Como o design está acontecendo no Leste e Centro Europeu?

Por Editor DesignBrasil

Gisele Raulik Murphy entrevista Judit Várhelyi, diretora do Design Council da Hungria e também membro do Conselho Executivo do ICSID em 2005-2007.

Judit Várhelyi (foto) é diretora do Design Council da Hungria e também membro do Conselho Executivo do ICSID em 2005-2007. Nesta entrevista, concedida ao SEEdesign Bulletin (www.seedesign.org) em 2007, ela fala dos recentes desafios e potencial para o suporte em design no seu país. O Leste e o Centro da Europa têm enfrentado mudanças semelhantes como a abertura de seus mercados, a competitividade do restante do continente e também a adaptação à economia e regras da comunidade européia. Judit tem atuado ativamente para que os países colaborem entre si na implementação de programas de design. Um dos objetivos é fortalecer a indústria local mas a promoção da imagem desta região internacionalmente através do design também é um dos focos do trabalho. Na Hungria, Judit tem trabalhado com persistência para a abertura de um centro de design nacional, o que deve acontecer ainda neste ano de 2007. Confira a entrevista:

Judit, como você se tornou a diretora do Design Council da Hungria?
Estou na direção do Design Council (HDC) desde 2002. Embora formada em Arquitetura, pela Universidade de Tecnologia e Economia de Budapeste, trabalhei em várias profissões: designer, consultora, professora e jornalista. Pode parecer estranho, mas nunca tive oportunidade de trabalhar como designer na Hungria, pois me mudei para Tóquio algumas semanas após minha formatura. Inicialmente, o plano era de uma viagem breve de estudo, mas isso se transformou em 10 anos de permanência no Japão. Lá trabalhei para Nikken Sekkei, um dos maiores escritórios de arquitetura do mundo, e para outros pequenos estúdios. Retornei a Budapeste em 2000 e trabalhei como consultora e jornalista. Um dos meus trabalhos tinha conexão com o HDC. Nesta oportunidade me convidaram para atuar nesta organização. É engracado como a vida se repete como estudante, eu dedicava tempo para networking e servia como ponto de contato na Hungria para o EASA (Assembléia Européia de Estudantes de Arquitetura) entre 1986 e 1988. Agora trabalho na promoção do design (e não como designer), além de fazer parte de organizações internacionais como ICSID, representando a Hungria.

Você poderia descrever como o design está organizado na Hungria?
O Design Council é uma organização governamental não executiva, com um departamento dedicado à promoção do setor. Nossa principal missão é influenciar estratégias políticas, mas também promover a consciência sobre o design como um instrumento de progresso e o papel de designers na indústria e sociedade. Nossas atividades anuais mais importantes são o Prêmio de Design Húngaro e o Fundo Moholy-Nagy László de Design para jovens profissionais. O HDC tem sido relativamente ativo por mais de 20 anos e foi completamente reorganizado em 2002. O Conselho trabalha atualmente com o Governo para a abertura de um centro de design em Budapeste. O Design Terminal, uma nova organização que deve atuar como centro, está previsto para inaugurar em 2007. Este centro deve estabelecer uma forte conexão entre a comunidade de design no país atuando tanto como um realizador de eventos quanto como uma ponte entre designers e clientes. No âmbito profissional, os designers húngaros estão organizados em uma associação de artistas junto com pintores, escritores, músicos etc. Esta é uma situação remanescente do tempo comunista, semelhante em outros países nesta região. No entanto, a posição é desfavorável e torna a defesa de objetivos individuais mais difícil para as diferentes profissões. Na educação, a Universidade de Arte Moholy-Nagy tem mais de 100 anos. Os cursos são baseados na divisão clássica de disciplinas. Existem também vários cursos de design em Escolas de Engenharia, baseado no modelo da universidade holandesa TU Delft.

A queda da cortina de ferro e a abertura de mercados certamente teve impacto no design no Leste Europeu. Que tipo de desafios emergiram após esta mudança?
Mais de 15 anos se passaram desde que o colapso da cortina de ferro expôs o Leste e Centro Europeu ao resto do mundo. Por 50 anos, após a Segunda Guerra Mundial, os países desta região compartilharam destinos semelhantes sob o regime comunista, ainda que com diferentes níveis de liberdade. Os anos após o comunismo também foram parecidos para todos: rápida introdução do capitalismo, sofridas reformas econômicas, mudanças dramáticas de Governo, repentinas alterações de cenário. Apesar da herança da era comunista, a região está longe de ser homogênea. Nível de desenvolvimento antes do século 20, língua, religião, área, população Todos estes fatores variam muito de país para país (exemplo de dois extremos: Polônia tem mais de 38 milhões de habitantes, enquanto Estônia tem 1,4 milhões). Ao contrário de expectativas, nem todo o design tem sido beneficiados com a nova economia de mercado. Design de produto é um bom exemplo. Durante a era comunista, programas sociais como moradia, grandes indústrias e empresas proporcionavam bons empregos para os designers locais. Após as mudanças políticas e econômicas, grandes empresas e conglomerados industriais foram quebrados em empresas pequenas. Estas foram em sua maioria vendidas ou fechadas, extinguindo as equipes internas de designers. A maioria das grandes operações agora está em mãos de investidores estrangeiros que contratam serviços de design em suas sedes, restando poucas oportunidades aos designers húngaros.
Por outro lado, um grande número de empresas privadas, na maioria pequenas empresas (PMEs), instalaram-se na região desde a década de 90. A melhoria das condições de vida e o crescimento de negócios também criou um mercado para design de interiores, propaganda, design gráfico e web design. No entanto, nesta primeira geração de PMEs, muitas são micro empresas, negócios familiares, onde ainda existe muita resistência e precaução na contratação de designers. Neste cenário, políticas governamentais, organizações de suporte e incentivos financeiros são cruciais para ajudar estes pequenos negócios a utilizar design com sucesso. Mas existem sinais de melhora. Empresas locais (manufaturas e serviços) começam a competir no mercado internacional e logo percebem os benefícios do design.

