Caça às bruxas pan-americanas: duplo de Cauê aterroriza o poder privado

Por Editor DesignBrasil

O mais recente Golem, por assim dizer, apareceu nas ruas do Rio de Janeiro, durante a competição dos Jogos Pan-Americanos. Seu apelido, Pandemônio.

Há uma lenda medieval judaica que há tempos é relida e reinterpretada, trazendo novos personagens à cultura e ao imaginário. A lenda conta a história de uma estátua de barro que ganha a vida através de palavras mágicas, mas recai em um fim trágico. Incompreendido como um ser diferente, como algo monstruoso, a estátua ou o Golem, como era chamado, não apenas não consegue chegar à humanidade sonhada como só recebe a rejeição das pessoas que o leva à destruição. O Golem se inspira em uma mitologia recorrente, a do duplo (Doppelganger), da cópia exata porém imperfeita do homem e que, por ser imperfeita e muitas vezes fruto da pretensão humana da Criação Divina, leva a si e seu criador à destruição.

Do mito do Golem há um sem número de interpretações e releituras, inspiradas diretamente ou não pela lenda judaica e absorvidos pela cultura pop. Desde Frankenstein, aos vários personagens do cinema expressionista alemão no qual a figura do duplo era recorrente até aos personagens das histórias em quadrinhos, como o Bizarro do Super-Hhomem, o duplo aparece das formas mais originais, seja materializando uma antagonia física, psicológica ou espiritual. O mais recente Golem, por assim dizer, apareceu nas ruas do Rio de Janeiro, durante a competição dos Jogos Pan-Americanos. Seu apelido, Pandemônio, não necessita maiores explicações. Consiste numa releitura ou talvez numa cópia imperfeita do mascote dos jogos, o Cauê, só que com cara de mau e um fuzil na mão. Tendo este Golem aparecido em desenhos de stencil feitos nos muros do Maracanã no início dos jogos, ganhou faixas de protesto e camisetas. Como é a tradição, o Golem foi apagado. Sua natureza imperfeita incomoda os citadinos que agora buscam seu criador, talvez para lhe dar uma punição à altura por ter se equiparado à Deus. Apesar de parecer, não estamos na Idade Média, e a situação adquiriu contornos atuais.

O Dr Frankenstein da criatura, o ilustrador Carlos Latuff, foi autuado no dia 24 de julho, segundo o jornal O Globo, por violação de direitos autorais. Segundo o jornal, a marca é patenteada pelo Comitê Organizador do Pan (Co-Rio) e não pode ser veiculada. A polícia flagrou o dono de uma empresa de silk-screen e um membro da ONG Rede de Comunidade e Movimento contra a Violência usando camisas com a estampa do Cauê armado. Carlos Latuff vai responder ao processo em liberdade. Os pichadores não foram encontrados, dando a entender que estão sendo procurados. E então, como é que fica?

Uma charge é uma crítica social. Faz-se charge com rosto de pessoas por causa disso, e ninguém é processado. O mascote do Pan, como um símbolo público – não no sentido de propriedade autoral, mas no sentido de imaginário – está suscetível também a essas coisas. O problema é esse, quem está no Brasil, que conhece os problemas crônicos do Estado do Rio de Janeiro, fazem uma imediata associação entre o evento que se passa na cidade, associando o seu símbolo aos seus problemas, respectivamente. Quem sabe o que é o Cauê e o que ele representa, sabendo dos problemas do Rio e que o Pan é aqui, é inevitável e improvável a dissociação. Mas me parece que é muito mais recalque do poder público e do temor da iniciativa privada com possíveis prejuízos do que outra coisa, daí a investigação, desproporcional. Acho que é inevitável fazer a leitura do Cauê do mal como crítica social. A grita por causa dessa história é a mesma coisa de ruas no entorno dos jogos limpas e seguras durante o Pan, e depois volta tudo à esculhambação habitual.

