Brasília é a nova Cidade Criativa da UNESCO no campo do Design. Mas o que exatamente significa isso?

Por Bruno Porto

Na semana passada, Brasília foi incluída na Rede de Cidades Criativas da UNESCO no campo do Design. Nos unimos a Curitiba, integrante desde 2014, e a outras cidades cujos nomes por si só evocam diferentes segmentos do Design de alta qualidade: Berlim, Montreal, Helsinque, Saint-Étienne, Singapura, Budapeste, Shenzhen, Seoul, Dubai, Detroit, Cidade do México, Cidade do Cabo, Istambul e Kobe, entre outras. Comemoramos todos, claro. Mas isso significa que a UNESCO está impressionada com o Design produzido em Brasília, que a capital federal tem um histórico ímpar em Design, ou o quê?

O UCCN (UNESCO Creative Cities Network) é um programa que visa a implementação nas indústrias criativas da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e da Nova Agenda Urbana, apresentadas respectivamente em Nova York em 2015 e em Quito em 2016. A primeira compreende 17 objetivos e 169 metas relativas a dimensões econômicas, sociais e ambientais, enquanto a segunda é relacionada a aspectos de design, implementação, monitoramento e avaliação de programas e projetos em áreas urbanas. Significa principalmente que a UNESCO acredita que Brasília tem – especificamente no campo do Design – condições de contribuir de forma significativa com os direitos humanos, igualdade de gênero e empoderamento feminino, bem como com maneiras de construir, planejar e gerenciar as cidades de forma mais inclusiva, segura e sustentável. Mas entrar na UCCN não se resume apenas a isso: há o compromisso assumido pela cidade de se investir em um amplo legado de Design.

Explico: a escolha das cidades é feita através da análise de um formulário bastante preciso, que deve conter dados e estatísticas, preenchido pela prefeitura do município candidato – no caso de Brasília, do Governo do Distrito Federal (GDF). Não há como enfeitar o pavão: além do formulário só são aceitas quatro URLs (geralmente contendo vídeos) e três fotografias diretamente ligadas ao segmento no qual a cidade acredita se destacar – além de Design, há Gastronomia, Cinema, Artesanato e Arte Popular, Literatura, Música e Artes Midiáticas. O formulário pode ser acessado desde a URL http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-view/news/the_2017_call_for_applications_for_the_unesco_creative_citie/

O mais importante, no entanto, é que só conta realmente o que foi realizado nos últimos cinco anos, com foco especial para como o governo local incentivou o segmento, e como planeja continuar fazendo isso nos próximos quatro anos. O histórico da cidade na área da candidatura deve ser informado mas, na prática, não vale muito: a UNESCO está interessada se o passado recente é capaz de servir como indicador do que está porvir. Por isto aparentemente a cidade não foi bem sucedida ao pleitear, em 2016, a nomeação para Cidade Criativa em Música: todo o histórico do Rock Brasil dos anos 1980 foi desconsiderado, e as realizações recentes na área não devem ter entusiasmado o órgão internacional.

Brasília teve seus últimos cinco anos bastante animados em termos de Design. Para mim é fácil ter noção deste contexto, pois compreende tudo que vivenciei na cidade desde que me mudei para cá, justamente no início de 2012. Puxando pela memória, Brasília recebeu importantes mostras e eventos regionais, nacionais e internacionais, como o Seminário Design e Cidadania na América Latina (UnB, 2012); a exposição de mobiliário Design Brasileiro, Moderno e Contemporâneo (CAIXA Cultural, 2014); as mostras Brasília em Cartaz (Museu Nacional, 2014) e Royal College of Art: 50 anos de Design Gráfico (Museu Nacional, 2015); o VII Congresso Internacional de Design da Informação (CCBB, 2015); o Salão Brasil Criativo (Centro de Convenções Ulysses Guimarães, 2015); a exposição Design Dialogue: Poland – Brazil (Museu Nacional, 2016) e a 12ª Bienal Brasileira de Design Gráfico (CAIXA Cultural, 2017), além de edições da Bienal de Tipografia Latino-Americana Tipos Latinos (2012, 2014 e 2017), do Encontro ADG (2012 e 2013) e do Encontro Regional dos Estudantes de Design – Centro-Oeste/Minas Gerais (2012 e 2017). A cidade conta ainda com diversas iniciativas independentes (como os festivais multiculturais Picnik e Motim); a única associação regional do país de profissionais de Design Gráfico (Adegraf – Associação dos Designers Gráficos do Distrito Federal, que completou 16 anos e realiza diversas palestras e capacitações em parceria com a Sindigraf e SEBRAE); espaços para cursos livres na área (como o Comoéquetálá e a Perestroika); um respeitado Programa de Pós-Graduação em Design (UnB), e o curso superior em Design Gráfico atualmente com o mais alto conceito nacional no MEC (Centro Universitário IESB). Vários itens do formulário – como a presença de centros de ensino e formação, a realização de cooperações e eventos internacionais e ações de entidades não-governamentais em prol do desenvolvimento do setor – são atendidos neste sentido.