Como o centro de design da Hungria se encaixa neste contexto?
O novo centro de design chamado Design Terminal será independente, sem fins lucrativos e deverá atuar em vários níveis. A organização deverá promover design para o público em geral através de exposições e eventos, como a Semana de Design de Budapeste. Deverá também oferecer serviços para a indústria um banco de dados de designers, serviço de consultoria individualizado, além de seminários e workshops.
Importante dizer que o centro será alojado em um prédio tradicional dos anos 40, localizado em um terminal de ônibus abandonado (daí o nome). Este prédio é uma construção conhecida, convenientemente localizado em uma praça central de Budapeste. Esperamos que o Design Terminal ganhe reconhecimento e popularidade assim que aberto.

Como tem sido o processo de abertura deste centro? Vocês compararam o projeto com centros de design de outros países?
A implementação segue algum modelo estrangeiro ou é uma combinação de suas próprias experiências?
A idéia do centro não é uma novidade na Hungria. Na verdade, a Câmara de Comércio já apoiou projeto semelhante no passado. O Design Terminal será aberto sob o comando do mesmo Diretor, Mr. Mihály Pohárnok, que trabalhou como consultor e educador por uma década. Eu acredito que mesmo modelos estabelecidos e de sucesso reconhecido devem ser adaptados para a realidade local e demandas de uma região. O Design Council da Hungria contratou uma pesquisa em 2001 sobre a situação do design no país e exemplos de boas práticas nesta área em países estrangeiros. O relatório final serviu de base para o nosso trabalho, assim como para o programa do centro de design. Como disse, o programa de qualquer centro nacional deve respeitar a realidade do país. No entanto, se há um modelo que pode ser enfatizado, eu diria que o Centro de Design da Dinamarca foi uma importante inspiração.

Como é o relacionamento entre design e governo na Hungria? Existe um suporte (financeiro ou político) do governo para que empresas utilizam design?
O HDC foi originalmente estabelecido pelo governo como um conselho, um departamento não executivo. Nosso orçamento é proveniente do Tesouro, e o Design Terminal também receberá do governo um apoio financeiro substancial no início das operações. O Ministro da Economia mantém o Prêmio de Design Húngaro como uma premiação nacional, com o objetivo de promover designers e empresas de sucesso no país.
Apesar destes fatos, design ainda é considerado como pertencente à agenda da Cultura. Esta é provavelmente a principal razão porque, apesar das várias iniciativas, ainda não há um programa de suporte para PMEs no uso do design. Até onde eu sei, o único programa deste tipo estabelecido em nossa região está na República Tcheca. Este é um dos nossos principais desafios. O HDC deverá trabalhar junto ao Design Terminal para coordenar os esforços neste sentido.

Frequentemente você refere-se à nossa região. Você também dá sinais de forte cooperação entre os países do Leste e Centro Europeu. Como este relacionamento tem beneficiado programas de suporte em design na região?
Um forte relacionamento existia na era comunista. No entanto, quando eu iniciei o Encontro Regional em 2004, percebi que a conexão tinha parcialmente desaparecido, apesar de ainda mantermos objetivos comuns e termos desafios semelhantes quando trabalhamos para promover design ou para promover nossos países através do design. Está claro que precisamos trabalhar mais próximos e aprender a trocar experiências.
Eu me orgulho de dizer que o primeiro Encontro Regional foi um evento marcante. Desde então, tivemos mais dois encontros: em Cieszyn (Polônia) e em Liubliana (Eslovênia). Profissionais de associações de design, escolas e centros são contatos regulares agora. Outro produto desta rede é um amplo banco de dados de organizações relacionadas com design na região. Esta fonte de contatos está disponibilizada online no website do HDC: http://www.hpo.hu/English/hivatalrol/testuletek/mft/europe/index.html. O diretório cobre instituições de 20 países. O objetivo deste projeto é conectar e facilitar a comunicação na região, além de abrir caminhos para comunicação com o restante do mundo.

Quais os principaís desafios que a Hungria e os países desta região enfrentam na promoção do design?
99% das empresas na Hungria são PMEs e 96% têm menos de 10 empregados. A maioria destas empresas é a primeira geração de PMEs, enfrentando inúmeros desafios. A longo prazo, elas devem beneficiar-se do desenvolvimento de seus próprios produtos e serviços. No entanto, neste momento, o caminho de menor resistência os leva a produzir componentes ou produtos anônimos para multinacionais. Infelizmente este caminho não leva a contratação ou ao relacionamento com profissionais de design. Este é um dos nossos desafios atuais.

* SEEdesign é uma rede de centros de design europeus que colaboram para a troca de experiências na área de suporte e promoção de design. O programa é parcialmente financiado pela União Européia através do Programa INTERREG IIIC.
** Esta entrevista foi originalmente concedida em inglês e está publicada no SEEdesign Bulletin Issue 4 (disponível para download: www.seedesign.org). Para manter a fidelidade com as idéias originais, algumas palavras não foram traduzidas para o português.

Erzsébet tér Bus Station construída em 1949 em Budapeste. Designer: István Nyíri (renovado em 2006 por János Golda and Attila Madzin).

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