Vender camisa com isso com isso é outra história: Aí sim seria violação de direitos autorais, mas não me parece que o Latuff esteja vendendo camisas, diz o designer e ilustrador Marcelo Martinez, membro do Conselho Gestor da SIB Sociedade dos Ilustradores do Brasil e Professor de Direção de Arte na UniverCidade. De fato Latuff declara que nãqo sabia que a ONG tinha utilizado seu desenho. Marcelo lembra ainda que a própria Globo utilizou um duplo do Cauê, o Caô, que também aparecia armado. A mesma leitura do cartunista. Por que a Globo pode e o cartunista não? Será que a Globo pagou pelos direitos autorais do personagem? Ah, verdade, a Globo Marcas licencia produtos do Pan. Mas quando um desenho é absorvido pelo imaginário das pessoas, como controlar? Como controlar as sátiras com a foto de Guevara feita por Korda? Como controlar as releituras, adaptações e piratarias dos Simpsons, encontradas em qualquer lugar do mundo? Que isso não seja interpretado mal, não estou fazendo apologia à pirataria, mas determinados bens-culturais entram, de fato, em domínio público muito antes do que qualquer legislação autorize; mas sim a partir de sua força na mídia, tal sua presença no imaginário.

Quanto ao Latuff, já vi várias charges dele. Sem querer ser seu advogado, mas com seu desenho ele coloca o dedo na ferida, faz as pessoas pensarem. Concordando ou não com as suas idéias, o simples fato de gerar a discussão é salutar. E venhamos e convenhamos, a arte é cada vez mais conformista e menos contestadora. Os ilustradores e a charge ou o cartum, especialmente, são os lugares dessa crítica social – é isso que se espera muitas vezes dela. Pelo menos são as que boa parte das vezes chamam mais atenção. Mas ele sabe o que está fazendo e os riscos que corre, conforme reforça o veterano ilustrador e cartunista Spacca. Afinal, que ninguém espere flores de críticas, ainda mais quando são críticas ao poder público.

Mas eu temo, contudo, quando um cartunista é indiciado, sob qualquer pretexto, visivelmente pelo fato apenas de expor sua opinião e o seu senso crítico com relação à realidade, graficamente e nem foi na mídia -, o que é necessário. Se a moda pega, daqui a pouco não poderemos criticar mais nada que aconteça na esfera pública, ou será privada?

Afinal, quando é censura?

Várias notícias nesse país, de forma oportunista, utilizam a palavra “censura”, quando interessa à determinadas pessoas criar esse factóide. Acho que “censura”e “inflação” são palavras que e, função de nossa história ganharam um peso grande, por razões óbvias e são invocadas ou não, sempre que necessário ou oportuno. É importante separar mesmo quando é e quando não é. Acho que devemos ficar de orelhas em pé quando acontece, de fato atos que ferem a liberdade de expressão.

Enfim, pode ser exagero meu. De repente ninguém se sentiu incomodado com isso. Pode ser um ato isolado. Mas ao meu ver é um ato isolado que pode abrir precedente. Como ilustradores, comunicadores e artistas, quais devem ser nossos limites na hora de ilustrar e fazer humor? Devemos ter limites ou não?

Sobre isso a definição de Spacca é excelente: Quando um cartum (digamos, um cartum racista) sofre uma censura ou processo, não é o direito de expressão dele que está sendo ameaçado; é o direito de expressão geral (de todos os outros que não têm o mesmo poder) que está sendo protegido. O que está sendo limitado é o seu poder de comunicação, não o direito. E poder nenhum pode vir desacompanhado da responsabilidade pelo seu uso. O que não quer dizer que um governo, ou um editor, deva decidir o que o resto do país pode ler, ver e ouvir. Mas assim como nenhum governo ou partido pode tudo, a imprensa o quarto poder também não pode, reforça.

E Spacca tem toda a razão. A minha dúvida é a seguinte e aí saindo totalmente do caso do Latuff: uma matéria de jornal e um cartum são a mesma coisa? Possuem o mesmo peso e nível de leitura? A imprensa, as matérias, as editorias, apesar de isso não ser possível, se vendem como imparciais ou ainda pior, como relatores dos fatos (como se houvesse imparcialidade possível, a incrível balela dos cursos de Comunicação e Jornalismo). Isso tem um registro de leitura diferente do cartum, que é humor e é uma leitura pessoal/artística (ou não?), ainda que encampada por um grande meio. Com o humor sempre há uma tolerância maior.

