Cristina Zatti

Por Editor DesignBrasil

“É um estímulo ver que essas pessoas que gostam da Coza pensam nela como um solucionadora”

Investir em design foi o caminho adotado pela Coza para reinventar-se. A empresa gaúcha, hoje líder nacional no segmento de utilidades plásticas com design, originalmente fabricava calçados de plásticos. Em mais de 20 anos muita coisa mudou. E uma das responsáveis por essa história de sucesso é Cristina Zatti, coordenadora do Bureau de Criação da Coza.

Ao lado da mãe Vera e das irmãs Daniela e Manuela (presidente e gerente de marketing, respectivamente), Cristina Zatti criou um novo mercado para o plástico. A Coza produz objetos com estilo, formas e cores marcantes, sempre com muita funcionalidade e preços acessíveis – os produtos são encontrados até mesmo em supermercados.

Não por acaso, a empresa hoje exporta seus produtos para vários países: Argentina, Uruguai, Chile, Colômbia, Bolívia e Venezuela. O reconhecimento vem também dos concursos: a Coza já faturou 22 prêmios de design – inclusive o iF Awards e, em 2004, o mais importante do Brasil: do Museu da Casa Brasileira. O DesignBrasil fez uma entrevista exclusiva, por e-mail, com a coordenadora do Bureau de Criação da Coza.

Na conversa, ela conta como é o seu processo de trabalho. Confira.

 

DesignBrasil: Como e quando você descobriu que tinha vocação para fazer design?

Cristina Zatti: Desde que comecei a trabalhar na Coza e surgiu a necessidade de fazer um produto diferenciado.

 

DesignBrasil: Onde você estudou e se pós-graduou? Enquanto estudava, já trabalhava na empresa da sua família?

Cristina Zatti: Sim, já trabalhava. Fiz engenharia civil na PUC-RS e me pós-graduei em Matrizes para Moldes Plásticos na UCS, de Caxias do Sul.

 

DesignBrasil: Em muitas empresas o design é visto como um fator que confere estilo aos produtos ou, um nível acima, como ferramenta de trabalho. O design é visto como estratégico nas mais importantes decisões da Coza? Caso positivo, quais as vantagens que a Coza obtêm por investir nessa visão?

Cristina Zatti: Sim, é estratégico. As principais vantagens são a diferenciação, a nossa liderança no mercado e reconhecimento de marca que temos por parte do público.

 

DesignBrasil: O que a levou a perceber que seria preciso inovar por meio do design para valorizar os produtos da empresa? Quando isso aconteceu? O fato da empresa ser gerida por quatro mulheres facilitou na introdução dessa cultura?

Cristina Zatti: O design surgiu na Coza porque sentimos a necessidade de fazer um produto plástico com qualidade a partir daí fomos investindo em cores e formas. O fato de sermos mulheres facilitou sim porque como temos uma vivência maior, no nosso dia-a-dia, com o produto que fabricamos, conseguimos pensar em soluções melhores. A multifuncionalidade das peças, produtos encaixáveis e que são fáceis de limpar são exemplos.

 

DesignBrasil: Hoje a troca de informações é muito mais fácil do que quando você começou. Naquela época quais as vantagens e desvantagens de trabalhar com design no Rio Grande do Sul – um estado longe demais das capitais, conforme diz uma música dos conterrâneos Engenheiros do Hawaii?

Cristina Zatti: Foi difícil sim, mas acredito que difícil em qualquer lugar, em qualquer estado, pois na época não existia essa categoria. Nós que criamos o conceito de utilidades de plástico com design. Por Caxias do Sul ser uma cidade industrial, a distância nunca foi problema.

 

DesignBrasil: Qual é o seu papel como coordenadora do Bureau de Criação da Coza?

Cristina Zatti: Eu coordeno alguns escritórios que foram escolhidos por nós e analiso os projetos enviados por outros escritórios e estudantes.

 

DesignBrasil: Como é a equipe interna do Bureau de Criação? Quantas pessoas? Qual a formação? Com que estrutura o Bureau conta?

