Cartas para a redação: reações ao caso CEDAE

Por Bruno Porto

“O que ainda nos incomoda é quando um suposto exemplo da nossa atividade recebe atenção nominal em veículos de comunicação de grande penetração e este ao invés de ajudar a levantar o nível, se encontra todo errado, pífio, do processo de concepção ao resultado final”.

No início deste mês de fevereiro de 2007, os designers cariocas acordaram para outro daqueles dias em que dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas em Mauá. Assim como a violência e os escândalos político-financeiros do nosso cotidiano nos anestesiam a cada dia que passa, infelizmente não nos espantamos mais quando outro descaso em design gráfico toma corpo na nossa vida. Mas o que ainda nos incomoda é quando um suposto exemplo da nossa atividade recebe atenção nominal em veículos de comunicação de grande penetração e este ao invés de ajudar a levantar o nível, se encontra todo errado, pífio, do processo de concepção ao resultado final.

Desta vez a vitimada foi (além da nossa classe, por tabela) a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro, a CEDAE, em um destes casos de redesenho de identidade que resvala no bizarro, em que o que mais ressalta é a troca, ou ainda, o abandono, do funcional pelo promocional. A história está abordada de maneira bem completa e comentada pelo designer e professor Mauro Pinheiro aqui www.feiramoderna.net/artigos/cedae.html, que reflete o sentimento geral que assolou uma boa parcela do mercado carioca de design.

Ao contrário do que geralmente acontece, porém, tais reclamações e muxoxos desta vez não ficaram restritos ao chororô das listas de discussão e das comunidades do Orkut. Peço licença para usar o espaço desta coluna para fazer o registro de duas destas mobilizações (e do texto do Mauro), que não só não se rivalizam como até se complementam.

Como de costume, a ADG Brasil encaminhou através da sua Coordenação RJ uma carta ao presidente da CEDAE. Não foi, no entanto, um protesto, nem mesmo uma bronca. Como a própria carta informa, “() a ADG Brasil não está nem pretende colocar-se na posição de inibir iniciativas desse tipo. Sempre que chamada, a associação auxilia empresas, instituições e até mesmo governos a conduzir projetos complexos, zelando pelo respeito ao código de ética da profissão e pelo melhor interesse dessas mesmas entidades”.

Sempre que um caso destes acontece, a Associação vê no melhor dos interesses da classe dos designers a oportunidade de educar, informando, já que a postura é institucional e responsável. E é isso que se procura obter, em outro trecho: “A ausência da Associação ou de um designer no acompanhamento do processo tem dois aspectos negativos. Um deles ocorre ao nível técnico; o outro, ao nível simbólico. Tecnicamente, a ausência de um designer não tem como ser suprida por um profissional de marketing ou de publicidade, uma vez que o arcabouço técnico perceptivo, tipográfico e sistematizador que envolve o desenvolvimento desse tipo de projeto não faz parte da sua formação. As conseqüências disso variam: a marca pode apresentar problemas de originalidade, forma e significado decorrentes de uma avaliação superficial; pode haver dificuldade de reproduzi-la nos diversos meios e formatos em que ela deve aparecer; os códigos visuais que definem a comunicação visual entendida em seu sentido mais abrangente podem estar ausentes ou mal definidos e, finalmente, as aplicações da empresa podem ser desenvolvidas em sentido mais estético que utilitário, sobretudo naquelas que exigem grande precisão e domínio da mecânica da leitura e uso de informações visuais complexas. () Do ponto de vista simbólico, a ausência da associação ou de um designer na condução de um concurso dessa natureza tende a desmerecer a relevância da profissão e da contribuição que ela pode oferecer. () O problema chega, inclusive, a tocar em questões éticas, na medida em que permite aos designers tecerem especulações a respeito das vantagens econômicas que teriam sido obtidas pela Nova CEDAE com a dispensa da contratação de um profissional ou empresa reconhecida e qualificada no âmbito específico do design para responsabilizar-se pelo projeto, por via das formas legais disponíveis. A questão, certamente, ganha valor exemplar por estar associada a uma empresa sediada no Rio de Janeiro, que é um dos berços do design gráfico brasileiro, e por tratar-se de uma estatal de grande porte, setor cuja identidade se confunde com o próprio desenvolvimento do design visual no país, sobretudo se recordarmos a atuação do designer Aloisio Magalhães na definição da identidade de empresas como Petrobras, Furnas, Banco Central do Brasil e Cia Vale do Rio Doce”.

