, por exemplo, buscar um material que possa ser associado a um aspecto emocional – como por exemplo ‘calma’ – e depois deverá encontrar suas propriedades técnicas que atendam aos aspectos funcionais do artefato que esteja desenvolvendo.

Nós realizamos diversas pesquisas em experiências similares, realizadas em outras universidades e países. Por exemplo, a materioteca chamada MateriO, de Paris – na visita realizada a MateriO nós observamos a simplicidade como os materiais eram dispostos e organizados por conceitos. Além de estarem agrupados por categorias (metais, madeiras, …), eles também eram organizados por letras do alfabeto, como “P” de plaisir (prazer).

Para organizar os materiais na IMateria, nós criamos fichas de catalogação e um sistema informatizado, uma base de dados, ou seja: além dos aspectos técnicos, os materiais podem ser indexados por conceitos. Por enquanto, existem quatro bibliotecas de conceitos assim divididas em Emocional (Aborrecido, Feliz, Nostálgico, …); Interpretativa 1 e 2  ( Bobo, Confiável, Elegante, Feio, Bonito, Barato, …); e Sensorial ( Áspero, Frio, Opaco, Brilhoso, …).

Esses conceitos são resultado da pesquisa que o Prof. Ms. Roberto Faller realizou durante o seu mestrado.  Assim, por meio dessas bibliotecas, é possível associar-se um material a um ou mais conceitos, durante a indexação dos materiais. Após, os usuários da IMateria podem realizar suas buscas por multicritérios, onde os conceitos assumem um importante papel.

IMateria

DesignBrasil: Como foi a organização do acervo, uma vez que a indexação prioriza estes conceitos e características subjetivas? Como isto afeta a busca dos usuários?

Prof. Dr. Celso Scaletsky: A indexação, no momento, é feita pelos administradores da IMateria com o apoio de muitos alunos. No entanto, espera-se que o uso do sistema forneça indícios de correções. A indexação deve ser dinâmica, modificar-se com o tempo. Trata-se de um espaço de ensino e pesquisa. É um projeto que surgiu no Programa de Pós-Graduação em Design da Unisinos, mas que deve ser utilizado em grande espaço na Graduação. Mais do que um espaço estático, imagina-se como um espaço de construção de conhecimentos. Por exemplo, como os designers raciocinam no momento da escolha dos materiais? Essa é, especificadamente, minha área de interesse enquanto pesquisador, compreender o processo de projeto sob ângulo da psicologia cognitiva.  É importante ressaltar que com a inauguração da materioteca nós apenas criamos uma plataforma. Ela está pronta. Agora o seu uso é que trará a grande riqueza para o ensino e a pesquisa nessa área do conhecimento.

IMateriaDesignBrasil: Os materiais estão todos dispostos nos containers? Como é a relação dos espaços com o conceito de mobilidade proposto pela Imateria?

Prof. Dr. Celso Scaletsky: Sim, por enquanto os materiais estão todos nos containers. Um dos dois containers pode ser transportado para outro local. Não é uma tarefa fácil, mas é possível. A mobilidade, no entanto, se encontra no próprio mobiliário, projetado pelo Prof. Giulio Palmitesas – as estantes se transformam em ‘carrinhos’ e podem ser retiradas do container e levadas para sala de aula. O próprio sistema informatizado é previsto para ser apresentado na web e qualquer aluno terá acesso às suas informações. Por enquanto, o acesso estará restrito aos alunos dos Cursos de Design e Moda da Escola de Design Unisinos. No futuro, quem sabe ampliaremos…

DesignBrasil: Quais são os planos para o futuro da materioteca?

Prof. Dr. Celso Scaletsky: Os planos são continuar buscando novos materiais, experimentar exercícios de indexação com os alunos, buscar outras parcerias, desenvolver pesquisas. A IMateria tem como meta a sustentabilidade como garantia de seu crescimento, assim projetos com outras organizações ou órgãos de fomento à pesquisa estão sendo trabalhados. O CNPq, por exemplo, foi essencial ao projeto, quem sabe não continuamos a caminhar juntos?DesignBrasil: Como foi este processo com o Edital do CNPq? O convênio com o Edital continua ou já foi concluído?

Prof. Dr. Celso Scaletsky: A pesquisa que recebeu apoio do Edital Universal 2008 do CNPq já foi concluída. Porém, imagino propor novos projetos que auxiliam a desenvolver e consolidar nosso projeto.

DesignBrasil: Como são feitas as consultas ao acervo da Biblioteca? É disponível pela internet?

Prof. Dr. Celso Scaletsky: Por enquanto, o acesso é restrito. No futuro pretendemos abri-lo. Trata-se de resolvermos alguns aspectos de programação e do servidor que abrigará o sistema.

DesignBrasil: E o acesso à IMateria, é público? Quem pode usufruir do serviço? Existem visitas guiadas?

Prof. Dr. Celso Scaletsky: O acesso a IMateria é público. No momento estamos contratando um laboratorista que ficará responsável pelo espaço além do Prof. André Marques. Qualquer interessado pode entrar em contato com a Escola de Design Unisinos ou comigo mesmo ([email protected]), e podemos agendar visitas guiadas.

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