Por exemplo, o Casseta e Planeta não é lido no mesmo registro do Jornal Nacional, apesar de estar na Globo. Se acontecesse, o que é improvável, do Casseta fazer um cartum eletrônico dentro no Jornal Nacional, como isso seria recebido e lido? Certamente com menos tolerância que o programa deles, mas ainda assim com menos seriedade que a retórica empolada de determinados apresentadores. Por outro lado teve o caso de um político que processou o “Agamenon” no Globo, como se ele fosse um colunista real. Realmente essas coisas devem ser cuidadosas e podem gerar confusão, mas acredito que os limites entre uma coisa e outra são mais ou menos discerníveis, apesar de fazer tudo parte de um mesmo veículo e fluxo. Enfim, é complicado mesmo.

Novamente, ao que Spacca disse: limitar o poder indiscriminado da imprensa não é limitar o seu direito de expressão, logo nem sempre é censura. Mas muitas vezes é o que se fala na mídia, indiscriminadamente, sem distinguir bem as coisas, ao bel prazer dos interesses de ocasião. E isso se vê todo o santo dia.

No caso do Latuff, o desenho dele não ofende o carioca, o que ofende o carioca é a situação de guerra civil que se aprofunda no Estado. E é importante chamar atenção para isso e se pensar tal contraste no momento que o ufanismo impera e esquecem-se as chacinas diárias no Estado. Continuam morrendo várias pessoas diariamente na periferia do Estado do Rio mas os jornais são só elogios para o Pan e não se falou muito disso na mídia, só na internet. Acho que o Golem do Latuff tem uma enorme vitalidade de discussão social, da mesma forma que a manifestação na Cinelândia das provas olímpicas pan-americanas que podem ser vistas em http://pan.uol.com.br/pan/2007/tv/index.jhtm?video=/ultnot/2007/07/24/ult4591u173 (obrigado Mônica Fuchshuber!). Mas qual a visibilidade das duas manifestações? Elas nas ruas têm o mesmo peso de estar na mídia? Se estivesse pichado nas ruas frases como: “Matem Fulano!” ou “Queimem Cicrano!”, ou ainda “Bombardeiem tais instituições!”, eu até entendo ser apologia ao crime. Quando o Garotinho fez sua greve de fome, espalharam um stencil genial por todo o Rio de Janeiro no qual estava escrito: “Garotinho, eterna fome”. Até onde me consta, ninguém procurou seus autores para criminalizá-los liberdade de expressão, não? Já o Cauê armado… Afinal, é uma questão de apologia ao crime como se falou, ou seja, um problema público, ou uma questão de direitos autorais? Brasil e seu velho problema: quando é conveniente a questão é pública, quando é conveniente a questão é privada. Acho impressionante como nesse país, qualquer coisa se fala em censura – perversamente – e quando ela aparece de fato, nada se fala.

A rua é pública e a palavra também. A necessidade de se expressar e de fazer crítica social é fundamental para uma sociedade que queira ser democrática de fato e não apenas quando for conveniente. Talvez tenhamos apenas que ter bom-senso e nos responsabilizar, de forma muito consciente com o que desenhamos e onde colocamos nossos desenhos.

Goethe escreveu que a ironia é a língua do diabo. Outro dizia que a pena é mais poderosa que a espada. Nada mudou, para o bem e para o mal. Na década de 1960 estudantes franceses reproduziam nos muros os dizeres revolucionários dos artistas surrealistas, da arte engajada da década de 1920, o mesmo Proibido proibir que Caetano Veloso bradava quando foi vaiado no Festival da Canção. Se continuarmos a ter attitudes medievais e fazendo provas como tiro ao Golem, é capaz de acertarmos a nós mesmos. A fábula e a literatura já mostraram que isso não é um bom negócio.

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