O tom da mensagem da Associação dos Designers Gráficos é conciliador, de olho no que ainda está por vir: “O papel da ADG Brasil nesse caso é claro: alertar empresas e instituições para problemas especificamente vinculados ao design que não estejam recebendo a devida atenção, e colocar-se à disposição para auxiliá-las no que for necessário para remediar esses problemas. () No caso específico da identidade da Nova CEDAE, salientamos que ainda há tempo para intervir no processo ()”. Como é de se esperar, não é sempre que este tipo de contato é bem sucedido no que se refere a resolver aquele problema específico com honrosas exceções colecionadas nestes dezoito anos de existência da entidade. Mas frequentemente aqueles que recebem um comunicado desta natureza voltam a entrar em contato, estando no mesmo cargo ou não, quando surge uma nova oportunidade. É trabalho de formiguinha, como diz uma amiga minha.

Se um movimento por parte da ADG Brasil já era de se esperar, o que surpreendeu foi a ação tomada por alguns designers, que de maneira independente a qualquer entidade, empresa ou associação, redigiram e enviaram uma carta ao jornal que publicou a nota. O que começou em uma desabafal troca emails entre amigos (na qual estive envolvido inicialmente) foi tomando corpo após muito e-debate e resultou no texto “Por água abaixo”, que devidamente autorizado, reproduzo abaixo:

“A notícia teve destaque na edição de terça passada (06/02) de O Globo: Nova Cedae anuncia sua marca. Já havia sido ventilado que a companhia estadual de águas e esgotos mudaria de nome e imagem, o que é, de certa forma, compreensível. Governo novo, uma nova diretoria pronta para arregaçar as mangas e trabalhar e um longo histórico de más administrações anteriores tornavam até mesmo previsível esta formalização da ruptura com o passado negativo. Em tempo de definir novas posições, nada mais natural que estas mudanças passem por uma reformulação da imagem da empresa, incluindo seu sistema de identidade gráfica, e por conseguinte, sua marca visual.

Não é novidade. Comunicação e imagem vêm convergindo de forma irreversível desde os tempos de Gutenberg. É cada vez mais comum que grandes empresas mudem ou reposicionem a sua imagem, alinhando-se com as transformações do mercado global, com a percepção do consumidor, com compromissos ecológicos e sociais. Light, Unibanco e Brastemp são apenas alguns exemplos de bem sucedidos projetos de design.

O fato é que essa mudança pode gerar resultados promissores. Para tanto, concorrem aspectos metodológicos e técnicos nos projetos realizados por designers associados a profissionais de comunicação e estratégia, em empresas especializadas em identidade visual, branding ou construção de marca. Por trás de inúmeras histórias de sucesso, mudanças aumentaram a visibilidade das marcas, a partir de tópicos elaborados juntamente com os clientes, e colaboraram para o crescimento dessas companhias.

Por tudo isso, causou espanto a declaração do Sr. Wagner Victer, presidente da Cedae, de que a nova marca da companhia não é o resultado de um trabalho executado por profissionais; mas sim o fruto de uma criação amadora mais precisamente de um concurso interno entre seus funcionários. Segundo Victer, “com a decisão de criar um concurso interno, a nova logomarca adquire as características que os funcionários sempre esperaram da empresa, modernidade e dinamismo (…) Escolhemos uma marca moderna, que identifica a nova gestão da Cedae, pró-ativa e dinâmica”.

Àparte a argumentação do presidente, o resultado apresentado é passível de interpretações diversas, como toda marca pode sofrer. Uma das associações mais ouvidas no renovado anedotário carioca é que o desenho sugere água suja descendo ralo abaixo. Ou seja: desperdício, falta de saneamento, contaminação. Coisas mais familiarizadas com a imagem da antiga Cedae do que com a proposta da Nova Cedae, não?

