Bruno Souto

Por Editor DesignBrasil

“O estágio na Índia foi o prêmio. Fiquei na cidade de Jaipur durante 10 meses, trabalhando numa empresa que fabrica o Blue Pottery, espécie de porcelana artesanal”.

Um estágio no exterior. Este foi o prêmio de Bruno Souto por vencer, ao lado da colega Mariana Nonose Ferreira (sob orientação do professor Yuri Walter), a categoria Veículo para Coleta de Materiais Recicláveis do Concurso Design de Caráter Social, promovido em 2005 pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) por meio do Programa Brasileiro de Design. O projeto chegou a ser exposto na Alemanha, em 2006, na mostra Brasil.
Por não falar inglês perfeitamente, Souto preferiu pular uma etapa e escolheu realizar a premiação no lugar que pudesse. Acabou sendo nùma pequena indústria cerâmica do interior da Índia, a Cia. Neerja International, Jaipur. Em meio a dificuldades de toda espécie, o designer ganhou experiência profissional e histórias para a vida toda.
Souto trabalha atualmente como desenhista projetista das Indusfrio, uma empresa de cozinhas profissionais, em Londrina, cidade em que se graduou pela Universidade Norte do Paraná (Unopar).
Confira sua entrevista, concedida por e-mail, ao DesignBrasil.<?xml:namespace prefix = o ns = “urn:schemas-microsoft-com:office:office” />

 

DesignBrasil Como foi o projeto que ganhou uma das duas categorias do Concurso de Design de Caráter Social, o Veículo de Coleta Seletiva?

 Bruno Souto Em 2005, no último ano da faculdade, enquanto eu escrevia meu Trabalho de Conclusão de Curso sobre o PET pós-consumo, o professor Yuri Walter recomendou que eu aproveitasse o contato que eu teria com uma cooperativa em Londrina e tentasse desenvolver algo para esse concurso. A Mariana Ferreira se somou à equipe e demos início ao projeto. Após várias visitas à cooperativa Reciclando Cidadania, de Londrina, e muitos encontros, terminamos o projeto da primeira fase no último dia da inscrição. Após selecionados oito finalistas, tivemos de levantar patrocínio para construir o protótipo e mandar para São Paulo. A própria Unopar foi nossa maior parceira, financiando a maior parte do projeto. Com um prazo de 20 dias e contando com a ajuda de dois serralheiros e um membro da cooperativa, construímos o projeto. Após o envio do mesmo, aguardamos o resultado torcendo por pelo menos uma menção honrosa. Foi uma grande surpresa receber a notícia de que havíamos conquistado o primeiro lugar, mas muito bom também foi saber que o voto decisivo veio dos cooperados que faziam parte do júri. A grande sacada do carrinho era que ele não era direcionado a um catador individual, mas sim para um grupo, incentivando e facilitando a sistemática de trabalho de uma cooperativa. A prancha do projeto.

A premiação do Concurso. Na foto, da direita para a esquerda: Bruno Vilas Boas Souto, Marcelo Aparecido da SIlva (da Cooperativa Reciclando Cidadania, de Londrina), Mariana Nonose Lopes Ferreira (co-autora do trabalho), Yuri Walter (professor orientador) e um representante do Senac.


DesignBrasil Como você conseguiu um estágio no exterior?

 Bruno Souto O estágio foi o prêmio para primeiro lugar do “Concurso de Design de Caráter Social”, realizado pelo MDIC em parceria com a Unisol. A nossa equipe venceu a categoria “Coleta Seletiva”, mas, até então, não tínhamos destino certo. Até descobrir que eu iria para a Índia e que a Mariana, minha colega de projeto, iria para a Malásia, levou uns oito meses depois do resultado do concurso.

 

DesignBrasil E como foi parar na Índia?

