Design desregrado

Por Fernando Mascaro

Nunca acreditei em regras como solução, aliás não gosto de regras, normas ou padrões, essas coisas que tornam nossas vidas cada vez mais monotônicas, mas foi através delas que descobri em um determinado momento de minha vida profissional um mundo fascinante, o da produção industrial massiva.

Há 25 anos fui convidado a montar e gerir uma área de design e desenvolvimento de produto numa indústria de calçados, mais precisamente numa fábrica de tênis que detinha a licença de 8 diferentes marcas, todas estrangeiras.  Nunca havia desenhado um tênis na vida… nem os usava direito a não ser em fins de semana semi esportivos…  Percebi que cada uma delas tinha seus próprios “standards” que, na maior parte, não coincidiam uns com os outros.   Achei que seria um trabalho insano entender e fazer funcionar 8 linhas de produção simultaneamente com diferentes especificações, mas aos poucos fui descobrindo que o mais importante seria preparar um mix flexível (sorte minha não ter vícios fabris…) de procedimentos que contemplasse as 8 marcas e que permitisse mudanças conforme novos cenários (modelos) que aparecessem a cada coleção… padrões tem a pretensão de taxar as coisas como definitivas, imutáveis… tem que ser assim e só desse jeito “ad aeternum”… foi um desafio, uma descoberta, uma experiência e um aprendizado fantásticos!

Daí, para mim, o design tem uma coisa que acho bacana: não pode ter regras. Tem que haver um balanço dinâmico entre emoção e lógica nesta ordem, pois o produto resulta de um conjunto de fatores intangíveis e requer um time de profissionais com diferentes formações, opiniões e inquietudes trabalhando em sintonia desde o início, desde a concepção. Forma e função não tem valor se não houver emoção. Foi assim que fizemos nesta indústria de calçados, montamos uma equipe composta por pessoas, primeiramente da cadeia interna, de suprimentos à linha de produção.  Na sequência, puxamos as da cadeia externa, dos representantes de vendas, lojistas até chegarmos ao nosso foco, o consumidor (valor!).  Obviamente não posso deixar de reforçar que a principal figura é ele (“o” consumidor) e considerada a mais intangível do conjunto até que entre no circuito e quebre o paradigma de que não sabe dizer o que quer. Sabe sim… e como!  Talvez nós designers focados na produção industrial não estejamos atentos o suficiente para ouvir e traduzir… perceber e tangibilizar… surpreender e sermos nós mesmos surpreendidos com os resultados sejam eles utilitários ou decorativos… um carro ou um sapato… um liquidificador ou uma caneta!
 
Diferentemente do design autoral, aquele de pequena tiragem, quase delicadas esculturas, focado em um nicho e com um custo (que é diferente de valor) muitas vezes inatingível para o consumidor comum, o “industrial design” tem que garantir que o produto seja reconhecido por dezenas de milhões de consumidores e, mais ainda, com a função social importantíssima de garantir a empregabilidade de outros milhões de pessoas.  E aqui falo de valor e não de custo. Valor é o que se reconhece e custo o que se pratica. Por isso a importância de estarmos na cadeia de consumo. Por isso falo em surpreender com produtos de massa, mas de maneira que o consumidor se sinta único com peças que, obviamente, não são únicas.

Estamos no limiar de importantes chacoalhadas na cadeia de consumo.  As impressoras 3D estão aí mudando todas as relações industriais e comerciais… quem faz as regras, quem dá as cartas, quem estipula o valor… cada vez mais o consumidor é co-autor do projeto (quem disse que ele não sabe o quer?) e resignifica as relações de mercado.  Já estamos imprimindo nossos desejos em casa e daí quem dá as cartas?

Tem uma frase do Ferran Adrià, conhecido e reconhecido designer de “sensações visuais, olfativas e gustativas” que diz “não há uma boa ou má cozinha, mas apenas aquela que você gosta mais” e esse “você” não somos nós, supostos autores do projeto, mas o consumidor… afinal, cozinhamos para quem, projetamos para quem?

Como disse no início, acredito que regras existem para serem quebradas e o design entra neste cenário como a mais poderosa ferramenta demolidora de impossibilidades.  Nosso papel no conjunto tem que ser o de anarquistas que vão à luta para ajudar a democratizar o acesso ao consumo de forma inteligente e sustentável.  Para isso, não precisamos de standards, mas de entregar antes de tudo novas experiências que surpreendam o consumidor.  Talvez seja esta a única norma à qual devemos estar atrelados.

Veja também

19 Comentários

  1. Maria Alice Miller disse:

    mUITO BOM TEXTO: DE ADMINISTRADORA (QUE GOSTARIA MUITO DE TER TRABALHADO EM LINHA DE PRODUÇÃO), A DESIGNER DE INTERIORES, ACHEI MUITO, MUITO ESCLARECEDOR!

    1. fernando mascaro disse:

      oi maria alice! obrigado por sua gentileza! abraço!

  2. laura disse:

    Gostei muito do foco q vc deu ao texto. Gostaria de saber da sua disponibilidade para uma palestra sobre esse assunto do artigo, que achei perfeito para nosso evento, o design shake. Em que misturamos o curso de moda com design de interiores.

    Se tiver interesse ,a palestra será no encerramento do evento no dia 16 de outubro a noite na universidade Tiradentes , em
    , Sergipe. Mande seu contar que envio o projeto para q possa conhecer melhor o evento.

    1. fernando mascaro disse:

      oi laura! obrigado! já lhe enviei um email! abraço!

