iF Design Award: do que o homem é capaz quando desenha seu mundo com inteligência, paixão e arte

Por Editor DesignBrasil

Por Ronald Kapaz

Tive a honra e a felicidade de ter sido convidado para uma grande festa. Pela primeira vez na história de 60 anos do iF Design Award, um dos mais conceituados e completos prêmios de Design do mundo, um Brasileiro estaria integrando o júri de Communication Design, uma das áreas que cresce ano a ano como parte do amplo conjunto de categorias que compõem o iF – International Forum.

No total, éramos 50 juízes de 16 países, especialistas em suas áreas, que avaliariam 4.615 inscrições vindas de 55 países. Um trabalho intenso, e ainda assim e antes de tudo uma grande festa! Cheguei à meia-noite do dia 13 de Janeiro ao hotel que fica instalado no coração de um complexo de pavilhões de exposições onde, durante todo o ano, revezam-se eventos comerciais de alta especialidade e abrangência internacional, em Hanover, na Alemanha.

O primeiro encontro com os organizadores e jurados seria no dia seguinte, às 18:00 hs. Já no café da manhã procurei identificar alguns early birds que haviam chegado antes, como eu, no meio dos homens de terno que ocupavam a maioria do hotel, todos eles, soube depois, representantes de empresas de materiais para revestimento, a feira daquela semana.

Identificar um designer no meio de executivos não é tarefa difícil, e aos poucos fui reconhecendo, aqui e ali, combinando o vestuário diferenciado e o estilo com a foto dos jurados que estava no site do iF, os meus pares, com quem iria dividir estes três dias de reflexão, debate, troca, julgamento e prêmios. A festa estava para começar…

Qual é a importância de um prêmio de Design?

No contexto em que vivemos, em uma sociedade estruturada em torno de valores de troca, pressionados pelos drives de mercado, pela competitividade e pela sobrevivência, o foco de resultado e performance tende a ser sempre interpretado e determinado pela ótica do sucesso financeiro. Ser financeiramente bem sucedido é o “prêmio” de performance que o mercado lhe dá, baseado em resultados comerciais. E qual seria a régua que mede e “premia” a qualidade do Design enquanto linguagem, estilo, estética e cultura? Quem é que avalia o resultado “extra comercial” do Design, sua razão de ser como a expressão de valores e cultura de um povo e de um tempo?

Para isto é que existem os prêmios de Design, onde o foco, sem menosprezar ingenuamente a dimensão comercial que permeia a disciplina, está direcionado para discutir, avaliar, ponderar e elevar o patamar de qualidade do que será, ao final, identificado como a expressão do que é “bom design”.

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Chegamos ao pavilhão central de um total de quatro pavilhões onde, organizados e preparados para nossos olhos, mãos e juízo, estavam distribuídos os 4.615 produtos, das mais diversas categorias de objetos que se possa imaginar, vestígios de uma civilização: de tratores e veículos esportivos a luminárias, de embalagens de brinquedos a máquinas fotográficas, de cadeiras e camas a bicicletas, de sex toys a produtos cirúrgicos.

O complexo de pavilhões estava acomodado sob uma linda e impactante estrutura de madeira, construída para a Expo Mundial de 2000 em Hanover, que aterrisava elegantemente no solo através de pilares que se assemelhavam às pernas futuristas e tecnológicas de uma nave interestelar. Curiosamente, no coração desta “nave espacial”, no seu interior, os produtos do homem ali organizados, lado a lado, pareciam ser os achados de uma expedição exploratória a um outro tempo ou espaço, um tipo de sítio arqueológico onde, ao invés de restos de uma civilização passada, estavam ali organizados e catalogados, por tipologia, os produtos de uma civilização do futuro. Uma civilização pacífica, inteligente, que respeita seu semelhante e o seu ambiente, e que cultiva a harmonia, a ética e a estética.

Tudo parecia construir uma atmosfera mágica e um encontro com um mundo diferente e um tempo diferente. Um encontro com o belo, em sua melhor manifestação e potência, como a expressão do que é capaz o homem quando decide deixar sua marca no mundo e moldá-lo à sua imagem e semelhança.

Os arqueólogos/designers/jurados ali reunidos, de culturas diferentes, chamados a interpretar e atribuir valor aos “achados”, vinham de mundos distintos e falavam línguas distintas mas, através da magia da linguagem comum do Design, dialogaram, debateram e se entenderam como numa Babel que encontrou a harmonia na paixão pelo Design.

“And the Lord said, Behold, the people is one, and they have all one language; and this they begin to do: and now nothing will be restrained from them, which they have imagined to do.”

King James version of the Bible, The Tower of Babel, Book of Genesis

“E o Senhor disse: Eis que o povo é um, e todos têm uma mesma língua, e isso eles começam a fazer: e agora, não haverá restrição para tudo o que eles imaginarem fazer.”

Volto com a feliz sensação de ter podido ver de perto, em cada objeto ali reunido, a alma humana em sua melhor expressão. Feliz por ter compartilhado um tempo precioso e rico de conhecimento e diálogo com colegas inspiradores e apaixonados (não pude conhecer a todos e isso me deixa um pouco triste…). E atento, por ter percebido que o Brasil, mesmo tendo conquistado diversos prêmios, o que é muito bom, ainda tem pela frente uma longa jornada de maturação, investimento e consolidação para ocupar o lugar que pode e lhe cabe ocupar neste Forum Internacional.

 

Este artigo está também disponível em inglês no site do iF.

 

Sobre o autor:

kapaz

Ronald Kapaz é sócio fundador e Diretor de Estratégia e Design da Oz Estratégia+Design

1 Comentário

  1. Fabiano disse:

    Excelente texto!