Design Corporativo

Por Mario Fioretti

Design de produto, design de interiores, experience design, service design…as variações sobre  tema design são múltiplas, e todas fazem sentido, para se adequar às especificidades cada vez maiores do mercado de trabalho. Bem, nem todas: já vi anúncios oferecendo design de sobrancelhas, o que mostra alguns exageros!

Mas pouco se fala sobre design corporativo, área onde atuei por toda minha carreira, e senti na pele a evolução da relevância desse profissional que é responsável pelo desenvolvimento e produção de produtos e serviços, numa escala muitas vezes impressionante.

Tive a felicidade de trabalhar e ajudar a desenvolver uma área de design capaz de contribuir com os resultados da Whirlpool, uma indústria que estava a ponto de se transformar numa mesmice monótona e funcional – eletrodomésticos de grande porte, como geladeiras, fogões e lavadoras, entre muitas outras categorias.

Começando como designer de produtos, ao longo de minha carreira de mais de 30 anos eu tive a oportunidade de ocupar espaços, numa empresa cuja concorrência tornava-se cada vez melhor e mais agressiva no mercado e, portanto, precisando de toda a ajuda possível para manter a liderança de suas marcas. A direção dessa companhia desde cedo sabia que o design de seus produtos era fator decisivo num ponto de venda onde a cada dia o consumidor tinha mais e mais opções de produtos e soluções. Assim, com o tempo, o mesmo designer que desenhava os produtos começou também a projetar os displays onde esses produtos seriam expostos, entregando a solução completa. O sucesso e o interesse cresciam por uma área que visivelmente podia contribuir mais com os resultados de vendas ao fim do mês. Quando surgiram as primeiras store-in-store, espaços dedicados das marcas Brastemp e Consul dentro das grandes redes varejistas como Ponto Frio, Colombo ou FastShop, nossa área dava o suporte aos arquitetos reproduzindo naqueles espaços o mesmo espírito presente nos produtos que desenhávamos, traduzindo valores de marca que só quem convive com ela no dia a dia sabe expressar com certeza e objetividade.

Internamente, seguíamos incorporando competências importantes para o desenvolvimento de nossos projetos. Ao lado de designers de produto e designers gráficos, começamos a desenvolver experience designers, profissionais que tinham a responsabilidade de interpretar e reproduzir as melhores experiências de uso de um produto, aprimorando a interface para que fosse mais simples e amigável, mesmo para produtos de programação mais complexa, interpretando quais sons e feedbacks o produto deveria emitir, para que a experiência de uso fosse melhor em todos os sentidos, e materiais cujo tato, cor e brilho fossem agradáveis e remetessem à alta qualidade.

Nessa linha, criamos também uma área de Qualidade Sensorial, o chamado craftsmanship, que identifica todas as oportunidades de um produto ser mais bem construído, com o menor número possível de parafusos e encaixes que juntariam sujeira ou ao menos intefeririam o olhar. Essa função tinha por objetivo fazer com que o produto imaginado pelo designer no início do projeto, quando tudo ainda era um sonho, não se transformasse num pesadelo na hora de ser fabricado, garantindo uma qualidade aparente, construtiva, que ia desde a perfeição de montagem até a integridade da embalagem que o consumidor receberia em sua casa.

O ponto alto da evolução da participação dos designers na direção dos projetos mais rdesign corporativoelevantes da companhia foi a introdução do service design, quando profissionais treinados e competentes foram chamados para ajudar a construir a jornada do consumidor da maquina de bebidas Brastemp Bblend, identificando as oportunidades de melhor conduzir um consumidor através de um novo modelo de negócio, com um conceito de consumo totalmente diferente daquilo que existia até então – a compra e uso de cápsulas de bebidas ao invés das embalagens tradicionais, ajudando a Whirlpool a navegar num ambiente totalmente desconhecido para ela até então. Desde o primeiro contato, o primeiro uso, passando pela compra, instalação e aquisição das cápsulas. Era o design atuando em esferas muito além do produto, influenciando uma grande empresa a obter grandes resultados.

O design corporativo é, portanto, um segmento de nossa profissão que exige um pensamento holístico, que flerta com o marketing e a produção, que tem um pouco de psicólogo e outro tanto de vendedor, e que mexe com cifras impressionantes. A inserção de um simples detalhe construtivo ou uma etiqueta, que custe apenas 30 centavos a mais no produto, pode significar um impacto de mais de 1,5 milhão de reais no resultado ano. E se ao invés disso, o designer souber como economizar 30 centavos nesse mesmo produto, significa um lucro extra de 1,5 milhão de reais no caixa da companhia. Essa simples conta mostra porque as empresas que se utilizam bem dessa disciplina são melhores e mais rentáveis que as que consideram a contratação desse profissional um investimento extra e desnecessário.

Contei isso tudo para mostrar a força que o design tem, quando bem aplicado, para levar uma empresa a competir pela liderança de mercado, sem mágicas, sem grandes investimentos, sem alta tecnologia, apenas bons profissionais aproveitando ao máximo as oportunidades que o mercado oferece.