  3. Velcy Soutier disse:

    A propósito desta filosofia voltada para o consumidor, lembro minha dissertação de mestrado em design e tecnologia pela ufrgs, que intitulei “design e emoção: a mediação do designer na interpretação dos desejos e necessidades das pessoas”, disponível na internet. Parabéns, fernando, pela contribuição ao design e emoção.

    1. feRNANDO MASCARO disse:

      OI VELCY! OBRIGADO POR COMENTAR! SOMOS DE FATO OS TRADUTORES DE EMOÇÕES… NO DESIGN AUTORAL É SUA EMOÇÃO QUE ESTÁ SENDO EXTERNADA E NA PRODUÇÃO EM MASSA É PRECISO SINTETIZAR AS EMOÇÕES DE UM GRANDE GRUPO DE PESSOAS… UMA COISA NÃO SE SOBREPÕE À OUTRA E CONFESSO QUE o desafio da indústria é estimulante! estamos numa roda viva que nos impõe um ritmo maluco e desconcertante, pois não há o menor sinal de rotina… vivemos roteiristicamente! abraço!

  4. Violêta Kubrusly disse:

    PRECISA E contemporânea visão Do criativo E competente arquiteto E designer Fernando Mascaro. Compartilhando.

    1. fernando mascaro disse:

      viõ! obrigado pelos elogios (vc é suspeita rsrsrs!) e por compartilhar! baci!

  5. Alvaro Carvalho disse:

    FM, concordo plenamente com você.
    Quem manda é o consumidor que cada dia sabe melhor escolher.
    Quem cria tem que se virar do avesso para ver ao contrário, voltar e ver novamente e novamente….
    Ao contrário, eu não produzo em escala e sinto na pele esse problema.
    Sou artesanal…..

    1. FERNANDO MASCARO disse:

      então, meu querido alvaro, é isso mesmo… o consumidor é cada vez mais co-autor trabalhando em parceria com os designers… é possível customizar na produção em massa com as tecnologias fabris existentes… e mais ainda com as impressoras 3d o consumidor se apropria da criação!

  6. HERMAN ZONIS disse:

    eXCELENTE TEXTO, FICO FELIZ DE VOCE TER TIRADO ESTA FOTOGRAFIA

    1. fernando mascaro disse:

      obrigado herman! foi uma tentativa de contar um pouco sobre os leões que temos que matar no dia a dia!

  7. fernando cunha lima disse:

    fernando parabéns estou com tigo, regras são feitas para serem quebradas..
    desing é emoção e regra, cabe a cada um descobrir a dosagem ideal.

    1. fernando mascaro disse:

      caro fernando, isso mesmo design é emoção… se não emocionar não é design… até mais!

  8. Carmen dos Anjos disse:

    Parabéns Fernando, já o admirava de muito tempo atrás, através de um amigo comum Oswaldo Saiki, eu e ele arquitetos como você, mas seu texto cabe em muitas situações vivenciadas quase que diariamente no desempenho de nossos trabalhos.
    Sugiro e adoraria ter vc vomo palestrante para profissionais da area de arwuitetura e design no ABC, topas?
    Muito mais Sucesso a você e obrigada pela contribuição.
    Arq. Carmen dos Anjos

    1. Fernando Mascaro disse:

      Olá Carmen, tudo bem?
      Obrigado pela mensagem!
      Então, temos em comum nosso amigo Oswaldo (agora Ozzy depois de tantos anos nos EUA!)… amigos desde o escritório do Carlos Ferro em Sampa e depois trabalhamos juntos na Vulcabrás… grande cara e profissional de primeira!
      Pois é, vivemos num mundo regrado demais!
      Quase nem posso mais ver a ABNT pela frente… rsrsrsrs!
      Será um prazer conhecê-la e participar de algum evento com os colegas do ABC.
      Abraço e até breve!
      Fernando

  9. Dassaed Alencar disse:

    Primeiramente parabéns pelo belo trabalho. Trabalho há alguns anos no segmento gráfico e como Freelancer nas horas vagas, seu texto me lembra muito uma aula de MKT onde vimos a diferença entre “Foco NO cliente e Foco DO cliente”. O Trabalho do Designer em tentar expressar o real desejo do cliente em forma de mídia, seja ela impressa ou digital é sempre será o grande desafio de nossa profissão. Aproveitando o ensejo, gostaria de saber se indica algum curso em específico para aprimoramento de nossas habilidades?

    1. Fernando Mascaro disse:

      Caro Dassaed, bom dia!
      Em primeiro lugar desejo um super 2016 a vc e sua família!
      E obrigado por seu comentário!
      De fato, precisamos estar sempre atentos para perceber qual é o “foco do cliente” caso contrário seremos aqueles “chatos” que acham que sabem o que ele quer… como designers, seja na área visual ou de produto, temos que ser os tradutores dos desejos do consumidor… dizem que o consumidor não sabe o que quer… sabe sim, só não sabe desenhar o que deseja e aí é que nós entramos para surpreendê-lo!
      Sobre os cursos que vc pergunta… há agora essa “moda” do design thinking… eu acredito no design thinking and doing, pois não adianta só pensar e não agir… o melhor lance é “colar” no grupo de seu foco e vivenciar” os seus cenários… assim a gente aprende qual é a sua cultura… desconheço fórmulas, mas garanto que o exercício constante muda a nossa maneira de traduzir os desejos.
      Espero ter ajudado!
      Abraço e até qquer hora!