Como matar um designer

Por Ronald Kapaz

“Há um número infinito de ciências, mas sem uma ciência básica, ou seja, sem saber qual o sentido da vida e o que é bom para as pessoas, todas as outras formas de conhecimento e arte se tornam um inútil e perigoso entretenimento.”

  Leo Tolstoy, Calendar of Wisdom

 

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Foi num debate com colegas que este insight me ocorreu. Discutíamos sobre o presente e o futuro de nossa profissão, um tema recorrente…Mas, dada a atual crise e uma série de fatos novos no horizonte, um tema que passou a ocupar a atenção de cada um de nós.

Nunca fomos tão valorizados, concluímos juntos nesta conversa, e nunca, quem sabe, estivemos tão ameaçados pelos recentes movimentos das grandes corporações, concluí depois, pensando sobre o tema. Aqui vai uma tentativa de explicação do meu ponto.

Há 37 anos pratico o design por vocação e por paixão pela magia e sempre surpreendente dimensão e poder do desenho. Desenhar é dar forma a uma ideia, uma visão de mundo e uma interioridade que, materializada, pode ser compartilhada e refinada pela contribuição do olhar do outro. Se não houvessem as diferentes linguagens com as quais nos expressamos – e o desenho como uma delas – seríamos caixas-pretas isoladas de nossos semelhantes e limitadas, em nossa existência, a nossos instintos animais de sobrevivência e crescimento natural, como tudo que vive.

Graças à troca que a linguagem permite, podemos crescer com a experiência do outro, questionar o mundo, questionar a vida, questionar a morte, questionar as ideias e os Deuses, e formar nossa grade de valores e crenças pessoais que, como uma bússola maleável, vai se refinado a cada encontro com o mundo e com o outro.

É o encontro com o diferente que mais provoca nossas convicções e crenças e nos faz avançar, introduzindo a dúvida, o desequilíbrio construtivo, e o crescimento que sucede toda reflexão sadia.

Olhando a maneira como nos organizamos enquanto sociedade nos últimos séculos, vê-se que escolhemos segmentar a crescente extensão do conhecimento em áreas de especialidades, que estruturam, deste o princípio, nossa visão de mundo, e que começam na formação de nossas crianças e de novos indivíduos nas escolas.

“O que você vai ser quando crescer?”

Somos, desde cedo, convidados a escolher uma determinada área do conhecimento, uma vocação, e a seguir toda uma carreira profissional dedicada a aprofundar este conhecimento de forma vertical, encontrando assim um lugar na sociedade (produtiva) que nos situe e nos dê uma identidade social, a ser cultivada, protegida e apresentada para um outro. Assim, nos “dividimos” em médicos, advogados, engenheiros, administradores, economistas, etc. E médicos acabam por conviver com médicos (e muitas vezes se casam com médicas), advogados com advogados (idem), engenheiros com engenheiros, e assim por diante.dragon

Essa segmentação do conhecimento foi se compartimentando na modernidade, de forma crescente, em diversas áreas de especialidades, mas tendo partido de uma primeira grande divisão estruturante: as segmentação entre ciências humanas e ciências exatas. De uma lado, o conhecimento “racional” do mundo e o universo da ciência e da lógica. Do outro, o conhecimento sensível, e o universo da intuição e da arte.

O Design foi, desde sempre, uma disciplina de fronteira, por integrar e aproximar ciência e arte, harmonizando forma e função.

O Design estratégico, ao qual me dedico hoje, onde se dá forma e conteúdo a propostas de valor e se constroem identidades de marca – e onde se refinam e constroem valores humanos e valores econômicos para empresas, produtos e serviços – tem na sua essência a responsabilidade de promover a (re)aproximação da ética com a estética, promovendo a reflexão qualificada sobre a essência das diversas organizações (seus valores) e sua manifestação no mundo (seus produtos).

Assim, tendo como desafio receber e ouvir as mais diversas naturezas de demandas, que podem vir de organizações de médicos e de hospitais, de grupos de advogados e bancas de direito, de engenheiros e questões ligadas à incorporação de edifícios, bairros ou cidades, somos expostos diariamente à diversidade e à riquesa de poder ouvir e ter que estudar a singularidade da medicina, do direito ou da engenharia, para citar alguns universos apenas, e assim poder vivenciar a beleza e complexidade das diversas áreas de conhecimento, de forma rica e transversal.

Este exercício da prática profissional nos oferece o privilégio de poder ver o homem de diversas perspectivas e perceber as diversas formas de ver o mundo, de agir no mundo e de pensar o mundo. Um caleidoscópio de temas que, vistos em profundidade e em perspectiva, nos permitem identificar os sinais de uma cultura, as marcas de um tempo e os valores de uma sociedade.

Esta rica visão é oferecida ao profissional designer que se dedica a sua prática de forma independente, em empresas ou consultorias de design, oferecendo ao mercado e a quem o procura a riqueza da transversalidade, pluralidade e universalidade do conhecimento que a prática diária lhe proporciona, e a neutralidade e isenção de interesses que um prestador de serviços autônomo tem, e precisa ter, se comparado com outras formas de vínculo profissional.

Ver o mundo de fora, e ver o mundo em sua pluralidade de facetas me parece ser um privilégio singular (que celebro diariamente!) que transforma e forma o profissional designer, tendo assim este a responsabilidade de compartilhar esta riqueza como parte estrutural de sua prática e de seu valor para a sociedade. Provocar e promover a visão transversal e o cruzamento de perspectivas enriquece o conhecimento e dá sentido profundo ao fazer do designer e a quem ele atende.

A preocupação que originou esta longa pontuação preliminar se deve ao que estamos vendo acontecer hoje. De um lado, como citei no começo desta reflexão, nunca o designer foi tão reconhecido e valorizado pela sociedade e pelas organizações. Talvez por conta disso, vemos grandes corporações constituindo departamentos de design e trazendo para dentro de suas estruturas este profissional que, como parte dela, passa a direcionar sua prática de forma compartimentada, tendo como objeto de sua atenção os temas referentes à natureza específica desta corporação.

Assim, se dediquei uma longa argumentação para tentar ilustrar o valor e a riqueza da pluralidade e da diversidade que molda um indivíduo em geral, e um designer em particular, quando ele atua de forma independente e vive uma rotina diversificada de encontros que vão dando sentido à sua responsabilidade de integrar, de aproximar e de humanizar demandas pragmáticas, vejo com alguma preocupação esta tendência de internalização da disciplina pelas corporações, que me fez escrever este breve texto e me faz terminar com esta inquietação, que deixo para nós refletirmos e ponderarmos:

Perderemos, assim, a capacidade e o dever de identificar, acolher e integrar o diferente? De (re)aproximar, através de um olhar holístico, o que foi compartimentado pela lógica produtiva vigente, recuperando, quem sabe, o valor renascentista da pluralidade do conhecimento? Estaremos nos transformando em “burocratas criativos”? Sobreviveremos?

Pensemos…

“Nós vemos o mundo parte por parte, como o sol, a lua, o animal, a árvore;
mas o todo, do qual estas são partes luminosas, é a alma.”

 Ralph Waldo Emerson