Brazil Design Week 2008: críticas e sugestões

Por Bruno Porto

Se o objetivo é transmitir aos compradores de design o que é feito aqui, há que se atuar em conjunto, com unidade, valorizando as conquistas e bons projetos não deste ou daquele mas sim do Design Brasileiro como um todo.

Dois anos vivendo na China, desembarco de férias no Rio de Janeiro bem no meio da Brazil Design Week, evento de negócios realizado de 9 a 14 de setembro no Museu de Arte Moderna pela Associação Brasileira de Empresas de Design. É sempre bom ter o design em destaque mostras, publicações, encontros de estudantes, vale tudo e não é frequente que os esforços são direcionados para o aspecto business da coisa. Conversei com uma dúzia de designers-empresários participantes e todos foram unânimes ao afirmar que não sabiam direito o que esperar desta primeira edição. Teoricamente, me disseram todos, o objetivo principal era aproximar os escritórios de possíveis compradores de design (gráfico, de produto, jóias etc) através de rodadas de negócios reuniões em que representantes de empresas contactadas pela APEX-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) se sentariam com os escritórios / agências / estúdios de design para prospectarem projetos apoiadas por palestras e oficinas de especialistas nacionais e internacionais, e uma representativa exposição curada por João de Souza Leite intitulada Design Brasil no Século 21 Inovação na Indústria Nacional. O que escutei, entretanto, da maioria das pessoas com quem conversei foi que as prospecções ficaram aquém do desejado. Segundo um dos designers, algumas das empresas chegavam às rodadas sem saber exatamente o que e como comprar, meio que para ver qual é desse negócio de design. Todos foram unânimes em dizer que o se conseguiu mesmo foi visibilidade, e nem sempre da parte de possíveis compradores: de uma forma geral, foi outro evento para que os profissionais e suas empresas se conhecessem, se estudassem, se confraternizassem e ensaiassem parcerias. Isso me lembrou o catálogo Talento, da editora de mesmo nome, no qual se comprava páginas de anúncios de serviços de design, ilustração, fotografia etc, como uma Páginas Amarelas mais chique, para profissionais de criação. Inicialmente parrudos e com capa dura, depois separados por serviços (como brochura), os livros seriam enviados para dezenas de empresas de diversos segmentos bem como agências de publicidade, escritórios de design, editoras, revistas e o comprador da(s) página(s) poderia indicar até cinco nomes para tal. Como se alguém em sua sã consciência fosse mandar material promocional de concorrentes para um prospect ou cliente! Recebia-se também 200 reprints em papel couché da sua página, essas sim enviadas na cara dura e distribuídas em um primeiro contato, e em uma época em que a impressão digital não era lá essa moleza de hoje, isso valia alguma coisa. Quando Marcelo Martinez e eu abrimos a Porto+Martinez designStudio em 1996, compramos uma página da Talento 9 (depois de muito estudar o conteúdo das edições anteriores e de catálogos similares, debater sobre que serviços ofereceríamos, selecionar e fotografar nossos trabalhos, até desenhar uma página que considerávamos a nossa cara) e conseguimos o que todo mundo conseguia: ser visto por nossos pares (que também anunciavam) e, nos cinco ou seis anos seguintes, por centenas de estudantes que mandavam currículos para estágio. O telefone mesmo não tocou uma única vez. Era legal ser visto e comentado, estávamos orgulhosos, mas ouvi das pessoas com quem falava (tanto no caso da Talento como no da BDW) frustração e críticas que devem ser ouvidas e avaliadas, especialmente para um evento que pretende se aprimorar e crescer. Uma das melhores sugestões que ouvi foi de que deveria ter sido feito um esforço mais visceral para atrair o pessoal do departamento de marketing de empresas compradoras de serviço de design para as palestras. E, segundo o designer, sócio de uma grande agência de marketing promocional no Rio, isso não se consegue apenas dizendo venha conhecer boas empresas de design e fazer bons negócios. Isso se consegue dizendo venha participar destas palestras dadas por um monte de nomes fortes, você vai receber um Certificado de Participação, e isso vai ficar ótimo no SEU currículo! Aí o cara vem!. Mesmo para profissionais com bastante experiência, é difícil falar de & promover, especialmente em conjunto, o negócio do design. Sendo positivamente crítico, a comunicação das empresas de comunicação ficou a desejar. Era difícil imaginar quem iria visitar o Design Trade Show, a bela feira montada no pilotis do MAM (felizmente, segundo me disseram, a invasão da horda de estudantes que costuma ser a única participante de eventos de design não se concretizou), e percebi nos muitos stands que visitei poucos discursos diferentes de uma simples apresentação institucional nos moldes de Você conhece a nossa empresa tal? Nós somos isso, isso e aquilo e fazemos isso e isso e aquilo, como você pode ver neste folder / postal / libreto. Nada diferente do que deveria constar de qualquer homepage. Entusiastas sim, simpáticas sim, mas tímidas em conteúdo, e raras em algum tipo de abordagem mais personalizada, focada na necessidade do sujeito que estava lá. Diferentes das que vemos e experimentamos em feiras de fornecedores de produtos e serviços a que vamos, em que o vendedor te leva para uma mesinha e acaba marcando uma visita praquela semana mesmo ou te dando um orçamento ali, na hora. Falta, como meu irmão judoca diz, finalização. Ainda no quesito comunicação, quando rodei a feira com um dos organizadores, um aspecto em especial me decepcionou no material promocional que recolhi: apesar de lindos, apenas UM deles, dentre mais de trinta folders, catálogos, brindes e o escambau era bilíngue. Não entendam isso como frescura, e sei que o evento não estava montado para um público estrangeiro, mas se aprendi uma coisa trabalhando em um país em que se precisa falar/ler o idioma de quem se procura atingir (seja ele chinês ou any gringo), é que, hoje, globalizados que somos, TEM QUE ter inglês. É o mínimo que se espera de uma iniciativa que busca exportar nosso design ainda mais se, como me contaram, a APEX enseja levar a BDW à Nova York e Xangai. Como não havia ninguém no stand da APEX quando passamos, soube (e vi depois em uma livraria em Brasília) que foi publicado o Brazilian Design Profile 2008, um catálogo trilíngue com páginas duplas para cada empresa participante. Como cada uma era responsável pelo layout de suas páginas, ficou aquele Talento sem unidade, com alguns participantes nem mesmo mostrando seus projetos, apenas seu logo, contato e descrição de serviços e, vamos lá, não vejo como não apresentar projetos promove o Design Brasileiro! Isso, alias, é uma das grandes dificuldades de se promover coletivamente design (ou ilustração, ou publicidade, ou o que quer que seja). Para que possamos fazer barulho, lá fora e mesmo aqui dentro, deve haver mais do que apenas o desejo de autopromoção, de aparecer mais que o outro. Coletivamente não somos concorrentes, somos colegas. Se o objetivo é transmitir aos compradores de design o que é feito aqui, há que se atuar em conjunto, com unidade, valorizando as conquistas e bons projetos não deste ou daquele mas sim do Design Brasileiro como um todo. Quando pensamos em (ai, ai, lá vai clichê) design (de produto) italiano e design (gráfico) inglês (ou whisky escocês) não pensamos em um único nome. Percebemos o conjunto como de qualidade, mesmo que obviamente todos não o sejam. Da mesma forma como quando se fala, no exterior, de publicidade brasileira, modelos brasileiras, futebol brasileiro, o referencial é de alta qualidade, e não são apenas os nomes que porventura vem à cabeça que são beneficiados. Acredito que apenas sem estrelismos e sem panelas, poderemos criar a percepção que nossa atual produção de design merece.