 Bruno Souto A organização responsável pelos intercâmbios/estágios era a AIESEC. Viramos membros da Organização, a qual nos ajudaria a encontrar um estágio que correspondesse ao prêmio oferecido, uma vaga para trabalhar em design. Como inglês avançado é requisito fundamental para realizar o intercâmbio pela AIESEC, isso veio a se tornar um empecilho no momento de encontrar alguma empresa onde eu pudesse atuar, uma vez que não falava o mínimo exigido. Nesse momento entra a Índia. Através de um contato com uma brasileira que morava e estagiava na Índia, Thayse Del Ponte, comecei a negociar meu intercâmbio com a Cia. Exportadora de Porcelana Indiana, o já citado “Blue Pottery”. Todo o contato fora feito via chat ou email, o que facilitou a comunicação pelo tempo maior de resposta. Havia apenas uma condição. O diretor na empresa não aceitou a intervenção da AIESEC, a qual cobraria um valor x da empresa. Entre perder o apoio da AIESEC e esperar por uma oportunidade dentro da organização, adiando o estágio indefinidamente, não pensei duas vezes. Abracei a vaga e assumi a oportunidade por minha conta.Foto acima: Souto numa viagem a Taj Lake Palace Hotel, em Udaipur.

DesignBrasil Quais são as principais lembranças que você tem assim que chegou ao país?

 Bruno Souto O primeiro grande choque, já previsto, foi com o idioma. Eu não possuía conhecimento algum de hindi e tinha um vocabulário pouco extenso de inglês, o que, levando em conta o sotaque do povo local, fez com que os dois primeiros meses fossem os mais complicados de todo o intercâmbio. Desde a saída do aeroporto em Mumbai, a mais de 1000 km de distância do meu destino, até a chegada em Jaipur, senti na pele os obstáculos que viriam a fazer parte da minha adaptação. Como abri mão do apoio da AIESEC, e não tinha nenhum contato em Jaipur, deixei o aeroporto e tentei chegar até a estação ferroviária por conta própria. Já na saída, o táxi que deveria me levar à estação de trem alterou o destino até um hotel num bairro comum. A diferença é que um bairro comum na Índia é tão miserável quanto uma favela. Observando aquele cenário de ruas estreitas e sujas, barracos, pilhas de lixo espalhadas por todos os lados, a única coisa que me veio à cabeça é que eu estava sendo seqüestrado e minha aventura na Índia estava acabando já no primeiro capítulo. Que nada. Eu estava apenas sendo vítima do golpe do hotel. Mesmo implorando e chorando para voltar ao aeroporto, quase fui obrigado a ficar no tal hotel, onde teria que pagar 10 vezes mais caro pela estadia incluída no pacote. Acabei indo de ônibus. A primeira viagem durou cerca de 13 horas. Havia três assentos de um lado e dois de outro, bancos de madeira, sujeira, sujeira, muita sujeira. Pela janela da minha poltrona eu observava centenas de pessoas dormindo na rua, dromedários, vacas, cães, porcos, galinhas, todos transitando no meio das cidades. Templos gigantescos. Templos caindo aos pedaços. Roupas coloridas, dedos e unhas amarelados e alaranjados, terceiros olhos (bindis) e sempre uma sensação de que alguém está te observando. Daí, fiz uma baldeação e troquei de ônibus no meio do caminho. Na agência, onde esperei por oito horas, a água era bebida em concha. O banheiro era uma construção inacabada nos fundos, a poltrona era o chão e, ao entardecer, dezenas de camundongos entravam no estabelecimento. Mais 12 horas de ônibus, dividindo uma “cama suspensa” com outro indiano, mais 12 horas acordado.

Foto: Em Jaipur, cidade com mais de três milhões de habitantes, dromedários e outros animais são utilizados para o transporte.

 


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E como era exatamente o estágio?

