Cada um tem o seu tubaína

Por Editor DesignBrasil

Cada um tem o seu tubaína

O mercado é como cobertor curto, cobre de um lado e descobre do outro. Quando você pensa que está quase arrumando seus negócios em uma ponta, eles começam a ser desarrumados na outra. Ele é vivo, orgânico e molda-se de acordo com as circunstâncias. É uma lei natural porque agentes invisíveis e inesperados estão sempre atentos para tirar proveito das novas situações, sempre foi assim e assim sempre será.

Quando o sistema de embalagens PET surgiu, propiciou vantagens para ambos os lados, para os consumidores: as facilidades do sistema one-way, pois os frascos não precisavam retornar mais aos pontos de venda. E para quem produzia: melhor logística, menos peso no transporte, melhoria nas operações fabris, baixo custo, higienização e independência das garrafas de vidro. Mas ao mesmo tempo em que isso acontecia, o novo sistema permitiu também o surgimento dos pequenos fabricantes de refrigerantes de “fundo de quintal” que ofereciam refrigerantes de baixo preço e qualidade duvidosa. Logo ganharam o apelido de “tubaineiros”.

O nome “tubaína” é derivado de uma antiga marca popular de guaraná e infelizmente para a marca, a voz do povo já diz que ela representa qualquer produto ou serviço oferecido por preços mais baratos, baixa qualidade e na maioria das vezes, sem ética comercial.

O apelido migrou para outras áreas e também designa maneiras pouco éticas de se trabalhar. Aqui estão alguns exemplos da atuação de “tubaineiros”: amigas minhas, competentes profissionais de tradução simultânea, de repente, viram seus serviços diminuírem com a entrada deste tipo de “profissionais” no mercado. Eles oferecem serviços pretensamente iguais por menos da metade do preço. Só que, na hora de entregar, não terão feito à preparação prévia dos temas que irão ser debatidos e não apresentam o conhecimento técnico que os tradutores simultâneos necessitam. Para a tradução de palestras na área médica, por exemplo, são necessários anos de dedicação e preparo para poder acompanhar a fala de um especialista, conhecer profundamente os termos técnicos e os seus correspondentes no nosso idioma. Imagine o palestrante falando uma coisa e a maria-tubaína, outra. Um dos tubaineiros que incomodam as minhas amigas chegou ao ponto de abandonar um importante assunto no ar e sair para ir ao banheiro e fumar. Para baixar custo ele trabalhava sozinho sem alguém para substituí-lo. E outro que recentemente testou uns 20 candidatos à intérprete num mesmo evento, com o cliente pagando para a platéia ouvir um rosário de asneiras. Quem percebeu o estrago ocorrido? Os profissionais da área médica. Quem não percebeu? A empresa que contratou o mais baratinho e aquele que em nome da economia burra aprovou o crime.

Outro exemplo: os serviços de ortodontia começaram a ficar acessíveis às classes populares e hoje existem planos de até cinqüenta reais por mês para a manutenção de aparelhos dentários. Mas é bom frisar que a avaliação do estado do paciente e o tratamento prévio não estão inclusos no “pacote”. Muitas clínicas estão fazendo planos do tipo “me engana que eu gosto” – o paciente usa aparelho por 36 meses e depois, se não ficou bom, a culpa recai sobre a formação de sua arcada dentária, jamais do profissional.

O fenômeno tubaína está acontecendo em todos os setores; das vendas de roupas às churrascarias que fornecem carnes de procedência duvidosa, mais salada, cafezinho, sobremesa e festa dos garçons se for o seu aniversário. Tudo isso por oito reais. O povão faz a festa e muitas vezes sabe que está sendo ludibriado, mas é o que eles podem pagar. De quem é a culpa? De todos nós que nos deixamos enganar pelos espertinhos querendo ser mais astutos do que eles. Dos governantes que criam leis absurdas e burocráticas e que esfolam nossas empresas com taxas e impostos cada vez maiores. Dos fiscais que fazem vista grossa e põem “o seu” no bolso. Da diminuição do emprego e do poder aquisitivo que nos obriga a comprar marcas, produtos e serviços cada vez piores. Para a classe média, hoje, o mais baratinho é mais importante do que qualidade e benefício.

Voltando aos tubaínas, não satisfeitos com as embalagens novas em pet para engarrafar seus produtos, estão comprando embalagens no lixão, lavando-as com mangueiras de jardim e engarrafando os refrescos. Como dizia meu guru “não abra a porta para o menor dos males que muitos outros entrarão junto”.

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