Bruno Porto fala sobre o que o Brasil pode aprender com o design chinês

Por Centro Brasil Design

Bruno Porto é designer gráfico, professor e consultor em design. Nasceu no Rio de Janeiro, onde se formou em Design Gráfico e especializou-se em Gestão Empresarial / Marketing, tendo estudado também na School of Visual Arts, em Nova York. Na primeira semana de outubro, será um dos palestrantes da Semana D – Festival de Design, na qual falará sobre Design Gráfico Asiático e também lançará seu livro “Vende-se Design”. Em entrevista ao Design Brasil, Porto fala sobre sua experiência na China, a regulamentação da profissão de Designer e sua participação na Semana D. 

 

Você recentemente voltou de uma viagem à China. Como o design gráfico brasileiro é recebido por lá?

Hoje em dia de forma muito mais ampla, espero. Morei e trabalhei em Xangai de 2006 até o início de 2012, e nestes anos a China passou por grandes mudanças nas relações com outros países devido às Olimpíadas de 2008 e a Feira Mundial ExpoShanghai 2010. Foi fascinante observar o desenrolar do desenvolvimento destes dois imensos eventos, muito semelhante ao que o Brasil vai experimentar com a Copa em 2014 e as Olimpíadas em 2016. Quando cheguei lá, seis anos atrás, o Brasil era apenas uma noção muito distante para os chineses, associado apenas ao futebol. Sobre design, artes, cinema, música e cultura brasileira não havia praticamente nada. Nem mesmo a bossa nova – que tocava em nove de cada dez restaurantes mais sofisticados -, era reconhecida como brasileira, para eles era apenas “jazz”. O mesmo em relação a caipirinha, muito popular entre os 400.000 estrangeiros que vivem em Xangai, mas que seria um “drink latino”. Em 2007, o Brasil foi o país homenageado no 10º Festival Internacional de Cinema de Xangai, o maior da China, e o designer Billy Bacon e eu fomos convidados pelo então Cônsul-Geral João Mendonça a organizar uma mostra de cartazes brasileiros com o tema “Descubra o Cinema Brasileiro”. Foi a primeira de muitas ações que tive a felicidade de articular, geralmente ao lado dos também expatriados Itamar Medeiros, Sarah Stutz e Braulio Flores. Depois, com o apoio do Embaixador Marcos Caramuru, montamos cerca de dez exposições, incluindo a 9ª Bienal Brasileira de Design Gráfico – que foi vista por 200.000 pessoas de 50 países em Pequim e Xangai em 2009 – e uma versão do IlustraBrasil! organizado anualmente pela Sociedade dos Ilustradores do Brasil, que por conta disso está agora com itinerância marcada pelo Uruguai, Vietnam e Emirados Árabes. Esta mostra, batizada de IllustraBrazil, foi considerada pela imprensa chinesa a melhor exposição de artes gráficas de Xangai em 2011, à frente da exposição de 25 anos da Pixar! Na universidade onde lecionava, organizei também seminários e palestras sobre design gráfico, ilustração, arquitetura e mídia interativa com profissionais brasileiros como Cecilia Consolo, Mauricio de Sousa, Luli Radfahrer, Orlando Pedroso, Yomar Augusto, entre outros, que ajudavam a popularizar o que fazemos aqui entre a nova geração. A presença do Brasil na Expo2010, com um elogiadíssimo pavilhão projetado pelo arquiteto Fernando Brandão, foi outro dos fatores que ajudaram a mudar a percepção do empresariado chinês de que temos profissionais e trabalhos de qualidade. Hoje os filmes brasileiros já são encontrados em todas as banquinhas de camelô das grandes cidades – o que é sinônimo de sucesso de público. Há um programa de música brasileira na rádio 97.4 FM de Xangai chamado Estilo Brasil, e temos não apenas profissionais brasileiros, mas algumas empresas de design – como a Casa Rex em São Paulo e a Bold no Rio de Janeiro – que prestam serviços de design gráfico para multinacionais chinesas.

 

O que o Brasil pode aprender com o design chinês?

Vou abordar um pouco disso na minha palestra sobre Design Gráfico Asiático na Semana D, no dia 03. Acho que precisamos aprender a ser mais pragmáticos e a incorporar naturalmente a sustentabilidade em nossos projetos. Até por que o design é um processo de extrema importância política, realmente capaz de mudar a vida de milhões de pessoas. Podemos também aprender com o recente exemplo chinês aonde NÃO queremos chegar: um consumismo de proporções alarmantes que está condenando, em médio prazo, 25% da população mundial. É motivo de grande preocupação o Brasil ultrapassar a Alemanha no ranking de países que mais compra carros, mas as pessoas parecem ver isso com alegria. Outro aspecto a ser estudado pelos nossos profissionais está relacionado à práticas chinesas de prospecção em mercados, digamos, emergentes. O crescimento na China hoje não está necessariamente nas grandes megalópoles como Xangai, Pequim e Guanzhou, mas em cidades de segundo e terceiro escalões. O Brasil é um país tão grande quanto a China e com muitas das mesmas dificuldades, mas com bem mais possibilidades.

Você é coordenador executivo pelo Brasil para a Bienal de Tipografia Latino-Americana TIPOS LATINOS. Como se deu seu envolvimento com esse evento?