 Bruno Souto Fiquei na cidade de Jaipur durante 10 meses, trabalhando numa empresa que fabrica o “Blue Pottery”, espécie de porcelana artesanal especial daquela parte da Índia. Nessa empresa, a Neerja International, eu atuei como designer de produto, confeccionando outros modelos de produtos, e novas estampas. Mas atuei também como suporte para as necessidades gráficas da empresa. Por fora, desenvolvi uma coleção de móveis para um amigo do meu ex-chefe, e um playground para uma ONG da Suíça esta última em parceria com outro designer.

 

 DesignBrasil Como funcionava o processo de criação?

 Bruno Souto A empresa onde fiquei trabalha com artesanato indiano. Eles têm intenção de adquirir um design mais ocidental, mas as restrições dos materiais, processos e mercado limitam bastante o desenvolvimento. Recebendo encomendas diversas, meu papel era o de adaptar os pedidos para que pudessem ser fabricados. Trabalhando com formas e pinturas através de softwares, ilustrava o produto para que uma equipe de produção desenvolvesse. A equipe de produção era formada por seis indianos que não falavam inglês. Essa mesma equipe era responsável também pelos protótipos dos produtos novos. Uma vez um projeto aprovado, eu instruía e acompanhava todo o desenvolvimento. Além da área de produto, fui o responsável pela criação do material gráfico da empresa, fotografia e propaganda.

Foto: Protótipos para porta escovas de dentes.

 

DesignBrasil E como era o contato com outros profissionais de design em seu estágio?

Bruno Souto Sem profissionais! Era só eu, a internet e os meus amigos para tirar dúvidas.

 

DesignBrasil Sob essas condições, que aprendizado você teve com essa experiência?

Bruno Souto Na área de produto, aprendi diversas técnicas para criação de protótipos. Apesar de por vezes rudimentares, as técnicas empregavam vários conceitos de modelagem. Combinando com tecnologia, as etapas de criação podem melhorar consideravelmente, em qualidade, agilidade, entre outros. Pude também aprender a trabalhar com uma produção voltada ao artesanato, em que a mão-de-obra é fator determinante. As limitações dos processos fizeram com que eu me adaptasse àquele modelo de produção. No artesanato, um dos fatores mais importantes é a singularidade. Nenhum produto fica exatamente igual ao outro, e o que para algumas empresas é prejuízo, para esse artesanato passa a ser diferencial. Isso tudo é claro, obedecendo alguns padrões de qualidade, diferenciando defeito de originalidade.

Foto: Funcionário desenvolvendo uma encomenda de azulejos especiais.

DesignBrasil Como era a sua remuneração?

 Bruno Souto Eu ganhava 6.000 rupias, o equivalente a R$ 300. Pouco. Mesmo para a Índia era muito pouco. Passei dois meses sem cartão internacional e nesse período também fiquei sem carne, sem lazer, sem cerveja, sem sair de casa. Mas tem muito contraste com relação a isso. Tinha quem ganhasse menos que eu, e sustentava família. Nesse período, consegui arrumar empregos ou estágios para mais quatro brasileiros lá na Índia na área de design. O último saiu daqui com o dobro do salário que eu ganhava. O custo de vida de um estrangeiro na Índia é realmente mais caro, por ter outros hábitos e padrões de higiene, alimentação e moradia. Quanto mais ocidental, mais caro o custo de vida. Isso como trabalhador, sem falar em turismo.Foto: Os fornos para a preparação das cerâmicas ficam em pequenos vilarejos, ao redor da cidade.

DesignBrasil O que você fez depois de regressar da Índia?

Bruno Souto Ao voltar eu busquei por vagas em processos seletivos para trainees. Nesse meio tempo, encontrei uma vaga de projetista para cozinhas industriais, acumulando experiência em outro segmento do design. Objetivo daqui para frente é o mesmo de antes. Continuo em busca de mais conhecimento e experiências, sempre focando no design. Pretendo cair cada vez mais para o desenvolvimento de novos produtos, os quais possam contribuir para a sociedade.

 

* Entrevista concedida a Juan Saavedra

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