Cristina Zatti: Temos um escritório em Porto Alegre e, de lá, coordeno os escritórios e profissionais que trabalham conosco. Hoje trabalhamos com quatro equipes externas: o design Valter Bahcivanji, de São Paulo; a OD Design, do Rio de Janeiro; as designers cariocas Taciana Silva e Marcela Albuquerque; e o escritório Bornancini Petzold & Müller (dos designers Nelson Ivan Petzold, José Carlos Bornancini e Paulo Müller), de Porto Alegre. Internamente, a equipe é enxuta: eu e uma assistente.

 

DesignBrasil: A empresa trabalha com alguns designers e escritórios externos. Por que a empresa terceirizou parte de sua criação? Como foi o processo de escolha desses designers? E como é a relação da Coza com eles? Contratos anuais? Contratos por projetos? A Coza pretende ampliar esse quadro e quais as principais qualidades que você busca num profissional de design?

Cristina Zatti: Terceirizamos a criação porque acho importante diversificar, ter uma visão externa e também porque sozinha não conseguia atender todos os lançamentos. Sobre o processo de escolha, alguns escritórios foram escolhidos porque eram referência pra mim, outros porque tinham produtos que se identificavam com o nosso conceito ou matéria prima. Temos contrato por projeto e pagamos royalties por projeto. A Coza está sempre aberta a novos escritórios e profissionais. A principal qualidade é ter alguma coisa que se identifique com o estilo Coza, seja em matéria prima ou forma, mas é muito subjetivo. Pessoas que já trabalham com plástico entendem mais do processo, mas não é uma condição.

 

DesignBrasil: Um dos escritórios colaboradores da Coza é o Bornancini, Petzold e Müller. Como é trabalhar com Nelson Petzold, um dos mais ilustres designers brasileiros em atividade?

Cristina Zatti: É realmente um prazer, um lisonjeio, trabalhar com ele porque além de ser referência, é uma pessoa super culta e de uma experiência invejável. Muito mais que um arquiteto, ele é uma pessoa que entende de criação e de processos.

 

DesignBrasil: Como é a equipe de desenvolvimento de um produto? Quem participa e como é a dinâmica de trabalho dessa equipe? Cite um exemplo da importância da integração entre a criação, produção, marketing, comercial e engenharia.

Cristina Zatti: Trabalho no meu escritório com minha assistente. Fazemos reuniões periódicas com a diretoria e demais departamentos, onde são apresentados projetos e brifados os produtos, pois o departamento comercial e o marketing sempre vem com demandas. Também temos um escritório de projetos, a Traço Projeto, que trabalha com a gente na parte da execução do projeto dos moldes. Eles também estão integrados nessa equipe.

 

DesignBrasil: No mercado nacional e internacional, quais são os estados mais receptivos aos produtos da Coza e de que modo o Bureau de Criação leva em consideração essas informações de mercado ao desenvolver novas linhas?

Cristina Zatti: De longe, o mercado carioca é mais receptivo. Talvez pela localização geográfica, com seu litoral, ou por ser um povo que tem um jeito mais descontraído e que gosta de cores. Não se pode deixar de levar em consideração também o estado de São Paulo que é onde se concentra o maior número de clientes e o Nordeste por ser uma região com muitos estados com o mesmo tipo de comportamento. Juntos, esses estados formam um mercado muito representativo. Toda informação sempre é bem-vinda, às vezes fazemos um produto pensando numa região, como o Nordeste, por exemplo, porque sabemos que existe um volume significativo para absorver um produto específico.

 

DesignBrasil: Fale um pouco sobre o processo de criação da Linha Primavera/Verão 2005 da avaliação de tendências do briefing até o lançamento. Quando começou a criação dessa linha e quais os principais desafios da gestão do design em cada etapa?

Cristina Zatti: Nossa última coleção trabalhamos o conceito Coza Mix (foto ao lado) que são vários produtos combináveis entre si, que têm várias utilidades e que permitem várias combinações e misturas, de cores, formas e texturas. A principal característica é que as peças, todas na linha mesa, têm design inspirado em formas orgânicas. O processo iniciou no começo de 2005, quando em março lançamos dois pratos e vimos que tivemos boa aceitação, então em agosto ampliamos a linha.

