Coisa ou objeto? A semântica do Design

Por Ivens Fontoura

É surpreendente que em pleno terceiro milênio ainda pergunte-se: coisa e objeto é a mesma coisa? Afora o pleonasmo, respondo enfaticamente: não!

As frases ‘diga-me uma coisa…’, ‘que coisa, heim?’ ou ‘o que significa esta coisa?’ parecem tratar de diferentes situações; menos de objetos. Coisas e objetos fazem parte da vida de todas as pessoas. Com certeza, é uma questão cultural. A princípio, parece tratar-se de algo semelhante, onde coisas e objetos fazem parte do mesmo universo. Não obstante, ainda que muitos dicionários atestem como sinônimos, definitivamente, coisa não é objeto. Ao considerar, por exemplo, um pedaço de madeira ou de rocha como coisa, o objeto encontra-se mais além, resultado do processo daquilo que se pode chamar descoisificação. Em outras palavras, o objeto é resultado de um projeto de design e transformação da matéria-prima, chegando a determinada configuração. Para o desenvolvimento deste fenômeno é necessário projetar, isto é, uso de ideia que se forma no sentido de realizar algo no futuro. Trata-se, portanto, do ato de desvendar o desconhecido e o inusitado ao dar-lhe simultaneamente significado.

O homem do Paleolítico transformou o sílex em machado. Para tal, bastou unir o sílex a um cabo de madeira por meio de uma amarra, usando fibras naturais como corda. É sabido que durante todo o processo evolutivo a humanidade vem transformando coisas em objeto e, por consequência, objetos em novos objetos. Do Paleolítico à era da Informática, muita água tem passado por baixo da ponte…

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Quando o norte-americano Dean Kamen anunciou que havia desenhado um produto capaz de revolucionar o comportamento da humanidade para deslocar-se nas grandes cidades, o chamou primeiramente de The It, isto é, ‘A Coisa’: um objeto escondido dentro de uma caixa. Tratava-se naquele momento de um anúncio, chamando a atenção para o surgimento de um novo objeto. Passado o tempo das ações de marketing, publicidade e propaganda do mistério anunciado, em dezembro de 2001, Dean Kamen o chamou de Segway Personal Transporter, caracterizando-o como um objeto de caráter revolucionário. No ano seguinte, começou a fase de comercialização como resultado da cooperação entre ciência, design e engenharia. Em 2006, foi anunciada sua segunda geração por sete mil euros. Hoje, cerca de trinta mil reais.

Tomando este caso como exemplo, o Segway PT é um meio de transporte de duas rodas, funcionando a partir do equilíbrio do indivíduo que o usa. A nova tecnologia conhecida como LeanSteer usa uma inteligente rede de sensores, mecanismos e sistemas de controle, que permitem ao veículo o auto-equilíbrio e o deslocamento sobre duas rodas apenas. Quando se desloca, cinco micro-giroscópios e dois acelerômetros estudam as mudanças no terreno e a posição do corpo do condutor, a uma velocidade de 100 vezes por segundo. Para que o veículo avance, basta que o indivíduo só precise inclinar-se para frente; ao contrário, para que recue é necessária a inclinação para trás. Enquanto que para mudar de direção basta oscilar o braço central de apoio e comando do veículo para o lado pretendido.

Outro caso exemplar ainda pode ser conferido na literatura e no cinema. Entre os personagens da estória The Addams Family, criada por Charles Addams nos anos trinta, um deles é conhecido como ‘A Coisa’. Trata-se da figura de uma mão branca, que primeiramente não saída do interior de uma caixa, lembrando o artifício de Dean Kamen ao anunciar o resultado de seu projeto sem mostrá-lo para a sociedade. Mais tarde, ‘A Coisa’ da Família Adams, passou a caminhar pelo ambiente doméstico onde se passa a história da família. Porque seu autor chamou um componente do corpo humano de ‘A Coisa’? Seria por se trata apenas uma parte do corpo, ao contrário de ser completo?

Contudo, a constatação mais simples de demonstrar tal conhecimento fica por conta de alguns habitantes de Florianópolis, Santa Catarina. Trata-se do simpático ‘mané’, conhecido nacionalmente como ‘manezinho da ilha’. Em sua sabedoria popular eles costumam dizer: “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”, enaltecendo a diferença. É engraçado, mas é claro que se trata de coisas diferentes. Uma delas talvez seja um objeto!