Não poderia ser diferente. A responsabilidade de projetar um sinal gráfico, parte de um sistema complexo de identidade visual e de suas implicações na estratégia de comunicação de uma empresa, envolve competência, planejamento e saber próprios da atividade profissional de designers e comunicadores. Um bom sinal gráfico é apenas uma das inúmeras manifestações da imagem de uma empresa, envolvendo mudanças de atitudes, procedimentos, transparência e tudo que afeta diretamente uma imagem empresarial.

Quando a Cedae transforma a criação da síntese da sua imagem institucional em uma campanha de motivação de funcionários, demonstra falta de zêlo quanto à sua própria comunicação, resumindo o trabalho a uma mera representação formal. E ignora toda uma classe de profissionais, as instituições de ensino superior em design e suas associações de classe. Em passado relativamente recente, as empresas públicas, governos e órgãos federais do Brasil valorizavam a estratégia configurada no bom desenho. Tempos da marca da Petrobrás, do selo do Quarto Centenário do Rio de Janeiro e tantos outros incluída aí a própria Cedae. Bem distante das atuais demonstrações de falta de cultura visual associada ao pensamento estratégico, e da interpretação equivocada de que design seja produto de elite.

O design brasileiro, não à toa, vem se destacando como diferencial competitivo de empresas, produtos e serviços. No exterior, a excelência de nossos profissionais é reconhecida e premiada.

Design é uma atividade profissional a serviço da informação, da identidade e da comunicação. O poder público, e a população a bem dizer, seu público poderia certamente obter benefícios diretos através destes recursos.”.

Diferente do que alguns podem achar, o texto não é um manifesto, não é um parecer, não é um documento de classe, não é autopromoção. É apenas a opinião dos designers que assinam o texto no caso, os cariocas Marcelo Martinez, Evelyn Grumach, Guto Lins e Ricardo Leite , e opinião é coisa que eu e você também temos. E que podemos todos externar (ainda mais em um democrático Cartas para a redação de jornal) desde que embasadas. O tom desta é diferente do tom da carta da ADG Brasil, apesar de ambas possuirem uma preocupação didática. Esta última é crítica sem ser agressiva, fala com autoridade, sem ser impositiva. E especialmente significativo por isso achei merecedor de registro nesta coluna (dando um intervalo aos tópicos chineses que voltarão em breve) foi o apoio que a carta recebeu de mais de uma centena de designers fluminenses e de outros Estados, de diferentes gerações e nichos de atuação profissional. Nomes como Ivan Ferreira, Egeu Laus, João Lutz, Billy Bacon, Kiko Farkas, Jair de Souza, Michel Lent Schwartzman, Ana Soter, Gilberto Strunck, Rico Lins, Edna Lúcia e Guilherme Cunha Lima, Renato Alarcão, Roberto Eppinghaus, Rafael Cardoso, Fernanda Martins, José Elesbão Bessa, Gustavo Piqueira, Ana Couto, Ronald Kapaz, André Stolarski, Carlos Horcades, Gabriel Patrocínio, Cecilia Consolo, Alceu Chiesorin, Marco Aurélio Kato, Marcio Shimabukuro, João de Souza Leite, Milton Cipis, Guto Indio da Costa, Washington Dias Lessa, Giovanni Vannucchi, Marcelo Aflalo, Priscila Farias, Fabio Lopez, Eduardo Braga, Natascha Brasil, Batman Zavareze, Beto Martins, Sandro Menezes, Leonardo Eyer, Elio Grossman, André Beltrão, Yomar Augusto, Valéria London, Rafaela Wiedemann, Valerie Tomsic, Aline Haluch, Julieta Sobral, Gloria Afflalo, Ricardo Hippert, Bitiz Aflalo, Daniel Biron, Marcos Corrêa, Sonia Valentim de Carvalho, Isabel Lippi, Henrique Nardi, Junior e Duda Simões, Eduardo Denne, Mari Pini, Tulio Mariante, Silvia Steinberg e Roberto Verschleisser, entre outros inclusive deste escriba.

Apesar das diferentes origens (institucional X pessoal) e formas de abordagem, estas manifestações são exemplos da união, permanente ou efêmera, de nossos profissionais na defesa de seus interesses comuns. Em uma era de “coletivos”, muitas vezes descartáveis e demasiadamente individuais, dá gosto o resgate do significado da palavra “associação”.