 

DesignBrasil: A Coza investe em Pesquisa & Desenvolvimento? De que modo esse investimento tem trazido benefícios para a criação de novos produtos, com novas formas, cores e texturas e resistentes?

Cristina Zatti: Sim, investe. As nossas pesquisas qualitativas nos mostrou que as pessoas gostavam do produto polido por dentro porque tinham a sensação que era mais fácil de limpar e porque parecem estar sempre novos. Esse é um exemplo recente de como as pesquisas influenciaram na criação.

 

DesignBrasil: A Coza está lançando a linha Coza Baby e, anteriormente já saiu do segmento artigos para o lar ao lançar uma linha de acessórios para escritórios. Qual o principal desafio em desenvolver um produto para um público ou segmento que não é o consumidor típico da empresa?

Cristina Zatti: A Linha Baby (foto baixo do Kit Baby), na verdade, é consumida por um público que gosta e consome Coza, não é um público novo ou diferente do que já temos. São mães, tias, avós que já compravam para a casa e compram agora a linha porque tem um significado especial: elas confiam na qualidade Coza para dar para o seu bebê. Quando lançamos um produto num novo segmento, o desafio maior é da parte comercial da empresas em trabalhar com outro foco e abrir um novo caminho para a distribuição. Para o criador é mais fácil e prazeroso criar um produto que tenha uma carência no mercado.

 

DesignBrasil: Hoje em dia os produtos podem ser rapidamente copiados. Esse problema afeta a Coza? Caso positivo, cite exemplos e de que modo a empresa se protege?

Cristina Zatti: A gente se protege fazendo um produto de qualidade, investindo em marca e criando novos produtos sempre, assim temos a visão de ser uma empresa inovadora e de vanguarda. O design é o que diferencia a Coza da concorrência, nosso estilo é único, próprio, nos identifica e caracteriza.

 

DesignBrasil: Como é a distribuição, transporte e comercialização dos produtos Coza? E de que modo o Bureau de Criação considera esses aspectos ao criar novos produtos?

Cristina Zatti: Temos representantes que atendem a todo o Brasil e uma Central de Distribuição que garante a pronta entrega para todo o país em até 48 horas. Acho que o Bureau não influencia muito nessa questão. Talvez a única coisa que pode ser considerada é o empilhamento das peças, que facilita o transporte.

 

DesignBrasil: A Coza já faturou diversos prêmios de design no Brasil. Para você, qual a premiação mais significativa e de que modo esses prêmios ajudam no posicionamento da empresa no exterior e nas exportações?

Cristina Zatti: A Coza conta hoje com 22 prêmios conquistados, dentre eles, 15 prêmios Housewares & Gift de Design, sendo a empresa mais premiada. Acho que o primeiro e segundo lugar que ganhamos no ano passado no Prêmio Museu da Casa Brasileira com o prendedor multiuso (foto ao lado) e a linha Office foi muito significativo. Apesar de também já termos ganho prêmios internacionais, como o iF Design da Alemanha e o Macef da Itália, o Museu da Casa Brasileira é uma instituição importante e é o nosso maior prêmio no Brasil. Ser reconhecido dentro do mercado brasileiro, 95% do nosso faturamento, é muito significativo pra nós.

 

DesignBrasil: De todos os produtos já lançados pela Coza, qual é o seu predileto e por quê?

Cristina Zatti: É muito difícil ter um preferido, porque todos têm uma característica especial e é uma solução pra uma coisa diferente. Um que sempre me marcou por ser uma solução simples, é o porta-guardanapo, primeiro produto premiado da Coza. Até então, as pessoas precisavam dobrar o guardanapo para servir, foi uma solução inovadora para a época.

 

DesignBrasil: Design é 1% de inspiração e 99% de transpiração? Que métodos você utiliza para estimular a própria criatividade?

Cristina Zatti: A mais importante pra mim são as sugestões vindas do sites, consumidores e representantes que trabalham com nosso produto e que vêm até a Coza com uma necessidade. O que mais me estimula é criar soluções para as demandas que surgem desses vários canais. É um estímulo ver que essas pessoas que gostam da Coza pensam nela como um solucionadora.