 (Foto: Valdemir Cunha)

(Foto: Valdemir Cunha)

O Design em Brasília cresce transversalmente em quantidade e qualidade a olhos vistos, o que pode ser comprovado pelo estudo Retrato Brasília – realizado pelo jornal Correio Braziliense e pelo Centro Cultural Banco do Brasil em 2014, e publicado no início de 2015 – mapeando as cenas de Arte, Design, Empreendedorismo e Cultura Urbana da cidade. Quanto a isto não há dúvidas. Mas não é só isso que é levado em consideração.

Como expliquei no início, a inclusão na Rede de Cidades Criativas requer também que o governo local descreva como incentivou o segmento nos últimos cinco anos, através de programas ou projetos para promover uma ampla participação da população em relação ao Design, principalmente grupos em situação de desvantagem ou vulnerabilidade social. Também teve que descrever como criou ou estreitou relacionamentos para cooperação entre governo, setor privado, sociedade civil e a academia. Isso inclui ainda – imaginem só! – apresentar os valores gastos pelo governo nos últimos 5 anos diretamente com o segmento do Design. Quer iniciativa mais transparente que essa?

Além da curiosidade cidadã em relação a estes tópicos, me interesso particularmente pelo item 10 do formulário. Nele, o governo deve descrever com detalhes o plano de ação que pretende implementar a médio prazo (eles indicam o período de 4 anos) para utilizar o Design como forma de alcançar os objetivos da UCCN para um desenvolvimento urbano sustentável. De forma bastante direta, informam que “o plano de ação e as iniciativas propostas devem ser realistas, coerentes e viáveis, destacando a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e a Nova Agenda Urbana”. Ou seja, como Brasília foi incluída na Rede de Cidades Criativas da UNESCO, o Governo do Distrito Federal apresentou isso.

O formulário foi preenchido, portanto, com “iniciativas, intervenções, programas ou projetos destinados a alcançar localmente os objetivos da Rede, aumentando o papel da cultura e criatividade no desenvolvimento sustentável da cidade, com pelo menos uma iniciativa de desenvolvimento urbano que integra o campo criativo em questão”. Duas das iniciativas propostas deveriam ter relação direta com o Design, e uma deveria ser de natureza transversal, associando-se a pelo menos um dos outros seis campos criativos da UCCN (Gastronomia, Cinema, etc.). Ainda segundo o documento, “a apresentação das iniciativas propostas deve incluir o escopo, os objetivos, o alcance e as partes interessadas (parceiros, participantes e beneficiários), os resultados esperados e o impacto para destacar a qualidade, a diversidade e a inovação da abordagem. São incentivadas as iniciativas apoiadas pela cidade envolvendo os setores público e privado, a sociedade civil, as associações profissionais e as instituições culturais”. Da mesma forma, e com o mesmo detalhamento, foram apresentadas propostas destinadas a atingir os mesmos objetivos internacionalmente, envolvendo outras cidades da rede. Finalizando isso tudo, foi apresentada uma estimativa de orçamento anual para a implementação do plano de ação proposto, informando ainda as respectivas porcentagens direcionadas para iniciativas locais e internacionais e todos os recursos que a cidade espera contribuir (financeiros, pessoal, instalações, etc.).

Novamente: estou supondo que isso tudo foi feito, pois Brasília foi incluída na UCCN no campo do Design. A UNESCO informa que não divulga os formulários submetidos, e até agora o GDF tampouco compartilhou as informações e propostas enviadas. Como designer e morador de Brasília, gostaria muito de saber o que o GDF programou implementar, e como pretende fazer isso, neste sentido.

Integrar a Rede Criativa de Cidades da UNESCO em Design é ao mesmo tempo um reconhecimento para o que vem sendo realizado recentemente na cidade – por entidades profissionais, instituições culturais, de ensino e pesquisa, empresas e comunidades, ONGs e organizações governamentais, etc. – mas é principalmente uma promessa do governo de que investirá no Design Brasiliense, e que este será usado para melhorar a qualidade de vida da população. Quatro anos passam bem rápido, ainda mais se a abordagem for inovadora e ambiciosa como o formulário sugere. É essencial o Governo do Distrito Federal buscar este diálogo com os integrantes da sua comunidade de Design desde já.

*Bruno Porto é designer, educador e curador da 12ª Bienal Brasileira de Design. Integra os conselhos da ADG Brasil – Associação dos Designers Gráficos e Adegraf – Associação dos Designers Gráficos do Distrito Federal, o Colegiado Setorial de Design da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, a Comissão Assessora de Área de Tecnologia em Design Gráfico do Enade e o Grupo de Inteligência do Design Brasileiro do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.