O bastão me foi passado pela Cecilia Consolo, cujo trabalho conheço e admiro há muitos anos, e que conheci pessoalmente quando fui coordenador do júri da 7ª Bienal Brasileira de Design Gráfico da ADG Brasil em 2004. Cecilia foi a curadora da 9ª  edição da Bienal e quando levamos a mostra a Xangai, ela foi fazer a palestra de abertura e participar de um workshop internacional que organizamos pelo Icograda com profissionais e estudantes brasileiros, chineses, indonésios, australianos, americanos e suecos. Realmente foi um momento muito importante para o cenário do design brasileiro, já que a mostra estava inserida nos dois maiores eventos de design daquele ano no país, a Shanghai International Creative Industry Week e o Icograda World Design Congress –  e certamente seria fantástico levarmos a tipografia latino-americana para este patamar. Ela foi uma das idealizadoras da Bienal Letras Latinas, depois rebatizada como Tipos Latinos, sequência natural das Mostras Tipografia Brasilis que organizou no início da década. Ela e Luciano Cardinali montaram o Comitê Tipos Latinos Brasil, e juntamente com coordenadores de outros 12 países, montaram quatro edições da Bienal, com palestras e workshops, promovendo um imenso intercâmbio pelo continente. Depois de quase dez anos à frente da Tipos Latinos, convidou a mim e ao typedesigner Fábio Lopez, que já havia sido jurado da edição de 2010, para tocarmos o barco. Acho que estamos fazendo bonito… Até agora esta quinta edição da Bienal Tipos Latinos já foi ao Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte, Caruaru, São Paulo e Bauru, muitas vezes dentro da programação de eventos como o N Design, o DesignWeekend, a Semana Tipográfica da UNESP e o Festival Pernambuco Nação Cultural, que atraem um público muito mais diverso do que até então. A Marina Chaccur tem organizado as atividades paralelas da TL2012 com mais de 40 palestras, workshops, lançamentos e visitas guiadas com alguns dos principais nomes do design gráfico nacional, e tudo isso gratuito. Até o final do ano esperamos ter montagens em Porto Alegre e Belém.

O design brasileiro passa por um momento em que nunca esteve tão perto de conseguir ser regulamentado. Você acha que a regulamentação da profissão de designer seria benéfica para os profissionais brasileiros?

Sim, seria. Precisamos estar equiparados a outras categorias profissionais dentro do cenário econômico do país. Se há profissões regulamentadas, com direitos e deveres assegurados, os designers também devem estar incluídos neste rol. É outro passo importante dentro da inserção do Design como uma das principais atividades da Economia Criativa Brasileira, e garantirá, a médio e longo prazos, um nivelamento superior dos nossos profissionais, bem como do aumento da remuneração pelos nossos serviços. Os designers são os primeiros a defender a contratação de profissionais gabaritados para execução de serviços de suas áreas, então que oficializemos um gabarito! Regulamentados e organizados – em associações – podemos mais. Nunca se falou tanto em design no Brasil como agora, e a percepção do valor da nossa atividade pela sociedade já é bem clara. Isso tem que se refletir no diálogo com o governo, essencial para o desenvolvimento da profissão no âmbito econômico, e tem sido muito bom vivenciar isso, em diferentes esferas, através de associações da qual faço parte, como a ADG Brasil e a Adegraf, ou mesmo de outras que somente acompanho, como a Abedesign.

Você estará presente na Semana D, em Curitiba, lançando seu livro “Vende-se Design”. Qual a importância de um evento como este para o design brasileiro?

Parafraseando Monteiro Lobato, um país se faz com designers e eventos de design. Congregar profissionais, estudantes, educadores e principalmente consumidores de design é imprescindível para o fortalecimento do mercado no país. O time cooptado para esta edição da Semana D não deixa a desejar a nenhum evento da área realizado em Curitiba, e a cidade tem uma tradição e pioneirismo em design como poucas. Ainda guardo na memória o impacto que tive quando, ainda estudante, participei do 1o NDesign em 1991 e da 2a Bienal Brasileira de Design em 1992. Fico muito feliz em lançar o “Vende-se Design” – um guia dirigido justamente ao aperfeiçoamento dos profissionais criativos do design, ilustração, fotografia, publicidade, arquitetura etc. – em uma cidade tão importante para minha formação, e que abriga nomes do primeiro time como Silvio Silva Jr, Marcos Minini, Ericson Straub, Kleber Puchaski, Renan Molin, Renato Faccini, Eduilson Coan, Re-nato Bertão, Ivan Mizanzuk, Ale Tauchmann, Tyler Johnson, entre tantos outros… sem deixar de mencionar os fabulosos Ivens Fontoura e Miran.

Serviço

Com o tema “Criatividade, Inovação e Negócio”, a Semana D, que acontece em Curitiba entre 01 e 07 de outubro, é pensada, formulada e baseada nas grandes semanas de design que acontecem no exterior.  O evento é uma realização do Centro de Design Paraná e da ProDesign>pr e conta com patrocínio do Sebrae, Unicuritiba e  Senai. 

Para mais informações, acesse http://www.semanad.com.br/