Cem Mil Bolsistas no Exterior

Por Editor DesignBrasil

Há duas semanas conversei com um grupo de alunos brasileiros que vieram para o Illinois Institute of Technology em Chicago fazer um ano de intercâmbio, com bolsas do “Programa Ciência Sem Fronteiras”. A maioria dos estudantes era das engenharias, um da arquitetura e NENHUM do design. Sai intrigado daquele almoço de cerimônia, me perguntando: o que está acontecendo com os nossos estudantes de design?

Imaginei primeiramente que talvez nossos estudantes de design não tenham a mesma determinação dos estudantes das engenharias, que talvez o programa de bolsas esteja mais voltado para áreas especificas, ou ainda, que talvez a informação sobre esse programa de bolsas não estivesse sendo devidamente divulgado entre a comunidade do design. 

Trabalho com estudantes de design no Brasil e sei que são extremamente dedicados, e portanto descartei aquela hipótese. Verifiquei então na página do programa Ciência Sem Fronteiras e, é fato, lá está, como área prioritária, a Indústria Criativa voltada a produtos e processos para desenvolvimento tecnológico e inovação; uma área que pode muito bem incluir cursos de design, principalmente naquelas escolas que focam a inovação. Depois de eliminar as duas primeiras hipóteses, fiquei inquieto por achar que a informação não está chegando até a ponta, e portanto resolvi ajudar na divulgação desse programa que pode abrir diversas portas para muitos dos nossos estudantes de design. 

O programa Ciência Sem Fronteiras busca promover a expansão e internacionalização da ciência e tecnologia, da inovação e da competitividade brasileira por meio do intercâmbio de estudantes, professores e pesquisadores. Entendo que 100 mil bolsas estão sendo distribuídas ao longo de 4 anos, todas voltadas para estudantes de graduação e pós-graduação e em diversas modalidades. O programa tem um website detalhado, com todas as informações pertinentes. Se você, estudante de design, pretende alavancar o seu talento, essa pode ser a oportunidade!

Àqueles que se aventurarem, sugiro investigar a fundo as escolas que mais se destacam. A oportunidade é muito boa para dar um tiro no escuro e as opções hoje são muito distintas. Nos EUA, o Instituto de Design do Illinois Institute of Technology (ID-IIT), foca nos métodos e ferramentas do design estratégico, e na pesquisa primaria junto aos usuários. Fundada em 1937 por László Moholy-Nagy, a escola passou por diversas fases, sempre buscando tornar o design um profissão de destaque. Além de realizar trabalhos com grandes empresas (Toyota, McDonald’s, Microsoft, Pepsico), possui uma rede valiosa de ex-alunos espalhados pelo mundo a fora. Foi também a primeira escola a oferecer o curso de doutorado em design nos EUA e é conhecida por aplicar a abordagem “Human-centered Design”, ou design centrado no ser humano.

Como ex-aluno do ID-IIT, minha visão é positivamente distorcida em função de ter tido uma passagem muito boa naquela escola. Sugiro portanto investigar outras escolas igualmente interessantes, com diversos focos de atuação, desde o design tradicional (RISD em Providence, Art Center College of Design em Pasadena) ao design estratégico (Segal Design Institute da Northwestern University, Institute of Design da Stanford University, Parsons School of Design em NY, Carnegie Mellon em Pittsburgh, entre outras). No final, o que conta é a intenção do aluno, se prefere trabalhar como designer (de produto ou gráfico) ou como estrategista e pesquisador desenvolvendo conceitos para grandes empresas. O website core 77 fornece uma lista completa de escolas: http://www.core77.com/design.edu/

A definição da escola é, no entanto, o primeiro passo no processo de busca por bolsa de estudos. Como ex-bolsista, admito que o processo não é fácil, requer persistência e paciência. Se você tiver esses dois ingredientes na sua personalidade e o momento for adequado, a sua busca pode se transformar num trampolim quando você conseguir a primeira bolsa. Principalmente agora, com o programa Ciência Sem Fronteiras, a batalha por uma bolsa fica a mil léguas de distancia da minha experiência.

Quando estudante, consegui bolsas de estudos em diversos lugares. Foram seis pra ser mais preciso. Comecei pelo British Council e depois Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID. As duas instituições negaram minha candidatura. Lembro que fiquei mudo e chateado, mas aprendi bastante com aquelas experiências e resolvi continuar a procura. Eu tinha um sonho de fazer mestrado nos EUA e não podia permitir que aquele sonho fosse apagado. A primeira instituição que acreditou no meu sonho foi a Associação de Educação Internacional do Japão que me concedeu uma bolsa completa para fazer um curso de extensão na Sophia University (Jochi Daigaku) em Tóquio. Já em Tóquio, numa noite de estudos, tentando decifrar os ideogramas e alfabetos japoneses, minha mãe me liga do Brasil, dizendo que tinha recebido, naquele minuto daquela manhã, uma carta da Organização dos Estados Americanos (OEA) e que estava de joelhos no chão, chorando e agradecendo aos Céus e a OEA por me trazer para mais perto do Brasil. A carta da OEA confirmava bolsa para fazer o mestrado nos EUA. Do Japão, lá fui eu para o ID-IIT em Chicago, FELIZ DA VIDA em tornar o sonho em realidade.

Ao chegar em Chicago, também consegui bolsa parcial, o que deixou a OEA bastante satisfeita. Enquanto no mestrado, resolvi buscar bolsas de doutorado. O ID-IIT novamente concedeu uma bolsa de um ano para que eu pudesse iniciar o doutorado, por meio de um grupo de pesquisa do qual eu fazia parte. Com um pouco de sorte e experiência das outras bolsas, consegui resultados positivos também da CAPES e do CNPq para os outros 3 anos de doutorado. Fiquei com a bolsa do CNPq até o final do doutorado.

A busca por bolsas é um processo interessante e hoje utilizo aquele aprendizado para ajudar empresas na busca de recursos para o desenvolvimento de produtos, processos e serviços inovadores. O Design não pode deixar na mesa oportunidades como esta oferecida pelo Ciência Sem Fronteiras e por isso escrevi este post, na esperança que parte daquelas 100 mil bolsas possam realizar os sonhos dos nossos futuros designers. Boa sorte aos novos navegantes!

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6 Comentários

  1. Adailton disse:

    Obrigado pelas dicas Adriano!

    Abraço

  2. eltonbelsousa disse:

    Eu já estava entusiasmado com a ideia de poder fazer intercâmbio na área de Design, agora que eu quero mesmo.
    Valeu Adriano, vc é o cara.
    Abraço.

  3. Ana Laura disse:

    Oi Adriano! Li o artigo e me interessei muito, tanto que entrei no site do IIT mas observei que alunos a partir de 28 anos que podem ingressar no mesmo para realizar o mestrado…isso ta certo ou é uma média das pessoas que entram? Muito Obrigada.

  4. [email protected] disse:

    Ana Laura, 28 anos é média das pessoas que entram no ID/IIT. Imagino que essa referencia é para lhe dar ideia da idade das pessoas que vai encontrar no ID. Boa sorte!

  5. [email protected] disse:

    Oi Adriano, tudo bom? Achei muito providencial seu artigo. Atualmente ando pesquisando cursos de doutorado no exterior,com bolsa é claro. Vi o programa na NSCU e na IIT, assim como a Royal College. Gostaria do seu contato,se não for incômodo. Quem sabe você me ajuda com algumas dúvidas referentes ao direcionamento de pesquisa da IIT?

  6. bruna disse:

    ótima matéria, você poderia indicar a melhor escola que ofereça bolsas para design gráfico nos estados unidos?
    obrigada!